Carta ao Ministro da Educação

Ao Senhor Ministro Tiago Brandão Rodrigues

 Paris, rue de Varennes, fins de maio

Perdoará, Senhor Ministro, que eu lhe escreva esta carta tão urgente como inesperada, uma vez que nos não  conhecemos e certamente nunca nos cruzaremos na vida breve a que estamos condenados. Faço-o, contudo, a instâncias de um amigo que, de passagem por Portugal, teve notícia de factos  que a imprensa internacional tem noticiado, com justificado espanto e preocupação.

O caso é que este meu amigo, sempre zeloso do Bem Público e do sossego das famílias, se Retrato_oficial_Tiago_Brandão_Rodriguesapercebeu de que medidas que o Senhor Ministro ultimamente tem tomado fazem perigar a serenidade de jovens estudantes que, até agora, confiavam na sensatez e sobretudo na magnanimidade dos poderes públicos do meu distante país.  Aqui onde me encontro, tenho dificuldade em perceber exatamente o que se passa, quanto à arrastada querela do financiamento público do ensino privado; por isso, peço-lhe desde já, Senhor Ministro, que releve aquilo que nesta bem intencionada carta não aderir à “realidade real das coisas” de que falava a saudosa figura cujo nome me dispenso de mencionar,  tão conhecida é ela.

Segundo aquele meu amigo, o ministério em cuja cadeira o Senhor Ministro tem o assento mais confortável está a condenar à negra miséria dos proscritos alguns milhares (garante-me o meu confidente) de crianças e de adolescentes dessa terra portuguesa que ambos desveladamente amamos. E porquê? Porque os dinheiros públicos que têm alimentado algum do ensino privado português  são agora avaramente regateados pelo poder político. Ao que parece, até agora esses dinheiros  estavam seguros e engavetados, como dádiva  generosa de governantes que, precedendo o Senhor Ministro, haviam entendido que o Estado deveria  encaminhar para o ensino privado uma parte importante dos cabedais que os contribuintes lhe confiam.  Na opinião de alguns dos meus compatriotas, certa e avisada era essa drenagem dos nossos dinheiros, pois que no ensino público campeavam (e campeiam!) um tal desmazelo e uma tal imoralidade, que só mesmo com medidas extremas seria possível resguardar o tal sossego que a todos preocupa, mas a que só alguns têm acesso.

Carlos Fradique Mendes por António

C. Fradique Mendes, por António

Talvez o Senhor Ministro pense que, ao falar em proscritos da Educação, estou a exagerar. É possível. A verdade, porém, é que as imagens que aquele meu amigo me transmitiu são inquietantes, reforçadas como estão por testemunhos de progenitores cuja aflição não invejo, mas respeito. Segundo esses testemunhos, por causa da azeda maldade do Senhor Ministro muitas crianças serão obrigadas a abandonar o ninho escolar onde têm sido acarinhadas e ficarão, enfrentando chuvas inclementes e ventos gélidos, desprovidas de ensino, para todo o sempre. Remetidos ao mais cruel abandono, estes inocentes rebentos serão, ao que parece, privados da aprendizagem de elementares operações de aritmética, da leitura dos nossos mais maviosos poetas, do conhecimento das leis da Física e do exercício mental a que os sinuosos raciocínios da Lógica nos convidam.

Dirá o Senhor Ministro que não é bem assim e que a muitos desses deserdados bastará atravessarem a rua ou percorrerem algumas centenas de metros para que tais mutilações sejam resolvidas. Ora isto é um engano e bem falaz! É que (e lamento ter de o lembrar) há diferenças flagrantes entre o colégio deste lado da rua e a escola pública que, do outro lado do asfalto, negreja. Nesta, há aulas, professores, alunos de várias etnias, diferentes condições sociais, variados níveis de desenvolvimento económico e até mesmo, quando calha, crianças a necessitarem de apoio especial. Uma série de maçadas, em suma! Pelo contrário, do lado de cá da rua há outra coisa: há projetos educativos.

E o que é um projeto educativo, perguntará o Senhor Ministro? Não sei bem, confesso-o com um embaraço que me envergonha. Suponho, contudo, que um projeto educativo corresponderá  ao propósito de ensinar bem, de formar jovens para a vida, de dedicar a atividade docente à nobre missão de fazer crescer os alunos que cada professor tem como seus. É isso exclusivo das tais escolas privadas?  Ignoro. Necessitam elas, para bem o realizarem, dos nossos preciosos dinheiros? Se assim for, que mal tem isso, Senhor Ministro?! Dir-se-á que na escola em frente se procura fazer o  mesmo, com alunos que não são escolhidos “a dedo” (com perdão pelo plebeísmo) e em condições de trabalho que os  dinheiros públicos pouco têm ajudado. Mas isso, Senhor Ministro, são pormenores a que só  espíritos malevolamente críticos dão atenção, sobretudo por ignorarem aquilo que uma sábia tia minha sempre dizia: que toda a vida haverá ricos e pobres! Máxima que, naturalmente, não me atrevo a transferir para esta penosa questão – mas que de vez em quando me faz pensar…

