Eça jornalista

Acaba de ser publicado pela Imprensa Nacional o 18º volume da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós. Com o título Textos de Imprensa II (do Distrito de Évora) e editado por Ana Teresa Peixinho, o referido volume, com uma extensão de 993 páginas, insere-se na secção que acolhe os textos de imprensa publicados pelo romancista ao longo da vida. Tal como acontecia com quase todos os escritores do seu tempo, Eça deixou vasta colaboração espalhada por jornais e por revistas; era essa uma forma não apenas de marcar presença no espaço público – nele, o “homem de letras” tinha uma voz autorizada –, mas também de receber proventos que completavam aqueles que, nem sempre de forma regular, vinham da atividade literária propriamente dita.

A isto junta-se uma outra razão mais significativa, para explicar a prolixidade jornalística de Eça. Para o romancista, os textos de imprensa (e em especial as crónicas) funcionavam muitas vezes como um laboratório de escrita: observar a realidade e os seus tipos humanos, construir relatos, mesmo que de curta dimensão, ou esboçar personagens e enredos eram procedimentos de experimentação literária que faziam todo o sentido, numa época em que jornalismo e literatura se conjugavam harmoniosamente.

A experiência jornalística de Eça de Queirós no Distrito de Évora é um exemplo expressivo do que fica dito, mas não se limita a isso. Conforme pode ler-se na circunstanciada introdução desta edição, está em causa, naquela experiência, uma verdadeira aventura pessoal, com importantes consequências formativas, que importa sublinhar: um jovem com menos de 22 anos, recém-formado e inexperiente, assume não apenas a escrita, mas também a direção e a edição de um bissemanário, ao longo de sete meses. Fá-lo numa pequena cidade de província, afastada, por isso, dos centros de decisão política e de produção cultural, com todas as dificuldades que isso implicava para o jornalista de circunstância que assumira um tal encargo.

Por isso mesmo, estes textos não podem ser ignorados, sendo testemunhos ilustrativos do amadurecimento literário de quem viria a ser o maior romancista português de sempre. A presente edição crítica retoma e procura completar o trabalho de recuperação de um acervo jornalístico aqui  enquadrado pelos componentes que usualmente estruturam estas edições. Assim, além da extensa introdução preparada por Ana Teresa Peixinho, encontram-se neste volume três apêndices e notas biobibliográficas.

 

 

Gonçalo Mendes Ramires

Gonçalo M. Ramires por Tomás de Mello

Personagem central do romance semipóstumo de Eça de Queirós, A ilustre casa de Ramires (1900). Para além de ser conhecido pelo nome próprio, Gonçalo é designado também, “naquela sua velha aldeia de Santa Ireneia, e na vila vizinha, a asseada e vistosa Vila Clara, e mesmo na cidade, em Oliveira, (…) [como] «Fidalgo da Torre»” (Queirós, 1999: 73). Remete-se, deste modo, logo no incipit, para um determinado espaço e para uma condição social confirmada na caracterização inicial.

Nela, o discurso do narrador começa por atentar na personagem, mas desloca-se de imediato para dois campos que lhe estão associados: a família e a História em que ela se inscreve. Assim, “Gonçalo Mendes Ramires (como confessava esse severo genealogista, o morgado de Cidadelhe) era certamente o mais genuíno e antigo fidalgo de Portugal” (74). Logo depois, recorre-se a um dispositivo de figuração usual na ficção queirosiana, a analepse: “Raras famílias, mesmo coevas, poderiam traçar a sua ascendência, por linha varonil e sempre pura, até aos vagos senhores que entre Douro e Minho mantinham castelo e terra murada, quando os barões francos desceram, com pendão e caldeira, na hoste do Borguinhão” (74).

Depois disto, o narrador centra-se na família e descreve os feitos dos Ramires, “em cada lance forte da História de Portugal” (74), particularizando quatro etapas históricas: a da independência e consolidação do Reino, a da expansão, a dos Filipes e a da Restauração, com os Braganças, quando se anuncia a decadência: “Já, porém, como a nação, degenera a nobre raça…” (76). Por fim, chega-se ao protagonista: “Gonçalo, esse, era bacharel formado com um R no terceiro ano” (77).

