Génese d’A Relíquia

A história literária d’A Relíquia compreende vários episódios de natureza distinta, mas articulados entre si:  a escrita e a reescrita do texto, as diligências no sentido da sua publicação, os formatos e os media em que o relato apareceu e a constituição de uma tradição impressa, em vida do escritor. Antes disso ou em simultâneo, A Relíquia vai sendo construída pela aquisição, por parte do escritor, de leituras, de referências culturais e de elementos informativos de natureza diversa. E também, é claro, pelo que terá ficado – observações, apontamentos, etc. – da viagem ao Egito e à Palestina e das experiências de escrita que ela propiciou.

Teodorico Raposo, por António

Tendo em atenção aquilo que aqui interessa, não estão em causa os incidentes e os pormenores concretos dessa viagem, na minuciosa reconstituição do seu desenrolar, mas sim as projeções escriturais que ela terá suscitado. Longe de conduzirem direta e linearmente à história genética d’A Relíquia, na aceção estrita que a expressão envolve, tais projeções atestam, todavia, o impulso narrativo e descritivo que a  viagem potencia; ela pode, com efeito,  ser entendida como  contributo remoto para um relato com o fôlego daquele que aqui está em causa.  

Seja como for, não é possível ignorar que, em 1869, Eça empreendeu uma jornada com repercussões decisivas no seu futuro literário. Ocorreu essa jornada num momento histórico conhecido: a 17 de novembro daquele ano, era inaugurado o Canal do Suez, gigantesca obra de engenharia que haveria de mudar os equilíbrios estratégicos mundiais, nos planos político e económico e no que toca às  relações da Europa com o Oriente. Eça estava lá, com o seu amigo e futuro cunhado, o conde de Resende, e disso deixou registo, em vários textos, em esboços de textos ou apenas em projetos, que tiveram desenvolvimentos e sortes diferentes.  

Procedendo como repórter de viagem, Eça deu notícia dos episódios da inauguração do Canal de Suez no Diário de Notícias. Em quatro números do jornal, de 18 a 21 de janeiro de 1870,  o romancista ainda em formação fez, como ele mesmo disse, “a narração trivial, o relatório chato das festas de Port Said, Ismailia e Suez.” (“De Port Said a Suez”, in Notas Contemporâneas. Lisboa: Livros do Brasil, s.d., p. 5).  Publicado pela primeira vez em livro por Luís de Magalhães, no volume de dispersos Notas Contemporâneas (1909), este conjunto de crónicas integrará o volume O Egito e outros relatos desta edição crítica. Na abertura daquelas crónicas, Eça  anunciou um projeto: “Talvez em breve diga o que é o Cairo e o que é Jerusalém na sua crua e positiva realidade, se Deus consentir que eu escreva o que vi na terra dos seus profetas” (“De Port Said a Suez”, loc. cit., p. 5). De acordo com  um testemunho de Ramalho Ortigão, o jovem escritor perspetivava então um livro de título prometedor,  Jerusalém e o Cairo,  livro  esse que nunca chegou a ser  publicado.

(Da introdução a E. de Queirós, A Relíquia. Edição de Carlos Reis e Maria Eduarda Borges dos Santos. Lisboa: Imprensa Nacional, 2021, pp. 26-27)

A Relíquia: edição crítica

A edição crítica d’A Relíquia que agora se publica integra-se numa série editorial que chega ao seu vigésimo volume. A presente publicação é, então, o resultado parcial de um projeto de investigação designado como Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, projeto desenvolvido desde há quase três décadas, com a colaboração de alguns dos mais destacados estudiosos em matéria queirosiana; trata-se, como é sabido, de rever e de fixar o cânone textual queirosiano, objeto de percalços vários, desde o tempo de Eça e por razões que os títulos já publicados têm procurado esclarecer. Para além disso, a Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós propõe-se fazer a história de cada texto, entendida como contributo decisivo para incutir segurança e fundamento àquela revisão.