Os protestos a que esta disputa tem dado lugar não têm sido edificantes, mas não deixam de ser (passe a ironia) muito educativos. De tudo se tem visto, diz-me o tal  amigo que me dá conta destes sucessos – e com imagens! Nessas imagens predomina o amarelo, cor bem gritante e expressiva. Cor, todavia, cujo significado oculto tenho dificuldade em alcançar, quando a vejo associada àquelas instituições de ensino  que em Portugal se desenvolveram nos últimos anos como cogumelos em húmida terra  adubada pelo erário público. Diz-me um velho dicionário de símbolos que o amarelo é cor expansiva e quente, evocativa dos raios do sol e do poder das divindades do Além. Cor do ouro, também, e por isso lembrando episódios  como o da chuva dourada de que o engenhoso Zeus tomou a forma, quando quis fecundar a esquiva Danae. Terá sido nisso que pensaram os prosélitos da causa, quando escolheram o amarelo como  emblema para o seu combate? Não posso afirmá-lo com absoluta certeza.  Temo, contudo, que, na pressa com que os tais prosélitos escolheram as suas vestimentas, não tenham sido cogitadas variantes menos nobres do dourado ardil usado pelo pai dos deuses. Honni soit qui mal y pense!

Por fim – e sempre guiando-me pelos comentários do meu amigo e confidente –, parece que algumas mentes mesquinhas têm criticado o apoio que a Igreja Católica vem dando à cruzada em favor do ensino privado. Em vez de dar ouvidos a essas vozes roufenhas de azedume, o Senhor Ministro deveria pôr os olhos, com atenta concentração, em tal apoio. E indagar as suas causas. Tão natural é ele que, por não desejar  ofender  a sua cultura,  me dispenso, Senhor Ministro, de explicar a sua razão de ser. Lembrarei apenas isto:  como a História de sobra nos ensina (tanto em escolas públicas como em escolas privadas, suponho), sempre a Igreja Católica tem estado do “lado certo da vida”, expressão que há alguns anos aprendi, em conversa inesquecível com uma figura de impecável formação moral. Sabemo-lo pelo menos desde o século XVI, quando  começaram a ser justa e metodicamente perseguidos quantos se atreviam a dissentir de coisas tão óbvias como o movimento do Sol em torno da Terra.  Vimo-lo depois quando, mais tarde, um obscuro historiador ousou pôr em causa a verdade do milagre de Ourique. E fico-me por aqui, porque me escasseia o espaço e a ao Senhor Ministro, por certo, a paciência.

Não será o caso agora, mas isso não torna menos eloquente nem menos expressiva a palavra da nossa digna Conferência Episcopal. Foi ela que, ainda recentemente, veio lembrar o “direito constitucional da liberdade de ensino”, a isto acrescentando o seu severo apoio a iniciativas que “defendam a liberdade dos pais escolherem a escola e projetos educativos que desejam oferecer aos seus filhos”.

Permita-me que insista, Senhor Ministro: atente nestas ponderosas palavras e, apesar da juventude que para alguns é um seu defeito, perceberá qual o tal “lado certo da vida”. Um curto texto em que por duas vezes se fala em liberdade é certamente lúcido e avisado, vindo de quem vem. Mais: a preocupação com a lei constitucional que nele aflora não é menos, digamos, instrutiva, até por ser bem sabido que, nos últimos e difíceis anos que os portugueses têm vivido, sempre a Igreja Católica teve a dita lei debaixo de olho. Já a utilização do verbo “oferecer” pode levantar algumas dúvidas, pois que nem todos temos a argúcia exegética que é apanágio de qualquer eclesiástico encartado. E assim, uma leitura literal daquela traiçoeira palavra pode deitar a perder boas intenções que, acredito, até no Paraíso existem.

Certo de que estes sinceros e sentidos apelos não cairão no saco roto de uma indiferença jacobina, apresento-lhe, Senhor Ministro, os meus respeitosos e solidários cumprimentos.

 Carlos Fradique Mendes

 

 

 

A edição crítica como amor e júbilo

 

Preparar uma edição crítica é uma medida terapêutica contra a impaciência. Dá imensa saúde e contribui para o aperfeiçoamento espiritual do editor. Uma edição crítica é um exercício de higiene mental, de humildade e de busca de rigor; é uma disciplina exigente, mas é também um caminho de amor e de júbilo. Não há realmente talvez, senão no amor, sentimento equivalente ao vínculo de intimidade possessiva que se estabelece entre o editor e o texto que ele edita. Esse sentimento é sedimentado pela longa familiaridade do editor com os sistemas orgânicos de significação da obra, com os seus delicados mecanismos de implicação, mutação e ressonância. E esse sentimento também é potenciado pela noção da extrema fragilidade e imperiosa justeza das decisões sucessivamente tomadas pelo autor, que o editor tenta reconstituir e compreender. Como se também do editor dependesse, de algum modo, a perfeição e a felicidade daquele corpo textual que ele recompõe.

