Eça e a personagem como ficção

Acácio por Bernardo Marques

A questão que me proponho abordar não é exatamente aquela que o título, na sua aparência quase simplista, pode sugerir. Para ser mais claro: ao tratar a personagem como ficção em Eça, não pretendo analisar as figuras ficcionais que povoam os romances e os contos queirosianos, com intuito meramente descritivo ou com propósito hermenêutico.

Bem conhecidas são as personagens queirosianas. Conhecidas, analisadas, interpretadas, reinterpretadas e discutidas, uma vezes elogiadas, outras abominadas, à luz de paradigmas diversos, complementares ou antagónicos: da história literária à psicanálise e ao estruturalismo, passando pela estilística, pela sociologia literária, pelos estudos femininos, pelos estudos pós-coloniais, pelos estudos comparados ou pelos estudos narrativos, para tudo e para algo mais têm servido as personagens de Eça. Heróis e vilões, misóginos e sexualmente ambíguos, edipianos e, quando calha, anti-edipianos, reflexo do seu tempo e desmentido do que ele foi,  românticos, tardo-românticos e pré-modernistas, assim são os seres humanos que habitam os relatos de Eça. Neste aspeto, a vasta bibliografia queirosiana tem-se alimentado gulosamente da complexidade do mundo ficcional de Eça. E, no caso em apreço, da abundância de uma ementa de carateres que desafia e às vezes assusta quem dela se aproxima: c’est l’embarras du choix!

Não vou por aí, porque, tal como muitos outros, por esse caminho já fui e por ele voltei. Quando me refiro aqui à personagem como ficção, aludo, em geral, à vocação queirosiana para inscrever e tematizar a literatura nas suas narrativas e nos discursos das figuras que nelas encontramos; o que, com perdão pela invocação do óbvio, me parece ser uma forma de lançar uma ponte que vai do realismo à modernidade, na passagem do século XIX para o século XX.

(extrato de “Eça de Queirós e a personagem como ficção“, in Revista de Estudos Literários, 6, 2016, pp. 29-60; continuar a ler).

 

 

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Personagens escritores

Artur Corvelo, por António

Esta tese tem por objetivo investigar a relação entre a escrita e classe social na vida de personagens de três livros de Eça de Queirós: A Capital! (começos duma carreira); Os Maias — Episódios da vida romântica e A Ilustre Casa de Ramires. Pretende-se analisar os interesses de classe que perpassam a publicação ou não das obras planejadas por Carlos da Maia, João da Ega, Gonçalo Mendes Ramires e Artur Corvelo. Assim, faz-se necessário conhecer o “campo literário” (Bourdieu, 1996) português da segunda metade do século XIX para melhor entender as influências condicionantes que pesavam sobre o escritor iniciante. Também é importante analisar historicamente a sociedade portuguesa como um todo e qual o papel que os diferentes grupos que a compunham destinavam à leitura e à escrita.

A partir daí, pode-se perceber qual o significado social de se publicar ou não e o efeito de cada tipo de publicação e género textual.  Deste modo, portanto, entende-se melhor alguns fatores que contribuem para o sucesso de Gonçalo, o fracasso de Artur e a desistência de Carlos e Ega, personagens criados dentro de uma proposta de retratar fielmente a realidade. Percebe-se, por fim, que a escrita e mesmo a não escrita podem ser pensadas como partes de uma estratégia, mais ou menos consciente, de busca por poder no âmbito da luta de classes. Isto é evidente no caso de Gonçalo, que escreve por almejar tornar-se deputado, mas também é válido para as demais personagens. Para Carlos e Ega, a não escrita era mais interessante dentro do âmbito da luta de classes que a escrita: por isso sua revista e seus livros tornam-se “impossíveis” socialmente. Para Artur, o sucesso é impossível, já que suas obras e suas estratégias para bem lançá-las são inviáveis e mesmo contraproducentes. Só Gonçalo alcança o que quer, pois só ele realiza a escrita de um modo coerente com sua posição de classe.

