III Encontro do Grupo Eça

Anúncios

A grande arte de Eça

Eça renovou a língua portuguesa; ele tem graça, tem agilidade, tem sátira, é cómico, é divertido, sem deixar, ao mesmo tempo, de ser muito sério, sob essa graça que ele tem,   porque é assim que se faz a grande arte.

No Brasil há uma espécie de meio irmão de Eça de Queirós, chamado Machado de Assis, que, sob a capa de uma ironia às vezes uma pouco melancólica, também faz passar, como Eça, mensagens muito importantes sobre a vida, sobre o amor, sobre a morte, sobre a esperança, sobre a decadência, sobre tudo isso de que se fez a arte destes grandes escritores do século XIX.

(entrevista a TV Paranaíba, 3 de agosto de 2018; ver aqui)

 

Artur Corvelo

 

Por António

Protagonista do romance A Capital! (que o autor deixou inacabado), Artur Corvelo é configurado como um jovem burguês de “temperamento linfático e calmo” (Queirós, 1992: 102), que deseja sair da província, pois aspira ser reconhecido na sociedade através do seu talento artístico. Fica claro desde o início do romance que a personagem funciona como um tipo representativo da sociedade do último quartel do século XIX, uma vez que ela se desenvolve e se mostra envolvendo as dimensões política e sociocultural.

Com efeito, por influência do meio ambiente, da hereditariedade e do momento histórico (fatores essenciais às estratégias naturalistas de configuração das personagens), Artur faz o percurso típico do jovem burguês que, à custa da gestão apertada e económica dos pais, vai estudar para Coimbra, não conseguindo, no entanto, alcançar o objetivo pretendido: tornar-se bacharel em Direito. Este insucesso é devido não só ao seu temperamento fraco, indeciso e passivo como também ao sentimentalismo nele incutido desde a infância – características que são exacerbadas pelo contacto com a deletéria boémia coimbrã. Dispersando a sua energia em leituras românticas e em amores sonhados ou de ocasião, Artur termina o seu ano de caloiro reprovado; quando lhe morrem os pais, depressa esbanja, de forma dissoluta, o magro pecúlio da venda dos seus bens, tendo de ir procurar refúgio junto de umas tias e de uma prima em Oliveira de Azeméis.

Os anos de Coimbra configuram-se como anos de aprendizagem realizada através do convívio com os rapazes do Cenáculo responsáveis pela publicação do jornal O Pensamento. É neste contexto que Artur contacta com o ideário revolucionário republicano ou vagamente socialista e com o pensamento de autores como Comte, Proudhon, Stuart Mill e Spencer. No entanto, este ideário não é absorvido em profundidade, triunfando em Artur um idealismo enformado pela sua preferência pelos cantores do amor, da ironia e do sofrimento românticos e por autores como Vítor Hugo, Musset, Heine e Gautier.

Desterrado em Oliveira de Azeméis, considera-se um espírito desajustado e incompreendido, no comezinho e materialista meio provinciano. Passa o tempo que lhe deixa o detestado emprego, como ajudante de botica, a elaborar versos românticos reunidos sob o pouco original título Esmaltes e Joias, coletânea onde alguns poemas adquirem uma coloração mais revolucionário e democrática apenas por influência de amigos ou quando algum revés social lhe acirra temporariamente o ânimo. Transporta o seu desajuste social e a sua insatisfação para a escrita do drama Amores de Poeta, quando o robusto Rabecaz, o seu companheiro de botequim, lhe assegura ser essa a maneira mais fácil de concretizar o sonho de se tornar famoso em Lisboa. Trata-se de um drama que constitui uma mise en abyme da sua própria situação e da sua paixão platónica por uma Baronesa que entrevira na estação de comboio de Ovar, mas que, na sua perspetiva, é uma forma sofrida de expor a pretensão de ascensão social da classe média culta contrariada pela elite aristocrática e pela burguesia endinheirada e materialista. Tanto o percurso de Artur como o do seu protagonista espelham os traços principais da sociedade liberal oitocentista, resultante dos movimentos revolucionários que trouxeram uma maior mobilidade dos indivíduos e um novo humanismo, mas também uma mediania socialmente niveladora (cf. Dufour, 2013: 19). Neste sentido (e na senda do garrettiano Carlos), Artur encarna as contradições de uma burguesia que apenas é revolucionária enquanto aspira às regalias dos privilegiados económica e socialmente, oscilando entre o ódio ao burguês e a ambição de ter o seu conforto, entre a admiração idealizada da aristocracia e a rejeição democrática dos seus privilégios elitistas. (continuar a ler)