O romance A Relíquia, publicado pela primeira vez em 1887, ocupa um lugar singular na produção literária queirosiana. Estamos perante uma obra que se se situa na linha da literatura e do pensamento anticlericais, muito férteis no século XIX, e que diretamente se relaciona com as resistências e com as contradições que a laicização da vida pública portuguesa enfrentou, desde o advento do Liberalismo. Por isso, a história do texto, no caso d’A Relíquia, não pode deixar de contemplar esta que é uma questão com larga tradição na cultura portuguesa.

O relato em que Eça quis pôr “o manto diáfano da Fantasia” sobre “a nudez forte da Verdade” tem uma outra história, esta de caráter pessoal. Liga-se ela à experiência do escritor como viajante e à digressão que, ainda jovem, fez por terras do Egito e da Palestina. Muito do que ficou dessa jornada está projetado no texto d’A Relíquia e ainda em abundantes e quase sempre saborosas notas de viagem, muitas delas deixadas inéditas. Na época, estava ainda bem viva uma sensibilidade romântica que não resistia ao forte apelo das origens do Cristianismo, nos lugares exóticos que foram o seu berço. Eça não desprezou esse apelo.

(“Nota Prefacial”; Eça de Queirós, A Relíquia. Edição de Carlos Reis e Maria Eduarda Borges dos Santos. Lisboa: Imprensa Nacional, 2021, pp. 11-12)

Eça diplomata

Eça tradutor

A edição crítica que aqui se publica corresponde à tradução, por Eça de Queirós, de uma peça teatral, Philidor, da autoria do dramaturgo francês Joseph Bouchardy (1810-1870). Trata-se de uma comédia-drama que consiste num prólogo e quatro atos. Tanto o texto original francês como a tradução para português são textos pouco conhecidos. Com efeito, o texto francês só teve uma publicação, sendo incluído na revista Théâtre contemporain illustré, editada por Michel Lévy Frères, em fevereiro de 1863, pouco tempo depois da primeira representação, em 3 de janeiro de 1863, no Théâtre de la Gaîté em Paris. O texto português não chegou a ser representado e só foi editado por Pedro da Silveira, na editora Livros do Brasil, com duas impressões idênticas datadas de 1982 e 2004.

Como era costume nas décadas de 50 e 60 do século XIX, a tradução da peça terá sido encomendada pela direção do Teatro Nacional Dona Maria II, onde se encontra atualmente o manuscrito. Traduzir peças estrangeiras, principalmente francesas, para representação nos palcos lisboetas, era uma das maneiras em voga para tentar remediar a escassa produção dramática portuguesa, cujo reportório, no fim das décadas de 50 e 60, era maioritariamente sofrível e medíocre. A título de exemplo, no ano 1869, de um total de 132 peças representadas nos teatros da Trindade e D. Maria II, 84 eram portuguesas e 48 francesas.[1] É muito provável que a tradução de Philidor date de 1869; ela foi anunciada na Crónica dos teatros de 28 de fevereiro de 1870, sendo um dos primeiros trabalhos que terá ocupado Eça de Queirós, logo depois de terminar os seus estudos em leis em Coimbra e a seguir à colaboração na Gazeta de Portugal e à aventura jornalística do Distrito de Évora[2]. Como está indicado na primeira folha do manuscrito, a peça foi destinada ao Teatro Nacional Dona Maria II, “sendo julgada digna disso”, e supomos que Eça terá enviado o manuscrito ao teatro onde tem permanecido até aos nossos dias, salvando-se do incêndio que destruiu o D. Maria II em 1964.


[1] Crónica dos teatros, 17 de março de 1870, p. 3

[2] Cf. Eça de Queirós, Textos de Imprensa I (da Gazeta de Portugal. Edição de Carlos Reis e Ana Teresa Peixinho, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004; Eça de Queirós, Textos de Imprensa II (do Distrito de Évora. Edição de Ana Teresa Peixinho, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2019.