A partir daqui, a personagem é configurada em função de comportamentos. Nessa “figuração poliédrica”, “é através do que Gonçalo vê, faz, diz, pensa e até sonha que vai ganhando um vulto ficcional onde o riso, mas também a complacência e até a ternura, estão muito presentes” (Monteiro, 2014: 24). Outros traços de caracterização: a ociosidade e a inércia, uma certa debilidade anímica, em contraste com os Ramires do passado, o apelo da temática histórica, traduzido na composição de um conto com “final choroso” (78), a abulia cortada por assomos de generosidade e de chamamento para a escrita.

(extrato de “Gonçalo Mendes Ramires” em Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesacontinuar a ler)

Gonçalo Mendes Ramires por Bernardo Marques

Carlos Fradique Mendes

Figura composta por Eça de Queirós a partir de 1885, Carlos Fradique Mendes não constitui uma convencional personagem de romance, mas uma entidade de conformação pré-heteronímica (cf. Reis, 1999). Designado n’A correspondência de Fradique Mendes (1900) como Fradique Mendes ou, mais familiarmente, Fradique, a sua personalidade ajusta-se, com alguns traços de caricatura, à imagem do dândi finissecular e viajante compulsivo, de cultura eclética e dispersa; além disso, Fradique Mendes é um escritor em projeto, destinado ao silêncio literário, com exceção de alguns poemas de juventude. Tal não impede que se vá desenvolvendo, à luz daquela dispersão, um pensamento a que se tem chamado fradiquismo. (…)

C. Fradique Mendes por António

Algumas linhas de força do pensamento fradiquista: a apologia da autenticidade, contra a descaracterização da sociedade portuguesa produto do liberalismo de importação francesa; a crítica da civilização e dos seus excessos, em particular quando ela invade cenários naturais, míticos e bíblicos; a notação das rotinas da vida portuguesa e dos seus tipos (o político do constitucionalismo, o brasileiro de torna-viagem, o sacerdote-amanuense); a menorização dos estadistas contemporâneos e das suas contingentes fragilidades; a visão anti-idealista das práticas religiosas, reduzidas a um “conjunto de Ritos através dos quais cada povo procura estabelecer uma comunicação íntima com o seu Deus e obter dele favores” (217).

Como epistológrafo singular e pensador com laivos de provocação, Fradique autonomiza-se, nos planos ideológico, cultural e estético. Essa autonomização processa-se em movimentos de aproximação e de afastamento em relação a Eça, como fica evidenciado pelo facto de o escritor ter transformado algumas crónicas que assinou em cartas de Fradique Mendes. Por isso e ainda porque a estilística fradiquista é muito semelhante à de Eça (mas com acentuação do regime da ironia e do paradoxo), Fradique Mendes já não é uma personagem, como algumas que dele estão próximas (Carlos da Maia ou Jacinto); mas ainda não é, em plena afirmação heteronímica, um autor literário com identidade e com estilo totalmente outros em relação a quem o concebeu.

A autonomia de Fradique Mendes tem favorecido derivas transficcionais que transmutam em personagem ficcional a figura construída por Eça. Incluem-se nessas derivas novas incursões epistolográficas, bem como descendentes e herdeiros de Fradique Mendes. Mencionem-se, como cultores deste legado, Frederico Perry Vidal (O único filho de Fradique Mendes, 1950), José António Marcos (O enigma das cartas inéditas de Eça de Queirós, 1996), José Eduardo Agualusa (Nação crioula, 1997), Fernando Venâncio (Os esquemas de Fradique, 1999) e José Pedro Fernandes (Autobiografia de Carlos Fradique Mendes, 2002) (cf. Oliveira, 2004; Neto, 2007-9). Noutro registo, o médico e jornalista carioca José Madeira de Freitas adotou o pseudónimo Mendes Fradique, com o qual assinou várias obras, dentre elas uma História do Brasil pelo método confuso (1922) (cf. Lustosa, 2004). Recentemente, surgiram várias cartas apócrifas de Fradique Mendes.

(C. Reis, “Carlos Fradique Mendes”, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; ler na totalidade aqui)

A Ilustre Casa de Ramires online

A Imprensa Nacional, no contexto dos novos desafios que se colocam ao país e ao mundo por estes dias, tomou a iniciativa de disponibilizar os seus conteúdos digitais, nomeadamente títulos da coleção Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa (BFLP).