             (Rodrigo do Prado Bittencourt, resumo ta tese Sobre livros impossíveis: quatro personagens escritores na obra de Eça de Queirós)

 

 

Eça e Machado: Revista de Estudos Literários, 6

O presente número da Revista de Estudos Literários é consagrado, na sua secção mais alargada, a Eça de Queirós e Machado de Assis, congraçados por uma designação sugestiva: diálogos transatlânticos.  Resulta esta secção temática de um colóquio internacional que teve lugar,  de 22 a 24 de outubro de 2015, em Indiana University,  com organização de Kathryn Bishop-Sánchez, de Luciana Namorato e de Estela Vieira. O referido colóquio reuniu, no belo campus de Bloomington, um conjunto alargado de especialistas nas obras queirosiana e machadiana, que ali reabriram a questão do diálogo entre os dois grandes escritores. Não, esclareça-se, nos termos  estafados que, durante anos, se fixaram na questão das “influências”, mas antes procurando linhas de afinidade e de divergência, de confluência e de  diferenciação entre os dois maiores romancistas da língua portuguesa.

Carlos Reis, “Nota Prévia”

 

A ficção e a crítica de Eça e Machado estabelece um estreito diálogo com a política, a economia e as relações internacionais de sua época, e põem em questão os conceitos de raça, gênero, classe social e identidade nacional. A sua obra também evidencia o desenvolvimento de importantes discursos científicos, tradições intelectuais e práticas culturais prevalecentes em Portugal e no Brasil do século XIX. Os ensaios aqui publicados tentam mostrar como é que a obra de Machado e Eça explora estes temas e discursos e quais são algumas das implicações dos diálogos criados pelos autores, especialmente, como é que estes são consequenciais para debates contemporâneos e ainda relevantes hoje em dia. As questões estéticas e epistemológicas que a obra destes dois autores levanta vêm-se mostrando mais e mais relevantes para a compreensão do nosso momento atual. Por isso, uma reavaliação comparativa da produção textual de Eça e Machado, assim como de sua receção (tanto na época em que viveram como nos anos posteriores a sua morte), conduz a reflexões relevantes ao campo das relações culturais transatlânticas e das produções pós-coloniais, assim como ao atual questionamento e revisão dos cânones literários nacionais.

Kathryn Bishop-Sánchez, Luciana Namorato e Estela Vieira, “Introdução”

Memórias de Jaime Batalha Reis

Lançamento da obra de Elza Miné, Alguns homens de meu tempo e outras memórias de Jaime Batalha Reis (edição da Imprensa da Universidade de Coimbra), na Biblioteca Nacional, no dia 26 de outubro, pelas 18 horas.
Jaime Batalha Reis (1847-1935) tinha em vista registar recordações de seus amigos, cuja reunião viria a constituir um volume a intitular-se Alguns homens de meu tempo. Não chegou, contudo, a realizar tal projeto que, desde seus primeiros anos como cônsul em Newcastle, até os últimos passados na Quinta da Viscondessa, em Portugal, sempre acalentou e referiu.
O presente livro tem por objetivo apresentar, nas partes I e II, a gestação e uma (possível) concretização desse mesmo projeto, alinhavando-o Elza Miné em nome de Batalha Reis. Seguem-se “Outras memórias” de Batalha Reis, como anunciadas no título deste volume.

 

Eça no Brasil

A produção escrita do autor português Eça de Queirós (1845-1900) sempre foi acompanhada por estudiosos de diversas áreas de atuação. No Brasil, a obra queirosiana recebeu – e continua recebendo – um número  significativo de leituras críticas guiadas sob prismas diferentes. (…).

O presente livro procura apresentar 0 papel da crítica literária  sobre Eça no Brasil, tendo em vista as perspectivas críticas e o processo de  construção da imagem do autor, a qual sofreu mudanças durante 0 século XX. Para desenvolver este estudo, 0 corpus e constituído por publicações em formato de livro, uma vez que ele exerce, na sociedade, um poder maior de legitimidade da produção intelectual. Além disso, em vista de sua extensão, propicia a análise crítica mais detalhada do que um artigo ou ensaio, colocando-se mais facilmente como referência para a reflexão acerca de um escritor.