Maria João Simões, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa

Eça e Oliveira Martins

Eça: expressão da alteridade

23.04 Carlos Reis-page-001

Os Maias: edição crítica (3)

Para além das considerações genéticas e da análise do projeto literário que,  com avanços e recuos,  certezas e vacilações, conduziu ao  texto d’Os Maias, importa notar que ele só se concretizou como romance na sequência de um processo de publicação consideravelmente demorado e atribulado. Incluindo incidentes que chegaram a fazer perigar a sobrevivência  da obra, esse processo de publicação envolve vários componentes e decisões: o dimensionamento e mesmo o redimensionamento de um relato amplo e complexo a que Eça chamou uma “vasta machine” (voltaremos a esta expressão), as reelaborações que, já em plena composição tipográfica, o escritor levou a cabo, os atrasos, as omissões e os desleixos que aquela composição conheceu, as inserções na imprensa, incluindo duas publicações integrais em folhetim, por fim a edição em livro propriamente dita. Como já sabemos, tudo isto arrastou-se por quase uma década, sendo notório que a ausência de Eça no estrangeiro (com exceção de  visitas a Portugal, algumas delas  durante a escrita do romance) era uma dificuldade suplementar, no tocante aos contactos inevitáveis com as gráficas por onde o romance passou, até ver a luz do dia, em 1888.

                Se incluímos o dimensionamento e o eventual  redimensionamento do romance na fase da publicação é porque acreditamos que, em parte, ele terá decorrido quando o trabalho tipográfico já estava em curso, uma vez que, em princípios dos anos 80, o romance se encontrava na tipografia. Com efeito, nessa altura  Eça debatia-se com provas e com tipógrafos;  ao mesmo tempo,  ia completando e talvez reformulando, em regime expansivo, o seu romance.

A hipótese que neste momento aventamos é a seguinte:  Eça pode ter procedido a intervenções substanciais tanto no texto do romance, como na economia interna da ação e do tempo, quando uma parte importante do original já estava na tipografia e possivelmente em provas; e isso  poderá ter obrigado a reajustamentos e a correções em capítulos e  em episódios  dados por concluídos.  Um indício que aponta no sentido de um desses reajustamentos (e é por isso que ele nos interessa) colhe-se num anacronismo detetado num passo do jantar do Hotel Central;  um lapso que é tanto mais estranho quanto é certo que Eça (e os romancistas coevos, em geral) cuidava ao extremo de todos os pormenores que pudessem pôr em causa a coerência e a verosimilhança interna da narrativa.

(Da “Introdução” a Eça de Queirós, Os Maias. Episódios da Vida Romântica. Edição de Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha. Lisboa: Imprensa Nacional, 2017).

(Mais informações aqui)

Os Maias: Lisboa, quarta-feira, dia 21

Os Maias: edição crítica (2)

No final da década de 70, quando eram muito vivos em Eça de Queirós o entusiasmo reformista e a militância literária em prol do realismo e do naturalismo, o escritor delineou um projeto que, como aconteceu com vários outros por ele concebidos, não passou disso mesmo. O episódio é conhecido e, por isso, evocamo-lo aqui apenas por aquilo em que  ele importa para a presente introdução.

Subordinado ao título Cenas da Vida Real  (ou Crónica do Vício; ou  Crónicas da Vida Sentimental;  ou Cenas Portuguesas; ou Cenas da Vida Portuguesa. A designação nunca se estabilizou), esse projeto de matriz balzaquiana incluía vários títulos e, relativamente a cada um deles, diferentes temas com impacto social e moral. Passava-se isto, convém lembrar, num período criativo verdadeiramente frenético para Eça, período em que se inclui a publicação e a republicação d’O Primo Basílio, a escrita da Capital!  e a reescrita d’O Crime do Padre Amaro. Isso não o impediu, todavia, de engendrar outras  iniciativas literárias.