A Ilustre Casa de Ramires incide sobre um tema que muitas vezes seduziu Eça de Queirós: o tema da História. Representado como autor de uma novela histórica, Gonçalo Mendes Ramires protagoniza uma reflexão sobre a escrita literária, sobre o passado da sua antiquíssima família (que é também o passado histórico de Portugal) e sobre os termos em que no presente é vivido esse legado. A par disso, A Ilustre Casa de Ramires traduz ainda uma conceção da literatura como fator de análise crítica dos costumes, na linha de uma propensão realista que se mantém ativa no Eça do fim do século (ver aqui e aqui). 

 

Eça naturalista

Surgindo normalmente associados, tanto em abordagens teóricas, como em debates doutrinários e em análises críticas, o Realismo e o Naturalismo são, de facto, correntes estéticas que podem ser caracterizadas em separado. Isto, claro está, sem pormos em causa as estreitas relações que entre ambos existem e que hoje, com o distanciamento e com os instrumentos metodológicos de que dispomos, se tornam mais claras do que na época. Certamente por isso, não poucos escritores e críticos oitocentistas designaram muitas vezes como Realismo o que, de facto, era naturalista, sendo a inversa menos frequente. Por outro lado, sabendo-se que, nos alicerces epistemológicos e estéticos do Naturalismo, está uma componente realista, torna-se compreensível que tenham ocorrido (e eventualmente ocorram ainda) deslizamentos conceptuais como os que ficaram referidos.

O responsável por este volume assenta uma parte importante da investigação que levou a cabo no trânsito que, há já alguns anos, empreendeu pelas paragens que nestas páginas revisita, para nosso benefício. Com efeito, António Apolinário Lourenço é autor de um valioso estudo (que foi a sua tese de doutoramento) intitulado Eça de Queirós e o Naturalismo na Península Ibérica, publicado em 2006. Essa circunstanciada e muito aprofundada aproximação à receção e à difusão da literatura naturalista queirosiana e ibérica tem, evidentemente, um alcance mais amplo do que este livro; todavia, o que aqui se encontra completa e documenta, em vários aspetos, o estudo referido, muitas vezes através de textos de difícil acesso.

Para aquilo que neste momento importa realçar, é necessário dizer que a edição dos textos que adiante podemos ler provém de um extenso e competente trabalho de levantamento e contextualização do Naturalismo, da sua implantação em Portugal e ainda dos avanços e dos recuos que essa implantação conheceu. Por isso, a designação da introdução como Naturalismo português: síntese histórica peca por modesta; com efeito, António Apolinário Lourenço alarga-se pela ponderação da já mencionada relação de autonomia entre Realismo e Naturalismo, pelas origens e pelas primeiras manifestações do Naturalismo português, pelo importante contributo francês para a expansão e maturação do romance naturalista e ainda pelo lugar correlativo que em Portugal foi ocupado pelos dois Queirós – Eça e Teixeira de Queirós –, ou seja, por aqueles que de forma mais expressiva interpretaram aquilo que chegou a ser uma literatura com foros de escândalo moral.

(extrato da “Apresentação” a António Apolinário Lourenço, Eça Naturalista. O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio na Imprensa Coeva. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2019).

 

Dançar Eça: O Primo Basílio em bailado

1. Num texto escrito para a folha de sala, na estreia absoluta do bailado em dois atos O Primo Basílio (Braga, Theatro Circo, 11 de janeiro), José Sasportes declara, a abrir: “Na arte de compor bailados abrem-se avenidas várias, segundo as escolhas dos coreógrafos, e uma dessas vias é o bailado narrativo, em que a dança se atribui a tarefa de contar histórias partindo de palavras antes escritas. Estrada difícil de calcorrear pois à dança faltam seja a precisão sejam as nuances que as palavras escondem. Vice-versa, o que os corpos dançantes escrevem dificilmente é traduzível em palavras”. E contudo, acrescenta Sasportes, “a história da dança teatral do século XVIII até hoje pode ser contada através dos romances, traduzindo com maior ou menor clareza quanto o texto já transmitia anteriormente”.