Por conseguinte, busca-se, por meio dos estudos queirosianos publicados em volume durante 0 século XX, visualizar como a crítica, enquanto mediadora entre os produtos de bens simbólicos e 0 público, teve 0 poder de legitimar a obra de Eça no âmbito da cultura designada erudita, além de atuar como instância significativa na consagração desse autor juntamente ao público. Como nota Bourdieu (1974), é por intermédio da atuação da crítica que muitas obras entram para 0 cânone literário e Eça, apesar de ter caído no gosto popular, não fora exceção à regra e teve na crítica os mais árduos defensores de seu valor literário.

(Cristiane Navarrete Tolomei, A Recepção de Eça de Queirós no Brasil. Leituras críticas do século XX. São Paulo: Scortecci, 2014, pp. 23-25).

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Grupo Eça

O Grupo Eça tem por finalidade estudar a obra do escritor português Eça de Queirós, assim como sua fortuna crítica. Privilegiando uma abordagem de fundamentação marxista, mas aberto a outras abordagens, o grupo pretende reler a obra queirosiana, tomando por pressuposto que o autor de Os Maias foi sempre um crítico ferrenho da burguesia e da aristocracia portuguesas, mesmo em seus últimos trabalhos. Além disso, o grupo também pretende discutir as leituras canônicas do escritor, que, a partir de certas fases de sua obra, fizeram dele ora um autor romântico, ora um aristocrata fin-de-siècle, ora um estilista da língua portuguesa, entre outras personas que lhe foram atribuídas (da apresentação do site)

Eça de Queirós, por David

 

 

Jacinto

Descendente de uma família aristocrática lusitana de grande fortuna patrimonial, Jacinto, o protagonista formal do romance semipóstumo de Eça de Queirós A Cidade e as Serras, publicado em 1901, habita em Paris um luxuoso palacete, localizado no n.º 202 da Avenida dos Campos Elísios. O seu avô, conhecido em Lisboa por D. Galeão, miguelista convicto, tinha-se exilado voluntariamente em Paris depois do triunfo da Revolução Liberal; o derradeiro sobrevivente da estirpe não conhecia sequer Portugal, no momento em que o narrador homodiegético, o seu amigo Zé Fernandes, começa a relatar a sua história.

Casual ou estrategicamente, a narrativa de Zé Fernandes coloca imediatamente em destaque a fortuna do protagonista, colocando esse elemento acima de qualquer outro que, numa relação de amizade, poderia ter maior relevância. “O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival” (Queirós, 2008: 11). Segue-se a enumeração do património imobiliário, que cobre todo o país, e a descrição dos antecedentes familiares imediatos de Jacinto, passando pelo encontro do seu avô com o então infante D. Miguel, que o ajudou a levantar-se quando aquele escorregou numa casca de laranja. Depois da morte de Jacinto “Galeão”, a esposa, D. Angelina Fafes, recordando a tormentosa viagem de ida, nunca quis voltar a Portugal. O filho de ambos, o Cintinho, de saúde débil, faleceria ainda antes de a sua esposa, filha de outro exilado absolutista, ter dado à luz “o Príncipe da Grã-Ventura”, como Zé Fernandes chama ao seu amigo Jacinto.

Chegado a Paris para realizar estudos universitários, depois de ter sido expulso da Universidade de Coimbra, Zé Fernandes rapidamente se torna no maior amigo de Jacinto e no seu cronista. Há, no entanto, alguma ambiguidade (ou ironia) no discurso encomiástico com que o narrador caracteriza a personalidade e as ações do seu amigo, dando-se sempre destaque à fortuna pessoal, ao relevo social que esta lhe permite atingir, e à sua propensão para captar, no burburinho emanado pelas disputas científicas e filosóficas que caraterizavam o final do século XIX, sobretudo as Ideias Gerais.

(Continuar a ler)

(António Apolinário LourençoDicionário de Personagens da Ficção Portuguesa)

Figurações acacianas

Acácio por Bernardo Marques

Acácio por Bernardo Marques

Numa crónica publicada no jornal carioca O Globo, a 13 de novembro de 2015, Paulo  Nogueira Batista Júnior intitulava  “Conselheiro Acácio” uma prosa em que, a certa altura, escrevia:  “Uma homenagem ao Conselheiro Acácio (não sei se o leitor sabe quem é), aquele personagem do Eça de Queirós que proclamava o óbvio ululante com categoria impressionante” . Suponho que muitos leitores brasileiros saberão quem é o digno Acácio, tal como aceitarão, sem constrangimento, que ele salte da ficção onde o conhecemos para a realidade política brasileira (a personagem era invocada  a propósito dela); nesse salto para o nosso mundo, Acácio traz consigo atributos comportamentais que o cronista assinalou (o hábito de dizer “o óbvio ululante com categoria impressionante”) e talvez outros ainda que agora não importa referir.