Kathryn Bishop-Sanchez, introdução à edição crítica de Philidor. Lisboa: Imprensa Nacional, 2021, p. 17.

Eça: antes e depois das Conferências

Hoje, às 16h30: https://www.fileli.unipi.it/c/210527-150-anos-confdem

Eça e os pobres de léxico

Mas diz V. na sua carta –  que não é tanto este antiquado tolo, que o aflige –  mas o purista  do tipo moderno, que, num livro,  aprecia a ideia, a análise, a intenção, a vida das personagens, como um critico do seu tempo, e depois  a respeito de forma,  de passagem, desculpando-se da caturrice, acrescenta, que a construção  é lamentavelmente francesa, o vocábulo pobre, o galicismo fervilhante, e que é uma pena  que V. não saiba escrever a sua língua.  E V. pinta o tipo: «moço,  inteligente, espirituoso, cultivado, afrancesado, moderno, e, no meio de tudo isto, purista!» (…)

V. em todo o caso é infinitamente menos rico em termos que esses,  seus três ilustres colegas [Ramalho Ortigão, Oliveira Martins e Camilo Castelo Branco].  No entanto não se aflija por isso, nem continue  a ler o dicionário, menos ainda os clássicos. Essa questão de riqueza de Lexicon  tem sido já muito estudada – e decidida. E a decisão é esta –  Bem-aventurados os pobres de Lexicon  porque deles é o Reino da Glória. 

Carlos Fradique Mendes, “Carta a E.”, in A Correspondência de Fradique Mendes. Edição crítica por C. Reis, Irene Fialho e M. João Simões. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2014, pp. 340-341 e 344.

Coordenadas: https://zoom.us/j/97417179072?pwd=VnFiemRMOU9SR1VjaWI4NTZzMHZ0dz09

ID da reunião: 974 1717 9072
Senha de acesso: zE28H3

Eça no Canal de Suez

Dizia‑se que o «Latife», pequeno vapor que na véspera tinha partido como explorador, encalhara; que os navios reais e imperiais, os vapores egípcios com os convidados não podiam passar na estreiteza do canal, e que apesar de alijados da sua artilharia, e sem lastro, pediam mais água do que o canal tinha de profundidade; que o vice‑rei e Mr. De Lesseps tinham partido para ver o «Latife»; que se resolvera, em último caso, fazê‑lo saltar; que as festas cessavam, e tudo regressava a Alexandria, como no tempo das derrotas de Actium.

              Em Port Said e a bordo dos navios havia inquietações: os comissários, as oficialidades, os engenheiros, interrogados, calavam‑se discretamente, esperavam ordens de Ismailia – e receavam. Com efeito o «Latife» estava encalhado. Isto, em primeiro lugar, demonstrava a impraticabilidade do canal – o «Latife» é um pequeno vapor, estreito, calando pouco, quase um rebocador. Além disso, era um obstáculo material, brutal, a que os outros navios fizessem uma tentativa corajosa.

Primeira travessia do Canal de Suez

              Dizia‑se que o vice‑rei estava desolado, que Mr. De Lesseps perdera a sua habitual e impassível firmeza de espírito, e que se telegrafara para Paris anunciando o resultado desastroso. Realmente, depois de dez anos de tantos esforços e tantas lutas, tantos combates com o deserto, e tantos combates com a intriga, depois de tantos milhões sorvidos pelas areias, de tantas vidas aniquiladas, de tantos créditos fundados, de tantas festas anunciadas, depois das bênçãos de Mr. Bauer e das ovações a Mr. De Lesseps, era doloroso ver tudo aquilo findar repentina e vergonhosamente, ver‑se que num canal feito para a navegação não cabiam navios, que aquilo era uma obra ridìculamente grandiosa, e que em lugar de tudo terminar em triunfos, tudo terminava em gargalhadas! Estivemos nestas incertezas parte do dia. Esperava‑se o vice‑rei, que fora num pequeno escaler ao canal ver o desastre do «Latife». Enfim, pelo começo da tarde, os navios começaram a mover‑se, as inquietações findaram, o vice‑rei voltava, o «Latife» estava desencalhado, a «Águia» seguia, e a obra de Mr. De Lesseps começava a justificar‑se.