A citação é longa, mas representa bem o que penso acerca do potencial narrativo de práticas artísticas que não a literatura de ficção narrativa, neste caso, a dança. Nas palavras que citei nada existe, note-se, que sugira aquilo que hoje está arredado das reflexões sobre a questão da adaptação, enquanto processo de transposição intermediática: o estabelecimento de hierarquias, de prioridades ou de precedências entre discursos artísticos, levando a pensar que uma adaptação de alguma forma “degradaria” o texto adaptado. A adaptação situa-se no âmbito da intermedialidade, da interação entre discursos de media autónomos e das relações funcionais entre diversas linguagens, em diferentes suportes e contextos comunicativos; quando encarada no cenário das linguagens artísticas, a problemática da adaptação liga-se aos estudos interartísticos, aquém de preconceitos quanto à suposta superioridade de certas artes em relação a outras.

2. Dito isto (e isto, note-se, está apoiado em vasto debate e em abundante bibliografia, particularmente no campo dos estudos narrativos), acrescento o que agora mais me interessa sublinhar: a importância e a qualidade da adaptação d’O Primo Basílio, num bailado do grupo “Dança em Diálogos”, com direção artística de Solange Melo e Fernando Duarte. Conforme pode ler-se no website (que vale a pena consultar) de “Dança em Diálogos”, o objetivo primeiro deste projeto é “contribuir para a pluralidade de apresentação de espetáculos de dança em todo o território nacional. Inserida num ambiente que procura responder aos desafios da arte contemporânea, [“Dança em Diálogos”] desenvolve uma plataforma de criação coreográfica que procura uma articulação profunda entre a dança e as diversas expressões artísticas, assim como entre as múltiplas linguagens que a compõem, aprofundando simultaneamente a relação com o público e as diferentes comunidades que o integram” (em https://ddialogos.com/).

O resultado exibido em O Primo Basílio. Bailado em II atos baseado na obra homónima demonstra expressivamente que estes propósitos foram amplamente atingidos. O facto de isto ser afirmado por quem, obviamente, não é especialista em dança nem crítico de bailado não retira significado ao que deixo escrito, antes de certa forma acentua a pertinência da proposta que aqui está em causa: ela reúne atributos capazes de fazerem chegar a dança a um público mais amplo do que aquele que, em registo especializado, se interessa por ela, ao mesmo tempo que amplia e aprofunda o legado cultural da obra queirosiana.

3. A obra de Eça de Queirós é talvez a que, na nossa história literária, mais vezes e em mais linguagens e contextos mediáticos motivou adaptações. No teatro, no cinema, na banda desenhada, na rádio e na televisão, desde o século XIX (e portanto, ainda em vida do escritor) até aos nossos dias, em Portugal e no estrangeiro, os relatos e as personagens de Eça têm sido objeto de transposições que, com resultados desiguais, prolongam o riquíssimo universo literário queirosiano muito para além das páginas dos seus livros. A iconografia acompanha este movimento, de tal modo que hoje é possível (e de certa forma justificável) relermos a descrição, por exemplo, do conselheiro Acácio em diálogo interartístico com as interpretações de Alberto de Sousa, de Bernardo Marques ou de António, entre muitos outros. Tudo isto sem esquecer, é claro, a pintura de Paula Rego e a atenção que tem dado a textos de Eça, com destaque para O Primo Basílio.

Ao escolherem O Primo Basílio como base de referência para um bailado em dois atos, Solange Melo e Fernando Duarte aceitaram um desafio arriscado, mas certamente sedutor. Em primeiro lugar, trata-se de um dos romances mais conhecidos de Eça, tendo dado lugar, desde a sua publicação em 1878, a incontáveis e por vezes desencontradas interpretações. Em segundo lugar, tal como acontece com outros relatos queirosianos, a história d’O Primo Basílio projeta-se sobre um fundo social formado por personagens com escassa intervenção na intriga, mas extremamente sugestivas (Eça sinalizou isso mesmo, na conhecida carta a Teófilo Braga, de 12 de março de 1878); o já mencionado conselheiro Acácio é, por certo, o caso mais flagrante da capacidade de uma figura ficcional para transcender a narrativa que lhe deu vida. Em terceiro lugar, O Primo Basílio encerra não uma, mas duas intrigas que se sucedem no romance: a que está centrada no adultério de Luísa, com coloração bovarista, e a que decorre dela, concretizada na chantagem exercida por Juliana.