Fazer uma edição crítica completa a nossa educação. Não se sai igual, depois de fazer uma edição crítica. Sai-se melhor (eu precisarei ainda de fazer mais umas tantas). (…)

Desfibrando e degustando cada vírgula d’O Mistério da Estrada de Sintra, aprendi a acamaradar com gente tão notável como Luísa, condessa de W., esplêndida adúltera oitocentista, tão atípica e tão autocrítica que é impossível condená-la; com a impetuosa Carmen Puebla, espanhola (ou cubana) veemente, ainda sem a sordidez de outras Lolas ou Conchas queirosianas, arrebatada de paixão e de alguma considerável perversidade erótica; com o mascarado alto (de que nunca se saberá o nome), personagem secundária e narrador que profundamente molda a história e o mundo que evoca, com as suas poses e a sua bisbilhotice, a sua elegância romântica e os seus silêncios; ou com Captain Rytmel, desconcertante e suspeito como os mais impulsivos namorados, e tão esquivo, tão louro e sedutor quanto convém – e tão talhado para vítima. E Fradique Mendes, claro, ainda a traço grosso, ainda muito melómano, muito dândi, muito satânico e muito oracular no folhetim de 1870, evoluindo rapidamente para um perfil mais discreto e sofisticado no livro do mesmo ano, mas inconfundivelmente Fradique Mendes; Fradique que cresce com Eça, sempre como ele um esteta e um ironista – cúmplice, delator e intérprete das paixões dos outros e da beleza das coisas.

   Ana Luísa Vilela, apresentação da edição crítica d’O Mistério da Estrada de Sintra. Lisboa, 8 de março de 2016 (extratos).

 

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O Mistério da Estrada de Sintra: apresentação

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Fradique e Eça

Afinal de contas, quando nasceu Fradique Mendes? E, numa expressão  deliberadamente ambígua, como foi ele concebido?

Anos depois do affaire antropófago, ressurge Carlos Fradique Mendes. O mesmo? Vamos por partes, porque a “ressurreição” de Fradique tem várias facetas. As  cartas a Oliveira Martins vêm a ser os lugares privilegiados para o anúncio do renascimento de uma figura agora, apesar de tudo, mais séria. Digo desde já: o segundo Fradique Mendes, chamemos-lhe assim, está no caminho que leva aos heterónimos pessoanos e, antes deles, por coincidências apreciáveis, ao semi-heterónimo Bernardo Soares. Não são irmãos,  mas são da mesma família.

Vejamos os factos: em meados de 1885, Eça de Queirós propõe a Oliveira Martins a publicação de “uma série de cartas sobre toda a sorte de assuntos, desde a imortalidade da alma até ao preço do carvão, escritas por um certo grande homem que viveu aqui há tempos, depois do cerco de Troia e antes do de Paris, e que se chamava Fradique Mendes!” E acrescenta: “Não te lembras dele? Pergunta ao Antero. Ele conheceu-o”. Claro que sim:  foram cúmplices e  ambos eram açorianos. Ora este Fradique Mendes, “homem distinto, poeta, viajante, filósofo nas horas vagas, diletante, e voluptuoso (…) morreu”. Nada melhor, diz Eça a Oliveira Martins, para celebrar esta personalidade do que publicar-lhe a correspondência.

Em 1888, ano em que publica Os Maias, Eça de Queirós volta a escrever a Oliveira Martins, mas agora vai mais longe: não é possível “editar a correspondência de Fradique, sem a preceder de um estudo sobre esta singular personalidade”. Assim mesmo, “um estudo”. Aparentemente, Oliveira Martins não percebeu  o que aqui estava em causa e Eça teve de se explicar. Assim:  “A introdução a «Cartas que nunca foram escritas por um homem que nunca existiu, não podia deixar de ser uma composição em que se tentasse dar a esse homem, primeiramente, realidade, corpo, movimento, vida”. Repito: dar “realidade, corpo, movimento, vida” a um “homem que nunca existiu”.

É esta a certidão de nascimento literário de Carlos Fradique Mendes, datada de 12 de junho de 1888, como está na carta de Eça a Oliveira Martins. Exatamente: 12 de junho, véspera daquele 13 de junho do mesmo ano de 1888 em que nasceu uma criança depois batizada como Fernando António Nogueira Pessoa. E assim, por 24 horas apenas, Fradique antecipou-se a  Pessoa.