              O «Fayoum», então, penetrou corajosamente no canal. O «Fayoum» era o maior navio do cortejo. Caminhava‑se com grande cuidado; no meio do canal bandeiras brancas marcavam precisamente a linha que deviam seguir os navios, para acharem a necessária profundidade de água. Conservavam‑se minuciosamente em distância; ia‑se devagar, sondando; havia mais cuidados e escrupulosos receios, do que na navegação de um labirinto de rochas. Na realidade, o canal aparecia‑nos estreito, baixo, e a cada momento receávamos ver a proa do navio ir atufar‑se nas areias das margens elevadas. O canal, ao sair de Port Said, atravessa o Mensaleh, antigo lago lamacento. Nós víamos de ambos os lados do canal reluzir ao sol aquela água morta, pesada, esverdeada.

(Crónica de viagem publicada por Eça de Queirós no Diário de Notícias, a 19 de janeiro de 1870, por ocasião da inauguração do Canal de Suez, a que o escritor assistiu, durante a sua viagem ao Egito e à Palestina)

Vida e sobrevida de uma personagem

Acácio por Bernardo Marques

Pela sua condição de tipo e pelo seu potencial de representação temática  de personagem que não evolui ao longo da ação, o conselheiro Acácio ilustra o “formalismo oficial”, assim designado numa conhecida carta de Eça a Teófilo Braga, de 12 de março de 1878. Trata-se, afinal, daquela mentalidade “conselheiral” a que o escritor várias vezes se referiu, sobretudo em textos doutrinários e de polémica; a isso junta-se a hipocrisia moral de quem, defendendo as instituições e os bons costumes, vivia “amancebado com a criada” (O Primo Bazílio; ed. Dom Quixote, 1990, p. 41) e escondia na gaveta da mesa de cabeceira um “volume brochado das poesias obscenas de Bocage!” (314). Não por acaso, é Acácio quem redige o necrológico de Luísa, num estilo em que se projetam os atributos que aqui têm sido mencionados: começando por citar o “imortal Garrett”, a prosa do conselheiro continua assim: “‘…Mais um anjo que subiu ao Céu! Mais uma flor pendida na tenra haste que o vendaval da morte, em sua inclemente fúria, arremessou mal desabrochada para as trevas do túmulo…’” (420).

Tudo isso ajudou a gerar a sobrevida de uma figura que pode também ser relacionada com outras personagens queirosianas (por exemplo, Sousa Neto, d’Os Maias) e ainda, mais distanciadamente, com o flaubertiano Homais. A personalidade, os gestos e a mentalidade de Acácio deram lugar ao adjetivo acaciano, uma singular afirmação da sobrevida da personagem no plano idiomático, sobrevida essa que começa, em movimento transficcional, no contexto da própria ficção queirosiana. N’A Correspondência de Fradique Mendes, ao fazer um resumo daquilo que na vida existe de contraditório, Fradique diz: “Em resumo adoro a Vida — de que são igualmente expressões uma rosa e uma chaga, uma constelação e (com horror o confesso) o conselheiro Acácio” (ed. Imprensa Nacional,  2014, p. 152); depois, na carta sobre Pacheco, pode ler-se o seguinte, a respeito da morte daquela espécie de parente próximo do conselheiro: “Jaz no Alto de S. João, sob um mausoléu, onde por sugestão do senhor conselheiro Acácio (em carta ao Diário de Notícias) foi esculpida uma figura de Portugal chorando o Génio” (250-251).