Com razão, a versão coreografada por Fernando Duarte fixou-se nestas duas intrigas que surgem, como no romance, em sequência e por aquela razão que Machado de Assis apontou na sua famosa crítica a O Primo Basílio: sem a chantagem, a adúltera ficaria impune. O bailado convoca, então, seis personagens: Luísa (Solange Melo), Basílio (Fernando Duarte), Juliana (Cristina Maciel), Jorge (Filipe Portugal, no espetáculo de estreia), Leopoldina (Carlota Rodrigues) e Sebastião (Pedro António Carvalho). Deixando de lado eventuais limitações de produção, esta opção induz uma concentração narrativa que é, a meu ver, uma das qualidades deste trabalho e um argumento importante para o seu êxito.

4. Importa observar o seguinte: a coreografia composta para O Primo Basílio soube escolher os momentos exatos da intriga (aquilo a que outrora se chamava funções cardinais), para representar, nos movimentos da dança, o drama de Luísa. A partida de Jorge, a chegada de Basílio, a troca e o extravio de cartas, o roubo destas por Juliana e assim por diante, até à morte de Luísa são momentos decisivos de uma intensa ação dramática cujo resultado artístico, nesta adaptação, pode sintetizar-se assim: sem subverter a ação do romance, nem os seus sentidos dominantes (o impulso bovarista de Luísa, o cinismo donjuanesco de Basílio ou a perversidade socialmente motivada de Juliana), o bailado assume uma autonomia que respeita e potencia as lógicas e os protocolos formais da dança teatral.

Para além disso, a sobrevida de Luísa e Basílio, de Juliana e Jorge, de Leopoldina e Sebastião, no bailado que os seus corpos desenham, traduz uma outra e bem legítima leitura Eça de Queirós; uma visão não conservadora da literatura e das adaptações a que ela dá lugar só pode congratular-se com esta proposta artística. E assim, O Primo Basílio, romance que tem conhecido múltiplas e inesgotáveis interpretações, surge-nos como sendo ainda o mesmo e contudo já outro.

Para isso contribuem outros componentes a que os especialistas, melhor do que eu, darão o adequado valor: a música de Luís de Freitas Branco e Fernando Lopes-Graça, os figurinos de José António Tenente (destaco as impressivas configurações de Juliana e de Leopoldina), a iluminação (de VP) e a cenografia de Pedro Crisóstomo. No que a esta última diz respeito, merece realce a admirável (e também sóbria) conceção de uma cena dominada por seis portas moventes: são elas que insinuam os tão relevantes sentidos, no mundo burguês de Luísa e Jorge, do interior e do exterior, do público e do privado, do secreto e do que é revelado, por olhares e por gestos das personagens.

5. Numa entrevista recente a este jornal (nº 1285), Fernando Duarte, referindo-se a esta adaptação, mas também a Murmúrios de Pedro e Inês, afirmou: “A intenção é pegar no imenso potencial da identidade cultural portuguesa e criar qualquer coisa de novo”. Com O Primo Basílio foi isso mesmo que aconteceu; vale a pena, por isso, encontrar condições de exibição que permitam a um público alargado (incluindo, naturalmente, o escolar) assistir a esta notável realização artística.

(Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1287, de 29 de janeiro a 11 de fevereiro de 2020, pp. 14)

 

 

O Primo Basílio: bailado

Quando pensamos no que tem sido, ao longo dos tempos, a fortuna cultural da obra de Eça de Queirós, apercebemo-nos de que ela não se esgotou nas suas formas narrativas dominantes – o romance e o conto – e ultrapassou as fronteiras da literatura. No cinema, na televisão, no teatro, na pintura ou na banda desenhada, a ficção queirosiana tem enfrentado desafios colocados por outras linguagens e por outros contextos comunicativos. E, desse modo, chegou a outros públicos, interpelados por um Eça reelaborado noutras práticas artísticas, nas quais sempre subsiste muito do genial escritor. As personagens, os temas, os espaços, a visão do mundo e sobretudo as histórias que nos fascinam são, de uma forma ou de outra, componentes fundamentais daquelas práticas artísticas, prolongando em registos multiformes o universo queirosiano.