Ernesto Chardron

A correspondência de Eça dos anos de 1877 e 1878 é elucidativa do que foi este projeto e da sua relação com Os Maias. É sobretudo (e como é natural) nas cartas ao editor de então, Ernesto Chardron, que as alusões às Cenas são significativas. Referimo-nos a uma carta de 5 de outubro de 1877, com todo o aspeto de ser a primeira em que Eça descreve o seu projeto: logo então, fala em “pequenos romances não excedendo a[s] 180, 200 páginas”, acrescentando mais adiante que “estas novelas deveriam ser curtas, condensadas”. O plano  contemplava diferentes assuntos, sendo uma das novelas um “drama de incesto doméstico”; era justamente essa que, dizia o romancista, “está pronta – é só copiá-la: chama-se O Desastre da Travessa do Caldas; ou talvez, não sei ainda: O Caso Atroz de Genoveva. Trata-se dum incesto. Dará, creio, 200 páginas, ou mais” (Eça de Queirós, Correspondência. Organização e anotações de A. Campos Matos. Lisboa: Caminho, 2008, vol. I, pp. 149-150).

Alguns comentários a estas palavras. Primeiro, o tema central d’Os Maias –o incesto – está explícito, logo em 1877. Segundo, os títulos aventados lembram claramente A Tragédia da Rua das Flores e não Os Maias. Terceiro, a narrativa ameaça ir além dos limites previstos:  “200 páginas, ou mais”, avisa Eça, confirmando aquela sua conhecida tendência para a expansão de planos narrativos; disso mesmo e por esta mesma época tratavam cartas trocadas com o mesmo editor, a propósito da escrita d’A Capital! – que não parava de crescer…

Novas alusões às Cenas surgem em correspondência para o mesmo destinatário, com datas de 3 de novembro do mesmo ano, de 4 de abril, de 2 de maio, de 28 de junho e de 4 de agosto de 1878. As duas últimas cartas incluem referências interessantes, mostrando que Os Maias estavam a caminho e em processo de autonomização, relativamente às Cenas.

            Assim, na carta de junho, aparece explicitamente, como o número XII, o título Os Maias e já não há rasto da Travessa do Caldas ou de Genoveva. Além disso, reaparece o vezo expansivo: Eça pede ao editor que “diga se lhe é inconveniente que alguns contos tenham 250 páginas”.  Aquelas 250 páginas falam por si: o que está a caminho não são contos (com 250 páginas?!), mas sim romances, com uma dimensão material e temática considerável, à maneira do século XIX. Por alguma razão Eça diz, na carta de 4 de agosto: “Tem-me tomado tempo, pôr em linhas gerais este trabalho que é vasto – e mais importante e interessante que ao princípio pensei” (Correspondência, I, p. 188).

(C. Reis e M. do Rosário Cunha, “Introdução” [extrato] à edição crítica d’Os Maias. Lisboa: Imprensa Nacional, 2017)

 

Os Maias: edição crítica (1)

No desenvolvimento da Edição Crítica das Obras de Eça Queirós, chega-se agora ao seu opus magnum, o romance Os Maias. Episódios da Vida Romântica,  publicado pela primeira vez em 1888.  Esta que é inquestionavelmente a obra mais conhecida, celebrada, estudada e imitada de Eça de Queirós constitui o ponto mais alto não só da sua produção literária, mas também da ficção portuguesa em todos os séculos.

Por força da sua dimensão e da sua complexidade narrativa e temática, Os Maias exigiram demorada e trabalhosa escrita. Para além disso, durante cerca de dez anos, a acidentada e intermitente composição d’Os Maias conviveu com outros projetos e publicações.  Por exemplo, com A Relíquia, de 1887, e com A Correspondência de Fradique Mendes, cujos primeiros textos surgiram naquele ano de 1888. Durante esse tempo, com avanços e com  recuos, com dúvidas e com entusiasmos (porventura mais aquelas do que estes…), Eça consagrou-se a uma tarefa  cujo alcance literário e pertinência crítica não cessam de nos surpreender. A bem conhecida expressão que o romancista usou, numa carta de 20 de fevereiro de 1881 a Ramalho Ortigão, quando falou de “um romance em que pusesse tudo o que [tinha] no saco”, não consente muitas interpretações, para além daquela que é reforçada pelo contexto em que aparece: tratava-se de uma empresa extremamente ambiciosa,  expressão culminante e genial de muito daquilo que Eça tinha para dizer aos seus contemporâneos e à posteridade.