Fradique Mendes tem uma biografia, uma formação, uma poética e um pensamento próprios e  autónomos em relação a  quem o concebeu. Pelo tal “estudo”, sabemos que Fradique  nasceu na ilha Terceira, que “pertencia a uma velha e rica família dos Açores” e que ali foi criado por uma avó  extravagante. Dessa D. Angelina Fradique diz-se  que era uma “velha estouvada, erudita e exótica que colecionava aves empalhadas, traduzia Klopstock, e perpetuamente sofria dos «dardos de amor»”.  Depois de frequentar uma escola  chamada Terceirense e de receber uma “primeira educação (…) singularmente emaranhada”, aos dezasseis Carlos Fradique Mendes é despachado para Coimbra. Pelo critério de Dona Angelina, a Universidade de Coimbra era  “um nobre centro de estudos clássicos e o derradeiro refúgio das humanidades.” A verdade, segundo constava na ilha, era outra: “apesar dos sessenta anos que lhe revestiam a face de um pelo mais denso que a hera de uma ruína, [D. Angelina] decidira afastar o neto – para casar com o boleeiro.”

Em Coimbra, Carlos Fradique pouco estudou. “Tocou guitarra pelo Penedo da Saudade, encharcou-se de carrascão na tasca das Camelas, publicou na «Ideia» sonetos ascéticos, e amou desesperadamente a filha de um ferrador de Lorvão.” A seguir,  “foi para Paris estudar Direito nas cervejarias que cercam a Sorbona, à espera da maioridade que lhe devia trazer as heranças acumuladas do pai e da avó”.

O resto é mais ou menos conhecido: lançado no mundo, Fradique foi viajante e esteta, dândi e poeta reservado, aventureiro e putativo autor de prosas inéditas, companheiro de Garibaldi e confidente de Victor Hugo. Tudo isso e também amante de mulheres magníficas: da “gloriosa Ana de Léon, a mais culta e bela cortesã (Vidigal [o amigo e patrício de Fradique] dizia «o melhor bocado») do Segundo Império”; da misteriosa Madame Lobrinska,  legatária  dos seus papéis;  e, acima de todas elas, de Clara,  dona de uns  “olhos finos e lânguidos”, que a  Carlos Fradique Mendes mereceram a mais  admirável carta de amor que a língua portuguesa já conheceu.

Tudo isto sabemo-lo pela  introdução d’A Correspondência de Fradique Mendes, o tal “estudo” que é mais do que isso:  trata-se de uma biografia, bem documentada e bem atestada, para que dúvidas não fiquem acerca da existência (“realidade, corpo, movimento, vida”) desta figura. Quem nessa biografia nos fala é uma voz não identificada, que  só por distração poderíamos confundir Eça de Queirós. Trata-se, isso sim, de  alguém que muito bem conheceu Fradique Mendes  e que  o revela aos seus concidadãos,  pela publicação das cartas. “Nos tempos incertos e amargos que vão”, diz o biógrafo, “portugueses destes não podem ficar para sempre esquecidos, longe, sob a mudez de um mármore.” Assim é, de forma que bem podemos dizer que está nestas “Memórias e Notas” a substância de que se faz a recordação de um mestre. Como Alberto Caeiro o foi para Álvaro de Campos.

(“Conversa entre heterónimos”. “Tudo Língua”, Coimbra, 4.12.2015. Por ocasião do Congresso Internacional “Língua Portuguesa: uma Língua de Futuro”).

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 Foto de Frederico Batista, cedida pelo jornal Público

Dois Fradiques

Quem é este Carlos Fradique Mendes de quem  falamos a propósito da língua portuguesa? Cito palavras de Eça de Queirós, numa carta a Oliveira Martins: Fradique foi um “verdadeiro grande homem, pensador original, temperamento inclinado às ações fortes, alma requintada e sensível… Enfim, o diabo!” Chega isto para conhecermos esta espécie de heterónimo que depois reaparece noutra carta, escrita, como aquela, no ano mágico de 1888? Talvez não, até porque,  duas linhas antes, Eça dissera: “Fradique, no nosso tempo, era um pouco cómico”. Afinal, havia outro.

Para encontrar esse outro, recuo uns vinte anos e leio o que vem na Revolução de Setembro (jornal influente, já se sabe) de 29 de agosto de 1869: “Habitando Paris durante muitos anos, conheceu o Sr. Fradique Mendes pessoalmente a Carlos Beaudelaire [sic], Leconte de Lisle, Banville e a todos os poetas da nova geração francesa”. Um Fradique bem relacionado, como se vê e, aparentemente, afrancesado (mas quem o não era, nesses tempos?). Só que este Fradique ia mais longe. De novo a Revolução: “O seu espírito em parte cultivado por esta escola é entre nós o representante dos satanistas do norte, de Coppert, Van Hole,  Kitziz, e principalmente de Ulurus, o fantástico autor das Auroras do Mal”.

Eram  quase risíveis  alguns dos títulos que a Revolução de Setembro anunciava: A Guitarra de Satã, Boleros de Pã e Ideias Selvagens, “três vastas epopeias” garantidamente já prontas a ler; e nelas, poemas bizarramente intitulados “Os beijos no Calvário” e “O testamento do abutre”. Apetece dizer aquilo que  mais tarde será escrito: “Éramos assim absurdos em 1867!” O ano, já se disse, não era 1867, mas 1869 e a diferença não é inocente. Pouco importa, contudo, porque o espírito do absurdo e da paródia  estava lá e bem vivo. Quem o alimentava eram o jovem Eça, mais Antero de Quental e Jaime Batalha Reis. E  a mistificação deu frutos:  houve quem procurasse  os livros dos tais “satanistas do norte”. Debalde:  Coppert, Van Hole,  Kitziz e Ulurus apenas existiam na bem fértil imaginação  dos três amigos.

Não direi que este é um “Fradique em botão”, mas é claramente um “primeiro Fradique Mendes” e já quase um heterónimo coletivo. Mas não nos apressemos: falta andar algum caminho na estrada que conduz ao heteronimismo pessoano, um caminho feito também de trabalho sobre a língua literária. Se Eça de Queirós parece tentado a ir por aí,  não o faz logo nesses anos 60 e já em vésperas de  uma outra provocação: O Mistério da Estrada de Sintra, romance epistolar (mas isso  só depois se soube)  composto em 1870  com o amigo Ramalho Ortigão.

É  no Mistério que reencontramos Fradique Mendes,  mencionado numa carta da misteriosa condessa W. Numa reunião mundana  Fradique Mendes  faz-se contador de proezas bizarras e  repulsivas. “Sentado num sofá com um abandono asiático, estava um homem verdadeiramente original e superior, um nome conhecido – Carlos Fradique Mendes”, diz a  condessa do Mistério. E acrescenta: “Fora amigo de Carlos Baudelaire e tinha como ele o olhar frio, felino, magnético, inquisitorial.”

De novo, Baudelaire. Mas agora há mais:  Fradique (diz ainda a  a condessa) “tocava admiravelmente violoncelo, era um terrível jogador de armas, tinha viajado no Oriente, estivera em Meca, e contava que fora corsário grego.” Sublinho: “contava que fora corsário grego”. Fradique já não é só poeta de versos por conhecer; ele é também contador de histórias. Uma dessas histórias é a de uma amante antropófaga que, no ardor da paixão, lhe ia levando um braço.  Palavras de Fradique, perante um auditório estupefacto: “A pobre criatura (…) untava os cabelos com um óleo ascoroso. Eu seguia-a pelo cheiro. Um dia, exaltado de amor, aproximei-me dela, arregacei a manga e apresentei-lhe o braço nu. Queria fazer-lhe aquele mimo! Ela cheirou, deu uma dentada, levou um pedaço longo de carne, mastigou, lambeu os beiços e pediu mais. Eu tremia de amor, fascinado, feliz em sofrer por ela. Sufoquei a dor, e estendi-lhe outra vez o braço… (…)  Comeu mais (…), gostou e pediu outra vez.”

Não se sabe até onde chega o repasto. O que se sabe é que este Fradique fica por aqui. Como quem diz: chega de paródia,  porque os anos 70 serão, para Eça, anos de construção de personagens a valer e não de congeminação de heterónimos, mesmo que “em botão”.

(“Conversa entre heterónimos”. “Tudo Língua”, Coimbra, 4.12.2015. Por ocasião do Congresso Internacional “Língua Portuguesa: uma Língua de Futuro”).

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 Foto de Vera Moutinho, cedida pelo jornal Público

 

 

Fradique Mendes e Bernardo Soares (2)

Bernardo Soares e Carlos Fradique Mendes – ou melhor, Jerónimo Pizarro e Carlos Reis –  encontraram-se para uma conversa na Biblioteca Joanina, para o encerramento dos 725 anos da Universidade de Coimbra (UC). Com um saco de pano vermelho que comprou numa livraria de Madrid que se chama “Tipos Infames”, o especialista em Fernando Pessoa Jerónimo Pizarro apresentou o que se ia passar a seguir. “Somos dois tipos infames a falar de outros dois tipos infames que poderiam ser o Bernardo Soares e o Fradique Mendes ou semi-infames por serem semi-heterónimos e pensemos que esta é uma conversa a dois sobre duas personagens que estamos a tentar aproximar.” [continuar a ler e ver vídeo]

Isabel Coutinho, Vera Moutinho e Frederico Batista, Público [online], 7 de dezembro de 2015.

 

 

Fradique Mendes e Bernardo Soares

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Realismo e modernidade em Eça e Machado

Transatlantic Dialogues: Indiana University

Transatlantic Dialogues” is an international symposium that aims to reexamine research on nineteenth-century Portugal and Brazil from a transatlantic and interdisciplinary perspective focusing on the two major intellectual figures of the period, Machado de Assis (1839-1908) and Eça de Queirós (1845-1900). The symposium will bring together some of the most innovative scholars and recognized experts to present new perspectives and insights on Machado’s and Eça’s work and its relation to realism, modernity, gender, race, visual culture, digital humanities, and postcolonial studies. Eça and Machado are not only two of the greatest novelists ever to have written in Portuguese, but they also engaged in dynamic debates that reached far outside literary circles and their geographic area.

 

A personagem como ficção

Eça de Queirós, por António

Eça de Queirós, por António

Bem conhecidas são as personagens queirosianas. Conhecidas, analisadas, interpretadas, reinterpretadas e discutidas, ora elogiadas, ora abominadas, à luz de paradigmas diversos, complementares ou antagónicos: da história literária à psicanálise e ao estruturalismo, passando pela estilística, pela sociologia literária, pelos estudos femininos, pelos estudos pós-coloniais, pelos estudos comparados ou pelos estudos narrativos, para tudo e para algo mais têm servido as personagens de Eça. Heróis e vilões, misóginos e sexualmente ambíguos, edipianos e, quando calha, anti-edipianos, reflexo do seu tempo e desmentido do que ele foi,  românticos, tardo-românticos e pré-modernistas, assim são os seres humanos que habitam os relatos de Eça. Neste aspeto, a vasta bibliografia queirosiana tem-se alimentado gulosamente da complexidade do mundo ficcional de Eça. E, no caso em apreço, da abundância diversificada de uma ementa de carateres que desafia e às vezes assusta quem dela se aproxima: c’est l’embarras du choix!

Não vou por aí, porque, tal como muitos outros, por esse caminho já fui e por ele voltei. Quando me refiro aqui à personagem como ficção, aludo, em geral, à vocação queirosiana para inscrever a literatura nas suas narrativas e nos discursos das figuras que nelas encontramos; o que, com perdão pela invocação do óbvio, me parece ser uma forma de lançar uma ponte que vai do realismo à modernidade, na passagem do século XIX para o século XX.

De forma mais clara, reporto-me a vários aspetos deste tema tão amplo como, para mim, fascinante. Por exemplo, ao facto de personagens literárias de outros escritores comparecerem nos relatos de Eça, mencionadas pelos seus narradores ou pelas personagens queirosianas propriamente ditas. Num outro plano, o conceito de personagem emerge pontualmente na ficção de Eça, a propósito  das histórias contadas e não raro com intuito argumentativo. Para além disso,  a ficção pode ser  lida não como um “espaço” fechado, mas como um campo sem fronteiras rígidas, campo que  pode ser “invadido” por seres (por personagens) que nele penetram sem grandes restrições. Desponta aqui, naturalmente, a noção que é uma das estrelas mais brilhantes da constelação dos modernos estudos narrativos: a metalepse.

Desenho de João Abel Manta

Desenho de João Abel Manta

 

Carta Inédita de Fradique Mendes

A Madame de Jouarre

Lisboa, começos de setembro

Minha boa Madrinha:

Carlos Fradique Mendes António           Em veraneio por esta Lisboa encalorada, aproveito para lhe dar conta das novas e mandados com que esta capital do Reino nos tem brindado nos últimos tempos;  de sobra sei que a minha Madrinha não toleraria que outros lhas confidenciassem, mesmo  com zelo  semelhante ao meu. E como, mais do que o tremendo olhar de Medusa, temo o  sobrolho franzido pelos seus amuos,  aqui venho, pressuroso e obrigado, depor no seu regaço os tais mandados e as tais novas.

Não padeço  da loquaz coscuvilhice de bondosa comadre que a outra comadre revela os segredos da vizinhança; em vez disso, motiva-me o esforço que há longo tempo venho fazendo para entender Portugal e os portugueses. Não é tarefa ligeira, posso assegurar. Coisas que aqui se passam dificilmente encontram parecença com proezas que a História  desveladamente guarda, bem aferrolhadas sob o pó dos seus arquivos  e nos ponderosos volumes que lhes consagrou.  No século que foi o meu, pude testemunhar acontecimentos tão extraordinários como as revoluções que em 48 mudaram o curso secular da velha Europa, a guerra da Crimeia, a ira do grande Hugo contra Napoleão le Petit, a navegação do Suez e o desastre da Comuna. Nada  se compara, contudo,  com  episódios  que nas últimas semanas têm agitado o dia a dia da minha Pátria e dos meus patrícios.

Saberá a minha madrinha que os portugueses têm vivido, nos últimos meses, com a angustiada preocupação de saberem qual será, por fim, o destino de um certo político que durante  anos os governou. Aparentemente em vias de ser acusado de malfeitorias que, jura ele e juram os seus competentes causídicos, jamais cometeu, este homem representa bem, et pour cause, aquilo a que os plumitivos de serviço chamam, com a originalidade que os distingue, a “classe política”. Segundo os meus concidadãos, pertencem a essa “classe” todos aqueles que, intrigando no Parlamento, discreteando em gabinetes ministeriais ou travando esganiçadas batalhas eleitorais, persistem em pôr alguma ordem (ou o que eles entendem como tal) nesta minha terra de doce clima. Os meus compatriotas reservam a esta “classe política” o  desprezo que provém de pensarem, praticamente sem exceção que se conheça, que ela fervilha de “gatunos”; ou que, no dizer de uma minha serviçal,  “eles querem é governar-se”. Não trato de esmiuçar agora  se algum grão de  verdade alimenta estas conjeturas, porque o caso  que lhe ofereço nestas linhas desataviadas é mais flagrante – e bem apetitoso!

A figura de quem tanto se fala esteve encarcerada durante largos meses, por ordem de uma Justiça que, para uns, foi indolentemente branda, enquanto, para outros, tem mostrado mais crueldade do que Nero enfurecido com os primeiros Cristãos. Ignoro  qual das duas fações tem razão. Ignoro-o eu e ignora-o o professor Marcelo, coisa que sobremaneira me  conforta o sono porque assim me acho tutelado pela companhia perspicaz do grande Comentador. O que sei é que nunca a prisão de alguém – para mais um “político”! – agitou tantas emoções e desatou tantos comentários. Não há talvez um só português que não tenha já exarado sobre o homem um veredicto definitivo! Mesmo este seu dedicado afilhado, depois de laboriosas congeminações, vai engendrando uma convicção firme quanto às acusações que sobrecarregam os ombros da criatura. Nisto, devo acrescentar, somos todos  ajudados pelas gazetas (e em especial por um matutino com grande aceitação e esforçados informadores) que diariamente nos trazem  notícia de novas aleivosias e de novas cumplicidades, prontas a serem assacadas ao pobre arguido.

O caso que sobre todos os outros motiva esta minha epístola aconteceu há alguns dias e trouxe de novo a tal https-page0001personagem (mas não só ela!) para o centro daquilo a que os periodistas chamam “espaço mediático”. Tendo sido aliviado da  frieza do cárcere em que jazia, o nosso homem  foi colocado naquilo a que prosaicamente se chama “prisão domiciliar”, um conforto  que lhe dá direito a ostentar à porta (ou nas escadas, não posso precisar) um garboso polícia. Situada numa sossegada rua de Lisboa, a discreta casa que assim serve de “prisão domiciliar” foi objeto, desde logo, da voracidade noticiosa de jovens repórteres que, de câmara e microfone em punho, ali montaram um cerco mais tenaz do que o assédio que por dez anos sitiou os muros de Troia.

Acabou-se, pois,  a pacatez daquela rua e daquela casa, para gáudio da vizinhança (que legitimamente aspira a “aparecer na televisão”) e sobretudo do “Cantinho do Abade”, pitoresca casa de comidas e bebidas que ali está paredes meias com o tal domicílio. Com razão o  digno proprietário do “Cantinho”  esfrega já as mãos de contentamento, regalado com uma tão inesperada publicidade. E de facto, logo no princípio da noite em que este caso começou, estava a rua enxameada de repórteres;  ali foram eles conduzidos  por uma intuição luminosa, pois que de outro modo nunca saberiam quem naquela casa obrigadamente passava a residir e nem testemunhariam o que se  seguiu.

Imagina a minha madrinha que foi o tal político a colher a atenção dos  repórteres? Engana-se e  engana-se redondamente, como  os seus claros olhos poderão ver e rever! Quem ali foi entrevistado e minuciosamente filmado foi o expedito funcionário de uma empresa de pizzas! Nem mais, minha madrinha! O rapaz da pizza, ostentando o seu  elmo de motociclista elegantemente descaído sobre a nuca, para que o seu rosto agora famoso ficasse bem à vista de todos.

Ao que parece, o tal político teve a veleidade de,  nas suas primeiras horas de quase liberdade, encomendar uma iguaria que lhe confortasse o estômago, desconsolado como estava pelos   meses em que teve de se contentar com as austeras ementas prisionais. Em má hora o fez  – para ele, porque acabou por ficar sem a encomenda. Mas em boa hora o decidiu, para o tal mancebo, que é hoje uma figura famosa para uma boa parte dos portugueses que seguem estes  incidentes com atenção gulosa.

https 3-page0001           Adivinho daqui a sua perplexidade e bem compreensível é ela. Não há, com efeito, palavras que decentemente relatem os cinco minutos de fama que o Destino  reservou a um jovem até então mais estranho às massas do que para mim o é a remota gramática do sânscrito; só mesmo o grande Balzac e a  pena com que ergueu, para nossa ilustração, todo um mundo de carateres e de paixões, só  ele poderia descrever com precisão e com verdade o rosto atónito e quase divertido  do moço metido em tais apertos. Limito-me, por isso, aos breves traços que a minha inépcia de cronista improvisado consente.

Ao chegar à porta  número 33, com o intuito de entregar a sua mercadoria, e não tendo tido a  intuição dos repórteres  (e, portanto, desconhecendo não ao que ia, mas a quem ia…), foi o moço prontamente intercetado por câmaras de filmar, por microfones  sequiosos e por  perguntas em catadupa: quem  tinha feito a encomenda?  A que andar iria ela subir? Sabia ele a quem os víveres se destinavam? E mais: que condimentos temperavam a pizza? Perante estas ingentes questões, o rapaz olhou com desconfiança risonha aquele bando de perguntadores e só pôde manifestar a  inocente surpresa de quem inopinadamente se vê em semelhantes assados.  De todas as perguntas só encontrou resposta para uma: a pizza era de extra-queijo e pepperoni,  uma  informação, minha madrinha,  que os historiadores e os sociólogos que atentamente nos esperam lá no futuro não se atreverão a descurar. Extra-queijo e pepperoni! Adivinho daqui os sisudos ensaios  que  os ditos sociólogos hão de compor,  achando-se na posse de tal informação; e imagino que surpreenderão  os vindouros com títulos tão suculentos como Hábitos alimentares em prisão domiciliar nos começos do século XXI; ou Influência do extra-queijo no Direito Penal e em sua arquitetura jurídica; e ainda, Indigestões de pepperoni em contexto de indagação criminal: novos contributos.  

A minha madrinha sorri, por certo. Mas não deixará de reconhecer que este jovem  que trago ao seu conhecimento page0001é, mesmo contra a sua vontade,  um benemérito digno da nossa efusiva gratidão. Sobejamente a merece ele, que mais não seja pela clareza com  que encerrou o episódio. Perguntado sobre se iria comunicar a impossibilidade de entregar a comida à sua cadeia (de produtos alimentares, como queria dizer a atabalhoada repórter), de pronto respondeu: “Cadeia? Esperem aí, eu não estou preso!”

Porque, por fim, a pizza não foi entregue e o extra-queijo e mais o pepperoni falharam o alvo a que iam dirigidos! Por lamentável esquecimento, faltava àquele Mercúrio das pizzas uma identificação que, bem nítida e bem eloquente, dissesse às forças da autoridade quem ele era de facto.  Deus sabe, terão pensado os espertos guardiões do número 33 e do seu residente, que engenhos e que artimanhas podem esconder-se nas vastas caixas de cartão  que levam as pizzas de porta em porta.

Assistindo a tudo o que bem imperfeitamente lhe narro, uma amiga minha, pessoa de invejável argúcia e dotes domésticos irrepreensíveis, afiançou-me que nada disto tem a verosimilhança de que outrora falava o velho Aristóteles. Segundo ela,  aquele número 33 a que se recolheu a ilustre personagem  estará mais do que fornecido de confortos e de mantimentos. A ser assim,  a entrega da pizza, garante a minha amiga,  teria resultado de uma  montagem não destituída de intenção publicitária.  Quem tal faria? A  cadeia (salvo seja) de comidas? Um provocador político? Um qualquer gracioso desejoso de fama momentânea? Não sei.

O que sei e convictamente sustento é que o meu alegre país está cheio de confortos que  lhe asseguram e a quantos tivemos a ventura de aqui nascer um lugar na História dos povos. Veja bem, estimada madrinha: somos servidos, de forma bem diligente e constante, por escribas e por repórteres preocupados com o nosso divertido bem estar e não com as chagas que a vida moderna reserva aos que a observam com o olhar bisonho dos pessimistas. E se pensarmos (como eu penso)  que os tais periodistas e os tais repórteres mais não são do que a ágil extensão (ou o braço armado, como diria o velho general Sequeira) da incompreendida e estoica “classe política”, então tudo se conjuga para que aqui desfrutemos daquela aurea mediocritas que os Antigos almejavam. Refugiados em debandada, crise demográfica, ameaças terroristas, bancos em rutura, colapso das bolsas, desemprego de jovens (e de adultos!), impostos que nos massacram, desconjuntamentos da velha Europa tudo isso é secundário, se  soubermos gozar a  existência amena que por estas gentes  nos é oferecida, com generoso  altruísmo.

E assim, a despreocupada vida que nos tocou em sorte bem livre está de coisas tenebrosas. Basta que  saibamos entreter-nos com os extra-queijos de uma pizza que errou o alvo! Não entendo mesmo por que razão persistem alguns espíritos  quezilentos em falar dos males que, segundo eles, nos atormentam, sempre ignorando os esforçados trabalhos do bem falante Coelho e do risonho Portas, a bem da Nação. Se mais não alcançar a bondade lusitana, bem merecem eles, no dia que a Providência o destinar,  ser  brindados também com uma pizza condimentada a seu gosto e bel-prazer. E mais: que tal pizza seja entregue, para castigo, por  um dos tais espíritos rabugentos, bem filmado pelos repórteres de serviço, para que a justa penitência  se espalhe e seja conhecida urbi et orbi. Quem sabe, por fim  aprenderão eles que o ódio azedo que destilam só contribui para infernizar os dias dos que nos governam e os de todos aqueles que têm a fortuna de assim ser governados.

Beija-lhe as mãos com  carinho,

Carlos Fradique Mendes

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