Num outro plano, o conselho Acácio deu origem a uma vastíssima galeria de refigurações, no cinema, na televisão, no teatro, nas artes plásticas, etc. Em filmes e em séries de TV, em realizações de Georges Pallu, de António Lopes Ribeiro ou de Daniel Filho , entre outros,  o casting foi favorecido pela mesma “nitidez de traços que faz de Acácio a personagem mais consensual, em termos iconográficos, de toda a galeria queirosiana: são incontáveis os artistas plásticos, com maior ou menor projeção, que fixaram, em diversas épocas, suportes e enquadramentos, a figura de Acácio. Alguns deles: Saavedra Machado, Alberto de Sousa, Lima Belém, Arnaldo Ressano, Fernandes da Silva, Leonel Cardoso, João Valério, Bernardo Marques, Rocha Vieira, Santana e António” (C. Reis, “Figurações queirosianas: a personagem n’A Correspondência de Fradique Mendes”). 

Confirmação plena da sobrevida da personagem: a sua entrada no espaço público, referida em textos de imprensa, quase sempre com propósito crítico, pela via de comparações desprestigiantes. Noutros termos: ser comparado com o conselheiro Acácio, na vida cultural, social ou política, não é, decididamente, um elogio que se deseje (veja-se https://oglobo.globo.com/opiniao/conselheiro-acacio-18037556 e https://expresso.pt/economia/2019-11-24-Resposta-ao-Conselheiro-Acacio-Louca; acessos a 23.2.2021).

(C. Reis, “Conselheiro Acácio”, Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; artigo integral aqui).

Conselheiro Acácio, por António

Bonifácio

Pode um gato ser personagem num grande romance onde não faltam figuras humanas marcantes? Pode, evidentemente.

Logo no início d’Os Maias, quando se procede à figuração de Afonso da Maia, não estão em causa apenas os seus atributos lembrando um “varão esforçado das idades heroicas” (Os Maias, ed. Imprensa Nacional, 2017, p. 67). Completa-se essa imagem com “um pesado e enorme angorá, branco com malhas louras, [que] era agora (…) o fiel companheiro de Afonso.” O gato tem um nome que vai mudando: “Tinha nascido em Santa Olávia, e recebera então o nome de Bonifácio: depois, ao chegar à idade do amor e da caça, fora‑lhe dado o apelido mais cavalheiresco de D. Bonifácio de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara definitivamente no remanso das dignidades eclesiásticas, e era o Reverendo Bonifácio…” (p. 68).

Regularmente, o gato aparece nas páginas d’Os Maias como membro da família e, mais do que isso, como signo-animal da temporalidade que estrutura o romance. É esse o sentido – o da passagem do tempo – das mudanças de nome, acompanhando o processo que vai da juventude à velhice. O mesmo processo, afinal, vivido por Afonso da Maia e por outras figuras do romance, com destaque para Tomás de Alencar. Por fim, é o reverendo Bonifácio que chora a morte do patriarca: à porta do quarto vazio que abrigara o dono, “recomeçou a miar, num lamento agudo, saudoso como o duma dor humana, chorando o dono perdido que o acariciava no colo e que não tornara a aparecer” (p. 663).

(Extrato de C. Reis, “Animalidade e humanidade”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, 1315, 24.2.2021, p. 20)

Eça no Brasil: leituras brasileiras e portuguesas

A fortuna brasileira de Eça de Queirós é antiga, diversificada e não isenta de controvérsia. Para ela contribuíram escritores, artistas plásticos, universitários, leitores anónimos e de cultura de intensa devoção: devoção propriamente literária, gastronómica e comportamental. No presente texto passaremos em revista, de forma pouco sistemática, algumas das leituras e intervenções que ajudaram a fazer de Eça de Queirós uma figura absolutamente incontornável na história das relações culturais luso-brasileiras.

Se, ainda em tempo de Eça (e de um Eça praticamente em princípio de carreira de romancista), desejarmos realçar um nome fundador naquilo que agora e aqui importa, esse nome é indiscutivelmente o de Machado de Assis. A história do episódio que foi o da crítica machadiana aos romances O Crime do Padre Amaro (referimo-nos à segunda versão, de 1876) e O Primo Basílio (1878) há muito que está feita, por diversos estudiosos que do assunto se ocuparam, com natural destaque para Alberto Machado da Rosa.