E contudo, a escrita, a revisão e a edição d’Os Maias  não estiveram isentas de dificuldades várias e de incidentes que, sendo em parte explicados pelo facto de o escritor viver fora de Portugal, quase levaram ao fracasso da iniciativa. Conforme na introdução a esta edição crítica está relatado de forma circunstanciada, Os Maias podiam simplesmente ter-se perdido, vítimas da desorganização e do desleixo de uma tipografia lisboeta. Felizmente não foi assim, para nosso benefício, como leitores e como admiradores desta “vasta machine”, conforme lhe chamou Eça, em carta de 10 de maio de 1884 a Oliveira Martins.

Importa notar que, um tanto paradoxalmente, Os Maias não foram, no seu tempo, uma obra com grande sucesso comercial, quando comparada com aquelas (e não foram muitas)  que foram dadas à estampa em vida de Eça. Desse conjunto, Os Maias são o único título  que não conheceu uma nova edição, até 1900 (a segunda edição é provavelmente de 1903). Do mesmo modo, a fortuna crítica d’Os Maias, na época em que o romance viu a luz da publicidade, esteve longe de ser unanimemente favorável; isto, é claro, para além de azedas reações provocadas por certas personagens, que alegadamente caricaturavam, com a agudeza do traço estilístico queirosiano, figuras respeitáveis da vida pública portuguesa. (…)

Digamo-lo de forma clara: a edição crítica d’Os Maias não enfrenta os problemas levantados pel’O Crime do Padre Amaro, pel’O Mistério da Estrada de Sintra ou pel’A Correspondência de Fradique Mendes – para só referir alguns dos títulos que foram já editados, no âmbito desta série. Ainda assim, os procedimentos de escrita e as circunstâncias que rodearam a composição tipográfica e a revisão do texto d’Os Maias, ao longo de um lapso temporal muito alargado, determinaram oscilações, vacilações e divergências de vária ordem, que tiveram de ser resolvidos com ponderação verdadeiramente crítica. Junte-se a isto a extensão de um relato que ocupa muitas centenas de páginas e reconhecer-se-á que a tarefa é mais complexa do que aparenta.  As notas ao texto e os critérios editoriais que constam da introdução que adiante pode ler-se confirmam o que se afirmou. (…)

C. Reis, Nota Prefacial a Os Maias. Edição de C. Reis e M. do Rosário Cunha. Lisboa: Imp. Nacional, 2017.

Eça e a personagem como ficção

Acácio por Bernardo Marques

A questão que me proponho abordar não é exatamente aquela que o título, na sua aparência quase simplista, pode sugerir. Para ser mais claro: ao tratar a personagem como ficção em Eça, não pretendo analisar as figuras ficcionais que povoam os romances e os contos queirosianos, com intuito meramente descritivo ou com propósito hermenêutico.

Bem conhecidas são as personagens queirosianas. Conhecidas, analisadas, interpretadas, reinterpretadas e discutidas, uma vezes elogiadas, outras abominadas, à luz de paradigmas diversos, complementares ou antagónicos: da história literária à psicanálise e ao estruturalismo, passando pela estilística, pela sociologia literária, pelos estudos femininos, pelos estudos pós-coloniais, pelos estudos comparados ou pelos estudos narrativos, para tudo e para algo mais têm servido as personagens de Eça. Heróis e vilões, misóginos e sexualmente ambíguos, edipianos e, quando calha, anti-edipianos, reflexo do seu tempo e desmentido do que ele foi,  românticos, tardo-românticos e pré-modernistas, assim são os seres humanos que habitam os relatos de Eça. Neste aspeto, a vasta bibliografia queirosiana tem-se alimentado gulosamente da complexidade do mundo ficcional de Eça. E, no caso em apreço, da abundância de uma ementa de carateres que desafia e às vezes assusta quem dela se aproxima: c’est l’embarras du choix!

Não vou por aí, porque, tal como muitos outros, por esse caminho já fui e por ele voltei. Quando me refiro aqui à personagem como ficção, aludo, em geral, à vocação queirosiana para inscrever e tematizar a literatura nas suas narrativas e nos discursos das figuras que nelas encontramos; o que, com perdão pela invocação do óbvio, me parece ser uma forma de lançar uma ponte que vai do realismo à modernidade, na passagem do século XIX para o século XX.

(extrato de “Eça de Queirós e a personagem como ficção“, in Revista de Estudos Literários, 6, 2016, pp. 29-60; continuar a ler).

 

 

%d bloggers like this: