Jacinto

Descendente de uma família aristocrática lusitana de grande fortuna patrimonial, Jacinto, o protagonista formal do romance semipóstumo de Eça de Queirós A Cidade e as Serras, publicado em 1901, habita em Paris um luxuoso palacete, localizado no n.º 202 da Avenida dos Campos Elísios. O seu avô, conhecido em Lisboa por D. Galeão, miguelista convicto, tinha-se exilado voluntariamente em Paris depois do triunfo da Revolução Liberal; o derradeiro sobrevivente da estirpe não conhecia sequer Portugal, no momento em que o narrador homodiegético, o seu amigo Zé Fernandes, começa a relatar a sua história.

Casual ou estrategicamente, a narrativa de Zé Fernandes coloca imediatamente em destaque a fortuna do protagonista, colocando esse elemento acima de qualquer outro que, numa relação de amizade, poderia ter maior relevância. “O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival” (Queirós, 2008: 11). Segue-se a enumeração do património imobiliário, que cobre todo o país, e a descrição dos antecedentes familiares imediatos de Jacinto, passando pelo encontro do seu avô com o então infante D. Miguel, que o ajudou a levantar-se quando aquele escorregou numa casca de laranja. Depois da morte de Jacinto “Galeão”, a esposa, D. Angelina Fafes, recordando a tormentosa viagem de ida, nunca quis voltar a Portugal. O filho de ambos, o Cintinho, de saúde débil, faleceria ainda antes de a sua esposa, filha de outro exilado absolutista, ter dado à luz “o Príncipe da Grã-Ventura”, como Zé Fernandes chama ao seu amigo Jacinto.

Chegado a Paris para realizar estudos universitários, depois de ter sido expulso da Universidade de Coimbra, Zé Fernandes rapidamente se torna no maior amigo de Jacinto e no seu cronista. Há, no entanto, alguma ambiguidade (ou ironia) no discurso encomiástico com que o narrador caracteriza a personalidade e as ações do seu amigo, dando-se sempre destaque à fortuna pessoal, ao relevo social que esta lhe permite atingir, e à sua propensão para captar, no burburinho emanado pelas disputas científicas e filosóficas que caraterizavam o final do século XIX, sobretudo as Ideias Gerais.

(Continuar a ler)

(António Apolinário LourençoDicionário de Personagens da Ficção Portuguesa)

Figurações acacianas

Acácio por Bernardo Marques

Acácio por Bernardo Marques

Numa crónica publicada no jornal carioca O Globo, a 13 de novembro de 2015, Paulo  Nogueira Batista Júnior intitulava  “Conselheiro Acácio” uma prosa em que, a certa altura, escrevia:  “Uma homenagem ao Conselheiro Acácio (não sei se o leitor sabe quem é), aquele personagem do Eça de Queirós que proclamava o óbvio ululante com categoria impressionante” . Suponho que muitos leitores brasileiros saberão quem é o digno Acácio, tal como aceitarão, sem constrangimento, que ele salte da ficção onde o conhecemos para a realidade política brasileira (a personagem era invocada  a propósito dela); nesse salto para o nosso mundo, Acácio traz consigo atributos comportamentais que o cronista assinalou (o hábito de dizer “o óbvio ululante com categoria impressionante”) e talvez outros ainda que agora não importa referir.

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Por Arnaldo Ressano

Contribui para a agilidade com que o conselheiro dá aquele salto transficcional a sua reconhecida condição de tipo e o seu potencial de representação temática, segundo a expressão de James Phelan (em Reading People, Reading Plots. Character, Progression, and the Interpretation of Narrative. Chicago/London: The Univ. of Chicago Press, 1989, pp. 2-3), bem como o lugar estratégico que ele ocupa, na economia descritiva das personagens d’O Primo Basílio. O retrato que dele se elabora adota, com método impecável, os protocolos da doutrina realista: à descrição física (“Era alto, magro, vestido todo de preto…”) seguem-se aspetos do trajeto profissional (“Fora, outrora, diretor-geral do Ministério do Reino…”) e indicações sobre o seu perfil social, cultural e moral: “Os seus gestos eram medidos, mesmo a tomar rapé (…). Citava muito. Era autor. E sem família, num terceiro andar da rua do Ferregial, amancebado com a criada, ocupava-se de economia política.”

A facilidade com que reconhecemos o conselheiro Acácio e a naturalidade com que o convocamos para o nosso mundo e para o nosso tempo são favorecidas por testemunhos do próprio Eça, a começar pela conhecida carta que escreveu a Teófilo Braga, a 12 de março de 1878: o conselheiro é o “formalismo oficial” e  funciona transparentemente como epítome de uma mentalidade que transpõe as sempre porosas fronteiras da ficção. Esse impulso preserva nele uma nitidez de traços que faz de Acácio a personagem mais consensual, em termos iconográficos, de toda a galeria queirosiana: são incontáveis os artistas plásticos, com maior ou menor projeção, que fixaram, em diversas épocas, suportes e enquadramentos, a figura de Acácio. Alguns deles: Saavedra Machado, Alberto de Sousa, Lima Belém, Arnaldo Ressano, Fernandes da Silva, Leonel Cardoso, João Valério, Bernardo Marques, Rocha Vieira,  Santana e António.

Por Fernandes da Silva

Por Fernandes da Silva

Posto isto, pergunte-se desde já: aconteceu o mesmo com Carlos Fradique Mendes? Deixo a resposta para mais tarde. Prefiro agora insistir nisto: o conselheiro Acácio está connosco também através do cinema e da televisão: n’O Primo Basílio, filme mudo de G. Pallu, de 1922 (ator: António Pinheiro),  na versão de  António Lopes Ribeiro, de 1959, com Virgílio Macieira, e em outras ainda. Registo-as: El Primo Basílio (1934), de Carlos de Nájera (produção  mexicana); El deseo (1944), título sintomático, com realização de Carlos Schlieper (produção argentina, com César Fiaschi como Acácio, mas designado como “el juez”). E também na TV: uma versão da Globo, em 1988, com direção de Daniel Filho e Sérgio Viotti no papel de Acácio .

Muito tem, então, viajado o conselheiro, rasgando horizontes que estão para além do seu austero terceiro andar da lisboeta Rua do Ferregial. E pela língua também: o nome da personagem  entrou no nosso idioma e está dicionarizado: veja-se o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, o Vocabulário Ortográfico do Português  e o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, entre outros. O adjetivo acaciano (mais divulgado do que  o conselheiral que Eça usou) reporta-se precisamente aos atributos exibidos por quantos se assemelham a Acácio, derivando dele outros ainda, também registados: acacianismo, acacianista,  acacismo, acacismo, etc. Todos estes e também, no Dicionário Houaiss, o vocábulo acácio, como nome comum.

(Figurações queirosianas: a personagem n’A Correspondência de Fradique Mendes; conferência apresentada “II Encontro do Grupo Eça – O primo Basílio; São Paulo, 14 a 16 de set. de 2016; a publicar).

O Primo Basílio, real. de Georges Pallu (1922)

                                                  O Primo Basílio, real. de G. Pallu (1922)

 

Carta de Fradique Mendes

Ao Senhor Diretor do Diário de Notícias

Califórnia, fins de janeiro

Senhor Diretor,

Respondo tardiamente ao seu pedido, recebido quando já me aprestava a partir dessas saudosas terras lusitanas que a distância torna mais doces e mais amenas. Tarefas urgentes têm-me desviado do dever de corresponder ao seu amável desafio, dever que agora gostosamente cumpro, sempre certo da sua bondosa tolerância. Pedia-me o meu amigo que lhe mandasse notícias desta América que, desde há dois séculos, tem atraído vagas de pioneiros e de imigrantes,  que fizeram sua  esta  Terra de Promissão. Como eles, boa e farta razão têm quantos olham ainda o Novo Mundo, como lugar fértil em sucessos de que se espanta o Velho Mundo, e não sem um frémito de inveja que bem se entende.

Mais ainda por estes dias, quando um novo presidente tomou as rédeas da mais poderosa nação do Universo, para regozijo de quantos nele veem o restaurador de uma Ordem e de um Poder perdidos. Das terras húmidas da Louisiana às planícies geladas do Minnesota e às faldas agrestes das Montanhas Rochosas, não são poucos aqueles que se deleitam a escutar a palavra fácil desse presidente que, de uma penada, resolveu varrer da vista dos seus fellow americans o estendal de desmazelos e de lascívias que têm debilitado estas terras outrora vigorosas.

Sobre estes e outros casos não preciso de entrar em detalhes. O Senhor Diretor e os seus fiéis leitores tomá-los-iam, muito justamente, por excessivos e até presunçosos. A agilidade com que as notícias hoje galopam pelo mundo, mais céleres do que boato em rumoroso bazar de Istambul ou do Cairo,  dispensa-me de falar com minúcia dos acontecimentos estupendos que esta grande nação tem vivido nas últimas semanas. Uma coisa tenho por certa: está a chegar a Hora, quero dizer, vem aí, e a largas passadas, o tempo de Redenção por que ansiavam muitos daqueles patriotas para quem o chapéu de aba retorcida, a bota de bico recurvo e, quiçá, o revólver expedito pendurado à cinta são emblemas de uma cultura, mais do que  atavios de circunstância. Porque essa América também existe  e sabe Deus com que energia!

Na distraída Europa estamos habituados a pensar que a América toda se espelha, com exatidão cristalina, na endinheirada Nova York, na Chicago espraiada à beira do grande lago ou na Califórnia do sol, das praias e da mundanidade de Beverly Hills. Erro e bem grosseiro! Há uma outra América, mais calada, menos vistosa e também menos amigável, uma América que também conta e que, se o meu Amigo permite o calembourg atrevido, faz a conta. Justamente: faz a conta aos impostos que paga, aos estrangeiros que chegam e aos empregos que saem – esses sacrossantos jobs que os americanos veneram.

Essa América profunda é exímia e pontual em fazer a barbecue no quintal, em  pendurar, com indisfarçado orgulho, a bandeira na varanda e, ao domingo, nunca deixa de cantar, com voz galharda e bem timbrada,  os salmos que o seu Pastor rege. É a América da tríade mágica God, my family and my country, a mesma que junta o rebanho familiar  em quinta-feira de Thanksgiving e adora aquela saudável comida a que nós, por maldosa ignorância, chamamos junk food – comida lixo! Essa é a América que se deleita na constante, às vezes cansativa invocação da family and friends, uma expressão que por aqui muito se ouve também, quem sabe se para espanejar o ranço  clerical daquela tríade, presente na memória de muitos dos nossos patrícios.  Não é  verdade que “o nosso Salazar” – como lhe chamava um meu saudoso tio açoriano – sempre proclamou, com uma suavidade cheia de sibilantes, a bondade da fórmula Deus, Pátria, Família?

Ora essa América profunda falou, quando foi “chamada às urnas”, como dizem os senhores amanuenses do ministério do Reino. Falou e o presidente eleito, de ouvido atento e sagaz, escutou. E o que escutou ele? Muito do que disse  à ansiosa nação americana e ao mundo boquiaberto, naquela sua arenga de 20 deste mês de janeiro, data que parece já pré-histórica, tantas e tão vivazes têm sido as novidades destes dias.

Nesse seu arrazoado, o presidente não mandou recados por ninguém: disse ele mesmo ao que vinha – e  ao que vem. Porque o senhor Diretor aprecia uma  síntese que  poupe a sua gazeta a maçadores circunlóquios, resumirei a sábia mensagem que nos foi arremessada com esta expressão textual: “America first!” E para que dúvidas não ficassem, a respeitável figura espetou o dedo e insistiu: “América first!” Quem não apreciará neste bondoso homem a virtude da clareza? Eu que muitas vezes me amofino quando o nosso pessoal político gagueja argumentos, sem decidir o que lhe vai na mente,  louvo a nitidez daquela mensagem tão transparente como  “as doces águas do Minho”, expressão que gulosamente colho do mavioso poeta Vidal. “America first!” Duas palavras singelas, mas quanta  profundidade e quanta verdade nelas se escondem! E também generosidade, Deus seja louvado! Porque, ao contrário do que disseram comentadores apressados, naquela frase não se esgrime nacionalismo, mas sim  abertura ao mundo. Abertura cuidadosa – mas abertura.

Responda o meu Amigo e, ao mesmo tempo, ajude-me a avançar nos semideiros do pensamento presidencial: o que se ensinava no compêndio de Geografia que no velho convento de S. Francisco acompanhou a minha adolescência estudiosa? Que por América se entende aquela alentada porção do mundo que vai da gelada Gronelância até ao traiçoeiro cabo Horn, por onde navegou o nosso valente Magalhães. Pois nesse continente de tão garridas gentes, todos cabem: o simpático canadiano e o descendente dos Navajos, o diligente agricultor de Wisconsin e o plácido mexicano  que esconde  a siesta debaixo do seu vasto sombrero, o peruano que habita os refegos dos Andes e o colombiano regalado com a fresca folha da coca, o nosso irmão brasileiro, sempre tão afetuoso,  e o orgulhoso argentino que cavalga pelos pampas. Esses todos e outros mais, que a bondade do Criador espalhou por aquelas terras pródigas. Como não entender naquela altaneira “America first!” o desejo ecuménico de todos envolver, com um abraço bem forte e bem caloroso, e de todos chamar para o abrigo da grande Casa Americana?

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É verdade que a mesma figura que isto proclama quer agora construir um muro, um grande e maciço muro, que demarque, com o rigor de uma linha traçada a lápis grosso, a fronteira com o vizinho México. Não poucos plumitivos, nesta América em que me encontro e por todo o mundo, têm verberado o projeto, pensando talvez que a grossa parede será defesa contra as investidas de um qualquer Pancho Villa renascido das cinzas. Puro engano! Depois de revolver na mente a ideia do muro, nela vejo só  vantagem e benefício que a todos encherão de gáudio, quando  a poeira assentar. A poeira que os trabalhos de construção hão de provocar, é claro, e mais aquela que a discussão, metaforicamente, sempre levanta.

Ajude-me o meu Amigo a argumentar. O que é um muro? Uma obstáculo que protege, mas também um empreendimento que fica, pelos séculos dos séculos, exibindo ao olhar incrédulo dos vindouros um testemunho  bem sólido  do engenho humano. Se o meu Amigo já viajou por essa China que tanto intriga o europeu, certamente recordará a impressão que lhe terá causado a Grande Muralha que corre do Mar Amarelo às paragens inóspitas da Mongólia. Para que ela pudesse existir, muitos séculos tiveram de passar e muita força de braços nela empenharam  milhares de chins, que assim puderam dar uma prova definitiva, se necessária era ela, da sua imensa paciência e da sua imensa capacidade de sacrifício.

Pois bem: impediu a Grande Muralha alguma conquista ou rechaçou alguma invasão? Não! Como ela, o muro – ou talvez já o Grande Muro – será não uma  empresa agreste e intolerante (como teimam em declarar algumas vozes que a baba do azedume inspira) mas o eco retumbante  do génio de um homem.  E assim, de uma assentada, o Supremo Arquiteto comete duas proezas:  cria incontáveis empregos (os tais jobs for the american boys) e lega ao futuro  uma obra sem igual. Tal como a sua  irmã chinesa, será ela admirada, com espanto incontido, pelos selenitas, esse simpático  povo que, das melancólicas paragens lunares, verá não apenas uma, mas duas construções  que glorificam o esforço humano. Isto para já não falar na sombra, bem fresca e bem acolhedora, que, de um lado e do outro, o muro há de oferecer ao texano encalorado ou ao indolente mexicano, ambos regaladamente defendidos do sol inclemente por esta que será maravilha sem par dos nossos tempos.

Parece-lhe isto, bom Amigo, pouca coisa? A mim não. Digo até que bem gratos devemos estar a estas eras e a estes homens que nos maravilham com tais falas e   com tais coisas! Passa-se isto numa América em que está viva ainda a lembrança  daquele outro aviso que, no seu tempo, um outro presidente soltou: a América para os americanos! Governava então os destinos da Europa a piedosa Santa  Aliança, com o severo Metternich à cabeça. Quando  suspeitou que o nariz inquieto do chanceler da Áustria se virava para estas paragens,  o atento James Monroe não hesitou e disse, bem alto e bem claro, que na América estavam acabados os tempos da colonização europeia. Na América e em todo o continente americano, entenda-se!

Depois disso, temos tido guerras e rebeliões, revoltas e insubmissões, mas a América manteve-se disciplinadamente fiel àquela doutrina. Será o “America first!” uma nova e atualizada versão do que disse Monroe, com a autoridade do founding father que também era? E até: será o brado “America first!” uma doutrina, com ponderado ideário e com pensamento elaborado? Não sei. Os tempos que correm vão pouco propícios para tais adivinhações, tão imprevisíveis e tão bruscos são os humores de quem agora governa a América. Mas sei (e isso me basta) que estamos protegidos. No discurso presidencial não faltaram, como é de uso nestas paragens, repetidos chamamentos ao bom Deus. “We will be protected by God”, disse o presidente. Muito precisamos dessa proteção – e precisamos dela até mesmo para nos protegermos dos protetores!

Que ela nos não falte, com a bondade que sempre acompanha a Providência divina, eis o voto que formulo, meu distinto Amigo, quando me despeço, com a cordialidade que lhe vota este seu

Carlos Fradique Mendes

 

 

Natal

Nem eu sei realmente como a ceia faustosa possa saber bem, como o lume do salão chegue a aquecer – quando se considere que lá fora há quem regele, e quem rilhe, a um canto triste, uma côdea de dois dias. É justamente nestas horas de festa íntima, quando pára por um momento o furioso galope do nosso egoísmo, – que a alma se abre a sentimentos melhores de fraternidade e de simpatia universal, e que a consciência da miséria em que se debatem tantos milhares de criaturas, volta com uma amargura maior. Basta então ver uma pobre criança, pasmada diante da vitrine de uma loja, e com os olhos em lágrimas para uma boneca de pataco, que ela nunca poderá apertar nos seus miseráveis braços – para que se chegue à fácil conclusão que isto é um mundo abominável. Deste sentimento nascem algumas caridades de Natal; mas, findas as consoadas, o egoísmo parte à desfilada; ninguém torna a pensar mais nos pobres, a não ser alguns revolucionários endurecidos, dignos do cárcere e a miséria continua a gemer ao seu canto!

Os filósofos afirmam que isto há de ser sempre assim: o mais nobre de entre eles, Jesus, cujo nascimento estamos exatamente celebrando, ameaçou-nos numa palavra imortal «que teríamos sempre pobres entre nós». Tem-se procurado com revoluções sucessivas fazer falhar esta sinistra profecia – mas as revoluções passam e os pobres ficam.

(Eça de Queirós, “O Natal – a «Literatura de Natal» para crianças”, Gazeta de Notícias, 9 de fevereiro de 1881).

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Ilustração de Dean Morrissey, para Um Conto de Natal (1843), de Charles Dickens

 

Amaro Vieira

O universo do padre Amaro, protagonista deste romance, é regulado pela liturgia e pelo Eros. Potenciada pelas suas forças mais eficientes e mais instintivas – as da imaginação, da repressão e do medo –, e articulada através do celibato clerical, a relação entre o sagrado e o erotismo intensifica, aqui, o tabu sobre o sexo. E certifica, também, o poder incoercível da líbido.

Amaro Vieira é, fundamentalmente, uma personagem naturalista e, portanto, uma figura preconcebida e explicada, sujeita a moldes e conclusões pressupostas (Pires: 68): os atavismos genéticos e temperamentais, a modelação pela educação e pelo meio. É típica a sua história, que Eça displicentemente sumariza: “o padre e a beata, a intriga canónica, a província em Portugal”. Pobre, órfão, passivo e sensual, Amaro é impelido, pela sua influente e devota protetora, a fazer-se padre. Colocado na provinciana Leiria, torna-se amante de Amélia, contando com a beata conivência do meio. Quando Amélia engravida e dá secretamente à luz, Amaro entrega o nascituro a uma “tecedeira de anjos”, que o faz desaparecer. Amélia morre e Amaro, abalado mas incólume, rapidamente abandona Leiria. Reaparece em Lisboa em 1871, aparentemente instalado no farisaísmo e na amoralidade.

A figura do padre lúbrico e hipócrita integra um anticlericalismo de tradição liberal, apoiado também nas leituras de Michelet e Proudhon (Reis e Cunha, 2000: 62-64). Sobressai, aliás, a crítica micheletiana à feminização e enjuponnement da fé católica. Junta-se-lhes nesta obra a tematização de questões gratas ao naturalismo: a promiscuidade entre Estado e Igreja, a excessiva autoridade dos padres, a devoção alienante, causa de perversão moral, o poder abusivo detido pela prática da confissão, sobretudo junto das mulheres. Há outros temas, mais profundos: o da labilidade da consciência ética, âncora do caráter individual, de clara inspiração proudhoniana; e o da confusão místico-carnal, comum a Amaro e Amélia (e para ela fatal).

(Ana Luísa Vilela, “Amaro Vieira”, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler) 

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A falência da palavra realista

As datas com que usualmente balizamos os acontecimentos da historia literária revestem-se da convencionalidade relativa que é bem conhecida. E contudo, não parece excessivo tentarmos surpreender nelas algum significado, tanto do ponto de vista heurístico, como no que toca à configuração de uma história literária dinâmica. Comecemos, então, por aquilo que está à vista.

Uma das obras de referência para o estudo do modernismo europeu é consabidamente o livro de M. Bradbury e J. McFarlane (eds.), Modernism. A Guide to European Literature: 1890-1930 (London: Penguin Books, 1991); logo no seu título pode observar-se a indicação de 1890 como ano de referência, quando está em causa a determinação fundacional do modernismo europeu, ressalvando-se aqui, como é evidente e importa fazer, o que há de convencional naquela data. A necessidade de relativizarmos a marcação temporal estabelecida pela data confirma-se, por comparação, porque, diferentemente da obra mencionada, 0 livro de F.R. Karl, Modern and Modernism. The Sovereignty of the Artist 1885-1925 (New York: Atheneum, 1988) recua um lustro, quando trata de assinalar os termos de partida e de chegada do modernismo.

Atentemos, pois, nas datas, sem hipertrofia do que valem, mas também sem receio de lermos nelas sinais e tendências daquilo que a cronologia pura e dura só por si não revela e sempre tendo em atenção o ano adotado como marco inicial das relações literárias e artísticas entre Portugal e Espanha que aqui estão em causa. Aquele ano de 1890 foi traumático, sabemo-lo bem, na história portuguesa, quando a crise da monarquia se acentuou por força do Ultimato britânico que tanta indignação desatou em Portugal; indignação e também alguma lúcida reflexão, por exemplo pela pena de um Eça já quase plenamente curado de alguns excessos realistas e capaz de reconhecer, lá do seu «exílio» parisiense, que aquele intolerável ato de violência politica não tinha justificação, mas sim explicações que apontavam para a triste e finissecular decadência portuguesa. Muitas coisas iam mudar e Eça bem o suspeitava.

(in “A falência da palavra realista: antes do modernismo”, in Suroeste 1 . Relaciones literárias y artísticas entre Portugal y España (1890-1936). Badajoz: MEIAC, 2010, pp. 95-105. Versão integral aqui)

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Eça e o motivo do regresso

               Quando aludo ao legado clássico em Eça, não ignoro nem omito que, de um ponto de vista formativo, não é essa a sua matriz dominante, mas antes a francesa, conforme o próprio escritor reconheceu, nos poucos textos autobiográficos que deixou: concretamente, em “0 ‘Francesismo'” (provavelmente de 1886 ou 87) e “Um Génio que era um Santo” (1896). Por outro lado e continuando, por alguns momentos mais, em clave biográfica, parece evidente que os motivos profissionais que fizeram de Eça, por quase toda a vida, um “exilado” por vontade própria concorreram certamente para o destaque que no seu imaginário pessoal ocupam temas e atitudes que importa aqui ter em conta: o tema do exílio (ainda que, repito, por escolha própria), a vivência da saudade e o culto da distância como critério de análise crítica. Tudo isso e ainda o regresso, interpretado como motivo de reencontro com a pátria ausente e, de novo, oportunidade para ponderação crítica, por confronto com o estrangeiro em que Eça viveu quase toda a sua vida adulta.

(“Eça de Queirós e o motivo do regresso”; artigo integral)

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Os Maias em entrevista

A entrevista com o Prof. Carlos Reis deu-se na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em 11 de junho de 2014, no âmbito das atividades realizadas no primeiro semestre, quando atuou como professor-visitante, bolsa Escola de Altos Estudos (CAPES).

Entrevistaram-no alunos da turma de formandos em Português-Literaturas em Língua Portuguesa do turno da manhã, na disciplina Literatura Portuguesa VI, curso monográfico sobre o romance Os Maias (1888). Ao longo das quinze perguntas e respostas, que compõem esta entrevista sobre Os Maias, são abordados assuntos como: a importância do contexto histórico, dos protocolos de descrição e da multiplicidade de perspetivas adotadas pelo narrador; a função dos retratos na construção das personagens; o anticlericalismo de Eça de Queirós; as personagens femininas do romance; a versão para a televisão brasileira; os problemas das edições disponíveis e a necessidade de uma edição crítica (já em curso); os dois modelos de educação, que se contrapõem no romance; a sua longa gestação e a relação com as obras que foram publicadas durante o tempo em que foi escrito; a fratura do sujeito em Carlos da Maia; as semelhanças entre este personagem e outro Carlos queirosiano, o da  Correspondência de  Fradique  Mendes;  e,  por  fim,  os  sentidos  da  exploração  de  aspectos  linguísticos na construção do personagem brasileiro, bem como as contradições resultantes  desse processo.

Ler a entrevista aqui.

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Prova tipográfica d’Os Maias emendada por Eça

 

Educação literária: Os Maias

O trabalho que agora se publica tem um propósito definido e visa destinatários específicos.  O propósito: motivar e auxiliar a leitura d’Os Maias (e não substituí-la), naqueles aspetos em que isso é possível. Os destinatários: os alunos de Português do 11º ano do Ensino Secundário, em cujo programa aquele grande romance de Eça de Queirós aparece  como uma das obras de leitura integral.

É  sabido que a primeira dificuldade com que nos defrontamos, quando temos de  ler Os Maias, é a sua extensão. Trata-se, de facto, de um relato longo, trazendo até nós muitas personagens, diversos espaços, descrições pormenorizadas, expressões que, nalguns casos, podem não ser muito acessíveis. Para além disso, os costumes e os comportamentos do século XIX em que se passa a ação d’Os Maias estão já distantes de nós, embora não tanto como no caso de outros textos e autores de séculos anteriores, também do programa de Português.

E contudo, vale a pena tentarmos perceber em que medida alguns dos principais sentidos que encontramos n’Os Maias são capazes de nos alertar para temas e para problemas do nosso tempo. Por exemplo: a questão da educação e os seus reflexos na formação da pessoa adulta, a ilusão dos projetos concebidos e a desilusão causada pelo seu falhanço, os limites da nossa capacidade para decidirmos o nosso destino, a passagem do tempo e os seus efeitos, a importância que certos espaços têm nas nossas vidas, etc. A  atualidade de Eça e d’Os Maias percebe-se também quando observamos, no nosso tempo, comportamentos e figuras semelhantes ao que ali se nos depara: a ostentação, a mediocridade mal disfarçada, o culto das aparências, a vaidade, a ambição e as fraquezas do poder político, a ociosidade e os seus efeitos, a prática e os vícios do jornalismo, etc. É sobretudo nas personagens  que aquela atualidade se torna flagrante; por essa  razão,  a galeria dos tipos que povoam o romance pode ser considerada das mais ricas da nossa literatura.  (…)

Por fim, um desafio: mesmo quem acha que Os Maias são um relato não apenas longo, mas também lento e maçador (é mesmo verdade:  a descrição do Ramalhete é extensa…) deve fazer um esforço para ler o romance. Um esforço, repete-se. Como é bem sabido, sem isso não conseguimos resolver problemas difíceis, entender fenómenos históricos complexos ou  movimentos filosóficos de agora e de outras épocas. O mesmo  acontece com a leitura d’Os Maias. O que não parece certo é desistir antes de começar ou dizer que se não gosta daquilo que nem sequer se tentou conhecer, sobretudo quando a obra que aqui está em causa  revela o talento de escrita, a perspicácia crítica, a ironia e por vezes o humor de um grande escritor chamado Eça de Queirós.

(Extrato de “Nota Prévia” a Os Maias. Eça de Queirós. Coleção “Educação Literária. Leituras Orientadas”. Porto: Porto Editora, 2016, pp. 6-8).

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Carta ao Ministro da Educação

Ao Senhor Ministro Tiago Brandão Rodrigues

 Paris, rue de Varennes, fins de maio

Perdoará, Senhor Ministro, que eu lhe escreva esta carta tão urgente como inesperada, uma vez que nos não  conhecemos e certamente nunca nos cruzaremos na vida breve a que estamos condenados. Faço-o, contudo, a instâncias de um amigo que, de passagem por Portugal, teve notícia de factos  que a imprensa internacional tem noticiado, com justificado espanto e preocupação.

O caso é que este meu amigo, sempre zeloso do Bem Público e do sossego das famílias, se Retrato_oficial_Tiago_Brandão_Rodriguesapercebeu de que medidas que o Senhor Ministro ultimamente tem tomado fazem perigar a serenidade de jovens estudantes que, até agora, confiavam na sensatez e sobretudo na magnanimidade dos poderes públicos do meu distante país.  Aqui onde me encontro, tenho dificuldade em perceber exatamente o que se passa, quanto à arrastada querela do financiamento público do ensino privado; por isso, peço-lhe desde já, Senhor Ministro, que releve aquilo que nesta bem intencionada carta não aderir à “realidade real das coisas” de que falava a saudosa figura cujo nome me dispenso de mencionar,  tão conhecida é ela.

Segundo aquele meu amigo, o ministério em cuja cadeira o Senhor Ministro tem o assento mais confortável está a condenar à negra miséria dos proscritos alguns milhares (garante-me o meu confidente) de crianças e de adolescentes dessa terra portuguesa que ambos desveladamente amamos. E porquê? Porque os dinheiros públicos que têm alimentado algum do ensino privado português  são agora avaramente regateados pelo poder político. Ao que parece, até agora esses dinheiros  estavam seguros e engavetados, como dádiva  generosa de governantes que, precedendo o Senhor Ministro, haviam entendido que o Estado deveria  encaminhar para o ensino privado uma parte importante dos cabedais que os contribuintes lhe confiam.  Na opinião de alguns dos meus compatriotas, certa e avisada era essa drenagem dos nossos dinheiros, pois que no ensino público campeavam (e campeiam!) um tal desmazelo e uma tal imoralidade, que só mesmo com medidas extremas seria possível resguardar o tal sossego que a todos preocupa, mas a que só alguns têm acesso.

Carlos Fradique Mendes por António

C. Fradique Mendes, por António

Talvez o Senhor Ministro pense que, ao falar em proscritos da Educação, estou a exagerar. É possível. A verdade, porém, é que as imagens que aquele meu amigo me transmitiu são inquietantes, reforçadas como estão por testemunhos de progenitores cuja aflição não invejo, mas respeito. Segundo esses testemunhos, por causa da azeda maldade do Senhor Ministro muitas crianças serão obrigadas a abandonar o ninho escolar onde têm sido acarinhadas e ficarão, enfrentando chuvas inclementes e ventos gélidos, desprovidas de ensino, para todo o sempre. Remetidos ao mais cruel abandono, estes inocentes rebentos serão, ao que parece, privados da aprendizagem de elementares operações de aritmética, da leitura dos nossos mais maviosos poetas, do conhecimento das leis da Física e do exercício mental a que os sinuosos raciocínios da Lógica nos convidam.

Dirá o Senhor Ministro que não é bem assim e que a muitos desses deserdados bastará atravessarem a rua ou percorrerem algumas centenas de metros para que tais mutilações sejam resolvidas. Ora isto é um engano e bem falaz! É que (e lamento ter de o lembrar) há diferenças flagrantes entre o colégio deste lado da rua e a escola pública que, do outro lado do asfalto, negreja. Nesta, há aulas, professores, alunos de várias etnias, diferentes condições sociais, variados níveis de desenvolvimento económico e até mesmo, quando calha, crianças a necessitarem de apoio especial. Uma série de maçadas, em suma! Pelo contrário, do lado de cá da rua há outra coisa: há projetos educativos.

E o que é um projeto educativo, perguntará o Senhor Ministro? Não sei bem, confesso-o com um embaraço que me envergonha. Suponho, contudo, que um projeto educativo corresponderá  ao propósito de ensinar bem, de formar jovens para a vida, de dedicar a atividade docente à nobre missão de fazer crescer os alunos que cada professor tem como seus. É isso exclusivo das tais escolas privadas?  Ignoro. Necessitam elas, para bem o realizarem, dos nossos preciosos dinheiros? Se assim for, que mal tem isso, Senhor Ministro?! Dir-se-á que na escola em frente se procura fazer o  mesmo, com alunos que não são escolhidos “a dedo” (com perdão pelo plebeísmo) e em condições de trabalho que os  dinheiros públicos pouco têm ajudado. Mas isso, Senhor Ministro, são pormenores a que só  espíritos malevolamente críticos dão atenção, sobretudo por ignorarem aquilo que uma sábia tia minha sempre dizia: que toda a vida haverá ricos e pobres! Máxima que, naturalmente, não me atrevo a transferir para esta penosa questão – mas que de vez em quando me faz pensar…

Os protestos a que esta disputa tem dado lugar não têm sido edificantes, mas não deixam de ser (passe a ironia) muito educativos. De tudo se tem visto, diz-me o tal  amigo que me dá conta destes sucessos – e com imagens! Nessas imagens predomina o amarelo, cor bem gritante e expressiva. Cor, todavia, cujo significado oculto tenho dificuldade em alcançar, quando a vejo associada àquelas instituições de ensino  que em Portugal se desenvolveram nos últimos anos como cogumelos em húmida terra  adubada pelo erário público. Diz-me um velho dicionário de símbolos que o amarelo é cor expansiva e quente, evocativa dos raios do sol e do poder das divindades do Além. Cor do ouro, também, e por isso lembrando episódios  como o da chuva dourada de que o engenhoso Zeus tomou a forma, quando quis fecundar a esquiva Danae. Terá sido nisso que pensaram os prosélitos da causa, quando escolheram o amarelo como  emblema para o seu combate? Não posso afirmá-lo com absoluta certeza.  Temo, contudo, que, na pressa com que os tais prosélitos escolheram as suas vestimentas, não tenham sido cogitadas variantes menos nobres do dourado ardil usado pelo pai dos deuses. Honni soit qui mal y pense!

Por fim – e sempre guiando-me pelos comentários do meu amigo e confidente –, parece que algumas mentes mesquinhas têm criticado o apoio que a Igreja Católica vem dando à cruzada em favor do ensino privado. Em vez de dar ouvidos a essas vozes roufenhas de azedume, o Senhor Ministro deveria pôr os olhos, com atenta concentração, em tal apoio. E indagar as suas causas. Tão natural é ele que, por não desejar  ofender  a sua cultura,  me dispenso, Senhor Ministro, de explicar a sua razão de ser. Lembrarei apenas isto:  como a História de sobra nos ensina (tanto em escolas públicas como em escolas privadas, suponho), sempre a Igreja Católica tem estado do “lado certo da vida”, expressão que há alguns anos aprendi, em conversa inesquecível com uma figura de impecável formação moral. Sabemo-lo pelo menos desde o século XVI, quando  começaram a ser justa e metodicamente perseguidos quantos se atreviam a dissentir de coisas tão óbvias como o movimento do Sol em torno da Terra.  Vimo-lo depois quando, mais tarde, um obscuro historiador ousou pôr em causa a verdade do milagre de Ourique. E fico-me por aqui, porque me escasseia o espaço e a ao Senhor Ministro, por certo, a paciência.

Não será o caso agora, mas isso não torna menos eloquente nem menos expressiva a palavra da nossa digna Conferência Episcopal. Foi ela que, ainda recentemente, veio lembrar o “direito constitucional da liberdade de ensino”, a isto acrescentando o seu severo apoio a iniciativas que “defendam a liberdade dos pais escolherem a escola e projetos educativos que desejam oferecer aos seus filhos”.

Permita-me que insista, Senhor Ministro: atente nestas ponderosas palavras e, apesar da juventude que para alguns é um seu defeito, perceberá qual o tal “lado certo da vida”. Um curto texto em que por duas vezes se fala em liberdade é certamente lúcido e avisado, vindo de quem vem. Mais: a preocupação com a lei constitucional que nele aflora não é menos, digamos, instrutiva, até por ser bem sabido que, nos últimos e difíceis anos que os portugueses têm vivido, sempre a Igreja Católica teve a dita lei debaixo de olho. Já a utilização do verbo “oferecer” pode levantar algumas dúvidas, pois que nem todos temos a argúcia exegética que é apanágio de qualquer eclesiástico encartado. E assim, uma leitura literal daquela traiçoeira palavra pode deitar a perder boas intenções que, acredito, até no Paraíso existem.

Certo de que estes sinceros e sentidos apelos não cairão no saco roto de uma indiferença jacobina, apresento-lhe, Senhor Ministro, os meus respeitosos e solidários cumprimentos.

 Carlos Fradique Mendes

 

 

 

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