Ramires, Gonçalo Mendes

Gonçalo Ramires por Tomaz de Melo (Tom)

           Personagem principal d’A Ilustre Casa de Ramires, Gonçalo Mendes Ramires assume traços de grande especificidade no universo da obra queirosiana,  em primeira instância porque quase toda a história se encontra subordinada ao seu ponto de vista, dependendo, consequentemente, deste a caracterização das restantes personagens e das situações descritas. Para além disso, são também constantes as incursões no mundo interior do protagonista, propiciadas pelo facto de Gonçalo  ser a única personagem do romance a revelar uma verdadeira densidade psicológica, não raro representada em registo de auto-análise; este facto inscreve desde logo a subjetividade da personagem no texto, assim se evidenciando a evolução literária de um Eça que havia superado a ilusão da  objetividade realista.

            O destaque de Gonçalo  decorre ainda do facto de ser ele, paralelamente, o autor de uma outra história inserida no romance, a novela histórica A Torre de D. Ramires. Esta situação  permite frequentes considerações acerca do ato de escrever e suas dificuldades, incluindo-se nelas o trauma do plágio, temas estes de clara ressonância queirosiana.

            No cap. I, tendo sido introduzido pelo narrador no presente da ação, conhecemos Gonçalo Ramires, jovem estudante em Coimbra, «moço muito afável, esbelto e louro, de uma brancura sã de porcelana, com uns finos e risonhos olhos que facilmente se enterneciam, sempre elegante e apurado». É desde aqui que surge a sua inclinação para o partido Regenerador que «representava tradicionalmente ideias de conservantismo, de elegância culta e de generosidade», o que parece anunciar, desde logo, a futura carreira política do protagonista. Empenhado neste projeto e impelido pela ideia de «ressurreição do sentimento português» protagonizado por José Lúcio Castanheiro, Gonçalo decide enveredar pela carreira das Letras como meio para atingir fins políticos. É logo na sua juventude que se propõe escrever um romance histórico «fundado nos anais da sua casa, num rude feito de sublime orgulho de Tructesindo Mendes Ramires» e que virá a ser A Torre de D. Ramires. O projeto é concretizado anos mais tarde, depois de Gonçalo se formar «bacharel com um R no terceiro ano» e de voltar a instalar-se na Torre que, «fundada em glória e força» e «na sua soberana altura e velhice», remete simbolicamente para as gerações que o antecederam.

             Apesar de  ser autónoma em relação à história principal, a novela A Torre de D. Ramires constitui um complemento imprescindível à interpretação tanto dos significados ideológicos do romance, como da estrutura psicológica do Fidalgo da Torre e sua evolução. Isto porque os dois níveis narrativos (o da história principal e o da novela) estão articulados de modo a que se estabeleça entre eles uma oposição comparativa, que faz contrastar os valores do passado (como a honra, a lealdade e a vingança) com a sua ausência ou recusa no presente. É a perceção paulatina desta discrepância que, culminando no cap. X com uma aparição onírica dos seus antepassados, opera em Gonçalo Ramires  uma profunda transformação comportamental. Até então dominado pelo medo e pela cobardia, subestimando orgulho, palavra  e nome em prol de interesses políticos e económicos, extremamente  influenciável, leviano e incoerente, «como massa inerte a que o mundo constantemente imprime formas várias e contrárias», Gonçalo  muda drástica e radicalmente de atitude, relativizando e minimizando a vida e os valores pelos quais até então se regera. Esta consciencialização é corroborada pelo abandono da condição de deputado em Lisboa, cargo que sempre fora a sua maior ambição, e pela partida para África, como solução de rutura com uma existência nula e parasitária e como possibilidade de concretização de um impulso de regeneração.

            No final do romance (cap. XII), é ainda sob a  perspetiva de uma personagem secundária, João Gouveia, que nos é apresentada uma síntese do carácter de Gonçalo; tal síntese condensa o seu comportamento ao longo da diegese e, para aquela personagem, permite ver no protagonista uma semelhança simbólica com  Portugal.

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2 Comentários

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