O estudo Eça, discípulo de Machado? Constitui hoje um clássico da bibliografia queirosiana, em grande parte porque a extensa análise da crítica de Machado de Assis orientou-se no sentido de mostrar que dela decorreram mutações decisivas na história literária queirosiana, mutações desde logo traduzidas na reescrita d’O Crime do Padre Amaro; que as teses de Machado da Rosa são verdadeiras foi o que pudemos recentemente observar e reforçar, na edição crítica d’O Crime do Padre Amaro  e no estudo introdutório que a acompanha. Aí ficou sublinhado também que Machado de Assis não estava interessado em explorar a questão de eventuais plágios levados a cabo por Eça (embora tenha sido assim que os textos de Machado foram muitas vezes interpretados), mas antes na pertinência do Naturalismo, na sua coerência artística e na sua concretização literária; que assim foi mostra-o também o diálogo (afinal não consumado) que Eça esboçou com Machado, ao redigir um texto doutrinário e de resposta polémica que, afinal, não chegou a publicar [conhecido pelo título “Idealismo e Realismo”]. Seja como for: esse episódio em muitos aspetos fundador fica como um momento fugaz, mas muito significativo, da interação  literária que chegou a existir entre os dois maiores romancistas da língua portuguesa; e fica também como evidência do interesse que a obra de Eça suscitou no Brasil, desde muito cedo.

Esse interesse, já o sugerimos, reveste formas e adota gestos que não raro transcendem o âmbito da leitura crítica propriamente crítica. Embora não sejam essas formas e gestos por vezes singulares que aqui importam, vale a pena mencionar, de passagem, algumas das suas manifestações. Refira-se, então, que as primeiras adaptações teatrais de textos queirosianos foram feitas no Brasil, com nada menos do que três versões e duas representações d’O Primo Basílio em 1878, ou seja, no próprio ano de publicação do romance. Para além disso, Eça ocupou a atenção de diversos artistas plásticos, no Brasil. Dois casos: o do monumento da autoria do português Rodolfo Pinto do Couto, com um busto do escritor em baixo relevo, num medalhão em bronze, monumento que hoje se acha na zona de Botafogo, no Rio de Janeiro (e por sinal em local pouco acessível, praticamente no meio do frenético trânsito carioca); o outro caso é o de Wladimir Alves de Souza, autor de vinte gravuras em água-forte, contemplando sobretudo personagens d’Os Maias [reproduzidas na obra de Frederico Perry Vidal, Os enigmas de Eça de Queirós. s.l.: Seara Nova Editores, 1995].

As gravuras de Alves de Souza foram, aliás, elaboradas no contexto de uma sociedade eçófila, designada  “Clube do Eça”, que, a partir de 1955,  no Rio de Janeiro, suscitou jantares e atividades culturais a eles associadas. Trata-se de um tipo de manifestação que, não sendo original, traduz um imaginário de socialização de um escritor e das suas ficções, sem grandes consequências de natureza crítica ou histórico-literária, antes motivando episódios e discursos  não isentos de um certo elitismo. Eça de Queirós adequa-se muito bem a iniciativas como a referida, não só por força da sua  singular personalidade  (personalidade trabalhada também por um certo efeito de ficcionalização), mas sobretudo porque os seus romances e as personagens que o povoam convidam a movimentos de emulação, estimulados pela sedutora atmosfera social e cultural que os caracteriza: de certa forma, apetece imitar os  gestos e as  tiradas das personagens de Eça e recriar ementas e indumentárias, quando a leitura dos romances não pretende (ou não consegue) passar desse nível de reação.

  (extrato de C. Reis, “Leitores brasileiros de Eça de Queirós: algumas reflexões”, in Ecos do Brasil: Eça de Queirós, leituras brasileiras e portuguesas. Org. de Benjamin Abdala Júnior. 2ª ed. rev. e ampliada. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2019, pp. 32-34).

 

 

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