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Por Arnaldo Ressano

Contribui para a agilidade com que o conselheiro dá aquele salto transficcional a sua reconhecida condição de tipo e o seu potencial de representação temática, segundo a expressão de James Phelan (em Reading People, Reading Plots. Character, Progression, and the Interpretation of Narrative. Chicago/London: The Univ. of Chicago Press, 1989, pp. 2-3), bem como o lugar estratégico que ele ocupa, na economia descritiva das personagens d’O Primo Basílio. O retrato que dele se elabora adota, com método impecável, os protocolos da doutrina realista: à descrição física (“Era alto, magro, vestido todo de preto…”) seguem-se aspetos do trajeto profissional (“Fora, outrora, diretor-geral do Ministério do Reino…”) e indicações sobre o seu perfil social, cultural e moral: “Os seus gestos eram medidos, mesmo a tomar rapé (…). Citava muito. Era autor. E sem família, num terceiro andar da rua do Ferregial, amancebado com a criada, ocupava-se de economia política.”

A facilidade com que reconhecemos o conselheiro Acácio e a naturalidade com que o convocamos para o nosso mundo e para o nosso tempo são favorecidas por testemunhos do próprio Eça, a começar pela conhecida carta que escreveu a Teófilo Braga, a 12 de março de 1878: o conselheiro é o “formalismo oficial” e  funciona transparentemente como epítome de uma mentalidade que transpõe as sempre porosas fronteiras da ficção. Esse impulso preserva nele uma nitidez de traços que faz de Acácio a personagem mais consensual, em termos iconográficos, de toda a galeria queirosiana: são incontáveis os artistas plásticos, com maior ou menor projeção, que fixaram, em diversas épocas, suportes e enquadramentos, a figura de Acácio. Alguns deles: Saavedra Machado, Alberto de Sousa, Lima Belém, Arnaldo Ressano, Fernandes da Silva, Leonel Cardoso, João Valério, Bernardo Marques, Rocha Vieira,  Santana e António.

Por Fernandes da Silva

Por Fernandes da Silva

Posto isto, pergunte-se desde já: aconteceu o mesmo com Carlos Fradique Mendes? Deixo a resposta para mais tarde. Prefiro agora insistir nisto: o conselheiro Acácio está connosco também através do cinema e da televisão: n’O Primo Basílio, filme mudo de G. Pallu, de 1922 (ator: António Pinheiro),  na versão de  António Lopes Ribeiro, de 1959, com Virgílio Macieira, e em outras ainda. Registo-as: El Primo Basílio (1934), de Carlos de Nájera (produção  mexicana); El deseo (1944), título sintomático, com realização de Carlos Schlieper (produção argentina, com César Fiaschi como Acácio, mas designado como “el juez”). E também na TV: uma versão da Globo, em 1988, com direção de Daniel Filho e Sérgio Viotti no papel de Acácio .

Muito tem, então, viajado o conselheiro, rasgando horizontes que estão para além do seu austero terceiro andar da lisboeta Rua do Ferregial. E pela língua também: o nome da personagem  entrou no nosso idioma e está dicionarizado: veja-se o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, o Vocabulário Ortográfico do Português  e o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, entre outros. O adjetivo acaciano (mais divulgado do que  o conselheiral que Eça usou) reporta-se precisamente aos atributos exibidos por quantos se assemelham a Acácio, derivando dele outros ainda, também registados: acacianismo, acacianista,  acacismo, acacismo, etc. Todos estes e também, no Dicionário Houaiss, o vocábulo acácio, como nome comum.

(Figurações queirosianas: a personagem n’A Correspondência de Fradique Mendes; conferência apresentada “II Encontro do Grupo Eça – O primo Basílio; São Paulo, 14 a 16 de set. de 2016; a publicar).

O Primo Basílio, real. de Georges Pallu (1922)

                                                  O Primo Basílio, real. de G. Pallu (1922)

 

Carta de Fradique Mendes

Ao Senhor Diretor do Diário de Notícias

Califórnia, fins de janeiro

Senhor Diretor,

Respondo tardiamente ao seu pedido, recebido quando já me aprestava a partir dessas saudosas terras lusitanas que a distância torna mais doces e mais amenas. Tarefas urgentes têm-me desviado do dever de corresponder ao seu amável desafio, dever que agora gostosamente cumpro, sempre certo da sua bondosa tolerância. Pedia-me o meu amigo que lhe mandasse notícias desta América que, desde há dois séculos, tem atraído vagas de pioneiros e de imigrantes,  que fizeram sua  esta  Terra de Promissão. Como eles, boa e farta razão têm quantos olham ainda o Novo Mundo, como lugar fértil em sucessos de que se espanta o Velho Mundo, e não sem um frémito de inveja que bem se entende.

Mais ainda por estes dias, quando um novo presidente tomou as rédeas da mais poderosa nação do Universo, para regozijo de quantos nele veem o restaurador de uma Ordem e de um Poder perdidos. Das terras húmidas da Louisiana às planícies geladas do Minnesota e às faldas agrestes das Montanhas Rochosas, não são poucos aqueles que se deleitam a escutar a palavra fácil desse presidente que, de uma penada, resolveu varrer da vista dos seus fellow americans o estendal de desmazelos e de lascívias que têm debilitado estas terras outrora vigorosas.

Sobre estes e outros casos não preciso de entrar em detalhes. O Senhor Diretor e os seus fiéis leitores tomá-los-iam, muito justamente, por excessivos e até presunçosos. A agilidade com que as notícias hoje galopam pelo mundo, mais céleres do que boato em rumoroso bazar de Istambul ou do Cairo,  dispensa-me de falar com minúcia dos acontecimentos estupendos que esta grande nação tem vivido nas últimas semanas. Uma coisa tenho por certa: está a chegar a Hora, quero dizer, vem aí, e a largas passadas, o tempo de Redenção por que ansiavam muitos daqueles patriotas para quem o chapéu de aba retorcida, a bota de bico recurvo e, quiçá, o revólver expedito pendurado à cinta são emblemas de uma cultura, mais do que  atavios de circunstância. Porque essa América também existe  e sabe Deus com que energia!

Na distraída Europa estamos habituados a pensar que a América toda se espelha, com exatidão cristalina, na endinheirada Nova York, na Chicago espraiada à beira do grande lago ou na Califórnia do sol, das praias e da mundanidade de Beverly Hills. Erro e bem grosseiro! Há uma outra América, mais calada, menos vistosa e também menos amigável, uma América que também conta e que, se o meu Amigo permite o calembourg atrevido, faz a conta. Justamente: faz a conta aos impostos que paga, aos estrangeiros que chegam e aos empregos que saem – esses sacrossantos jobs que os americanos veneram.

Essa América profunda é exímia e pontual em fazer a barbecue no quintal, em  pendurar, com indisfarçado orgulho, a bandeira na varanda e, ao domingo, nunca deixa de cantar, com voz galharda e bem timbrada,  os salmos que o seu Pastor rege. É a América da tríade mágica God, my family and my country, a mesma que junta o rebanho familiar  em quinta-feira de Thanksgiving e adora aquela saudável comida a que nós, por maldosa ignorância, chamamos junk food – comida lixo! Essa é a América que se deleita na constante, às vezes cansativa invocação da family and friends, uma expressão que por aqui muito se ouve também, quem sabe se para espanejar o ranço  clerical daquela tríade, presente na memória de muitos dos nossos patrícios.  Não é  verdade que “o nosso Salazar” – como lhe chamava um meu saudoso tio açoriano – sempre proclamou, com uma suavidade cheia de sibilantes, a bondade da fórmula Deus, Pátria, Família?

Ora essa América profunda falou, quando foi “chamada às urnas”, como dizem os senhores amanuenses do ministério do Reino. Falou e o presidente eleito, de ouvido atento e sagaz, escutou. E o que escutou ele? Muito do que disse  à ansiosa nação americana e ao mundo boquiaberto, naquela sua arenga de 20 deste mês de janeiro, data que parece já pré-histórica, tantas e tão vivazes têm sido as novidades destes dias.

Nesse seu arrazoado, o presidente não mandou recados por ninguém: disse ele mesmo ao que vinha – e  ao que vem. Porque o senhor Diretor aprecia uma  síntese que  poupe a sua gazeta a maçadores circunlóquios, resumirei a sábia mensagem que nos foi arremessada com esta expressão textual: “America first!” E para que dúvidas não ficassem, a respeitável figura espetou o dedo e insistiu: “América first!” Quem não apreciará neste bondoso homem a virtude da clareza? Eu que muitas vezes me amofino quando o nosso pessoal político gagueja argumentos, sem decidir o que lhe vai na mente,  louvo a nitidez daquela mensagem tão transparente como  “as doces águas do Minho”, expressão que gulosamente colho do mavioso poeta Vidal. “America first!” Duas palavras singelas, mas quanta  profundidade e quanta verdade nelas se escondem! E também generosidade, Deus seja louvado! Porque, ao contrário do que disseram comentadores apressados, naquela frase não se esgrime nacionalismo, mas sim  abertura ao mundo. Abertura cuidadosa – mas abertura.

Responda o meu Amigo e, ao mesmo tempo, ajude-me a avançar nos semideiros do pensamento presidencial: o que se ensinava no compêndio de Geografia que no velho convento de S. Francisco acompanhou a minha adolescência estudiosa? Que por América se entende aquela alentada porção do mundo que vai da gelada Gronelância até ao traiçoeiro cabo Horn, por onde navegou o nosso valente Magalhães. Pois nesse continente de tão garridas gentes, todos cabem: o simpático canadiano e o descendente dos Navajos, o diligente agricultor de Wisconsin e o plácido mexicano  que esconde  a siesta debaixo do seu vasto sombrero, o peruano que habita os refegos dos Andes e o colombiano regalado com a fresca folha da coca, o nosso irmão brasileiro, sempre tão afetuoso,  e o orgulhoso argentino que cavalga pelos pampas. Esses todos e outros mais, que a bondade do Criador espalhou por aquelas terras pródigas. Como não entender naquela altaneira “America first!” o desejo ecuménico de todos envolver, com um abraço bem forte e bem caloroso, e de todos chamar para o abrigo da grande Casa Americana?

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É verdade que a mesma figura que isto proclama quer agora construir um muro, um grande e maciço muro, que demarque, com o rigor de uma linha traçada a lápis grosso, a fronteira com o vizinho México. Não poucos plumitivos, nesta América em que me encontro e por todo o mundo, têm verberado o projeto, pensando talvez que a grossa parede será defesa contra as investidas de um qualquer Pancho Villa renascido das cinzas. Puro engano! Depois de revolver na mente a ideia do muro, nela vejo só  vantagem e benefício que a todos encherão de gáudio, quando  a poeira assentar. A poeira que os trabalhos de construção hão de provocar, é claro, e mais aquela que a discussão, metaforicamente, sempre levanta.

Ajude-me o meu Amigo a argumentar. O que é um muro? Uma obstáculo que protege, mas também um empreendimento que fica, pelos séculos dos séculos, exibindo ao olhar incrédulo dos vindouros um testemunho  bem sólido  do engenho humano. Se o meu Amigo já viajou por essa China que tanto intriga o europeu, certamente recordará a impressão que lhe terá causado a Grande Muralha que corre do Mar Amarelo às paragens inóspitas da Mongólia. Para que ela pudesse existir, muitos séculos tiveram de passar e muita força de braços nela empenharam  milhares de chins, que assim puderam dar uma prova definitiva, se necessária era ela, da sua imensa paciência e da sua imensa capacidade de sacrifício.

Pois bem: impediu a Grande Muralha alguma conquista ou rechaçou alguma invasão? Não! Como ela, o muro – ou talvez já o Grande Muro – será não uma  empresa agreste e intolerante (como teimam em declarar algumas vozes que a baba do azedume inspira) mas o eco retumbante  do génio de um homem.  E assim, de uma assentada, o Supremo Arquiteto comete duas proezas:  cria incontáveis empregos (os tais jobs for the american boys) e lega ao futuro  uma obra sem igual. Tal como a sua  irmã chinesa, será ela admirada, com espanto incontido, pelos selenitas, esse simpático  povo que, das melancólicas paragens lunares, verá não apenas uma, mas duas construções  que glorificam o esforço humano. Isto para já não falar na sombra, bem fresca e bem acolhedora, que, de um lado e do outro, o muro há de oferecer ao texano encalorado ou ao indolente mexicano, ambos regaladamente defendidos do sol inclemente por esta que será maravilha sem par dos nossos tempos.

Parece-lhe isto, bom Amigo, pouca coisa? A mim não. Digo até que bem gratos devemos estar a estas eras e a estes homens que nos maravilham com tais falas e   com tais coisas! Passa-se isto numa América em que está viva ainda a lembrança  daquele outro aviso que, no seu tempo, um outro presidente soltou: a América para os americanos! Governava então os destinos da Europa a piedosa Santa  Aliança, com o severo Metternich à cabeça. Quando  suspeitou que o nariz inquieto do chanceler da Áustria se virava para estas paragens,  o atento James Monroe não hesitou e disse, bem alto e bem claro, que na América estavam acabados os tempos da colonização europeia. Na América e em todo o continente americano, entenda-se!

Depois disso, temos tido guerras e rebeliões, revoltas e insubmissões, mas a América manteve-se disciplinadamente fiel àquela doutrina. Será o “America first!” uma nova e atualizada versão do que disse Monroe, com a autoridade do founding father que também era? E até: será o brado “America first!” uma doutrina, com ponderado ideário e com pensamento elaborado? Não sei. Os tempos que correm vão pouco propícios para tais adivinhações, tão imprevisíveis e tão bruscos são os humores de quem agora governa a América. Mas sei (e isso me basta) que estamos protegidos. No discurso presidencial não faltaram, como é de uso nestas paragens, repetidos chamamentos ao bom Deus. “We will be protected by God”, disse o presidente. Muito precisamos dessa proteção – e precisamos dela até mesmo para nos protegermos dos protetores!

Que ela nos não falte, com a bondade que sempre acompanha a Providência divina, eis o voto que formulo, meu distinto Amigo, quando me despeço, com a cordialidade que lhe vota este seu

Carlos Fradique Mendes

 

 

Natal

Nem eu sei realmente como a ceia faustosa possa saber bem, como o lume do salão chegue a aquecer – quando se considere que lá fora há quem regele, e quem rilhe, a um canto triste, uma côdea de dois dias. É justamente nestas horas de festa íntima, quando pára por um momento o furioso galope do nosso egoísmo, – que a alma se abre a sentimentos melhores de fraternidade e de simpatia universal, e que a consciência da miséria em que se debatem tantos milhares de criaturas, volta com uma amargura maior. Basta então ver uma pobre criança, pasmada diante da vitrine de uma loja, e com os olhos em lágrimas para uma boneca de pataco, que ela nunca poderá apertar nos seus miseráveis braços – para que se chegue à fácil conclusão que isto é um mundo abominável. Deste sentimento nascem algumas caridades de Natal; mas, findas as consoadas, o egoísmo parte à desfilada; ninguém torna a pensar mais nos pobres, a não ser alguns revolucionários endurecidos, dignos do cárcere e a miséria continua a gemer ao seu canto!

Os filósofos afirmam que isto há de ser sempre assim: o mais nobre de entre eles, Jesus, cujo nascimento estamos exatamente celebrando, ameaçou-nos numa palavra imortal «que teríamos sempre pobres entre nós». Tem-se procurado com revoluções sucessivas fazer falhar esta sinistra profecia – mas as revoluções passam e os pobres ficam.

(Eça de Queirós, “O Natal – a «Literatura de Natal» para crianças”, Gazeta de Notícias, 9 de fevereiro de 1881).

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Ilustração de Dean Morrissey, para Um Conto de Natal (1843), de Charles Dickens

 

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