Eça de Queirós chega agora à dança. Resulta este novo Eça da coragem e do talento de quem quis, através do movimento e da música, recriar o que n’O Primo Basílio podemos ler. Falo em coragem e insisto, porque é disso que se trata: prescindir das palavras e, desse modo, da linguagem verbal que originariamente contou a infeliz experiência amorosa de Luísa e a cínica sedução a que Basílio a sujeitou é ousado e é arriscado. Mas esse caminho deve ser percorrido, se quisermos que Eça continue vivo.

Não tenho dúvidas de que a sobrevida de Luísa e Basílio, de Juliana e Jorge, de Leopoldina e Sebastião, no bailado que os seus corpos desenham, traduz uma outra forma de reler Eça de Queirós. Uma visão não conservadora da literatura e das adaptações a que ela dá lugar só pode congratular-se com esta proposta artística. E assim, O Primo Basílio, romance que tem conhecido múltiplas e inesgotáveis interpretações, surge-nos, mais uma vez, sendo ainda o mesmo e contudo já outro.

Eça cronista

Esta antologia encontra-se dividida em quatro seções, que destacam aqueles países, afora Portugal, com que o escritor tinha especial ligação: uma é dedicada ao Brasil, por ser a maior ex-colônia portuguesa e o outro país onde Eça era muito lido, inclusive como jornalista; uma trata da Inglaterra e outra da França, países onde ele morou por muitos anos e que eram as duas grande democracias europeias da época; e finalmente uma seção mais geral intitulada mundo.

(Da apresentação a Eça de Queiroz, Ecos do Mundo. Organização e apresentação: Rodrigo Lacerda. São Paulo: Carambaia, 2019, p. 11).

Sobre a historicidade na ficção queirosiana

No início do capítulo XI d’O Crime do Padre Amaro, lemos o seguinte: “Daí a dias, os frequentadores da botica, na Praça, viram com espanto o padre Natário e o dr. Godinho conversando em harmonia, à porta da loja de ferragens do Guedes. O recebedor, – que era escutado com deferência em questões de política estrangeira – observou-os com atenção através da porta vidrada da farmácia, e declarou com um tom profundo «que não se admiraria mais se visse Vítor Manuel e Pio IX passearem de braço dado!»”.

Numa pequena cidade de Portugal e no decurso de uma ação que transcorre na segunda metade do século XIX, duas personagens anteriormente caracterizadas são associadas a duas figuras históricas e a episódios por elas protagonizados. Deste modo, entram na cena da ficção queirosiana o rei da Itália em processo de reunificação e o pontífice que tenazmente se lhe opôs; é a esse conflito que aqui se alude, como que em projeção microscópica, quando os “frequentadores da botica” se dão conta da aparente e inesperada reconciliação de duas personagens até então em relação conflituosa.

Não basta aquela alusão para dizermos, d’O Crime do Padre Amaro, que é um romance histórico. Como se sabe, o que este subgénero implica, a partir da sua formação no contexto do romantismo europeu, é a coexistência reiterada e semanticamente consequente, “num mesmo universo diegético, de eventos e de personagens históricas e de eventos e de personagens inventadas” (Albert W. Halsall, L’art de convaincre : le récit pragmatique, rhétorique, idéologie, propagande. Toronto : Paratexte, 1978, p. 271). Essa coexistência suscita efeitos estruturais, semânticos e pragmáticos importantes, designadamente quando está em causa uma visão idealizada, por vezes até de teor restauracionista, do passado e, em particular, do passado medieval.

Não é disso, obviamente, que aqui se trata, quando são referidas figuras históricas trazidas à conversa provinciana dos fregueses de uma farmácia leiriense. E contudo, deduz-se daquela presença um óbvio efeito irónico e caricatural, atingindo alguém (um modesto funcionário da Fazenda Pública) “que era escutado com deferência em questões de política estrangeira”. Para mais, Vítor Manuel e Pio IX comportam significados históricos, políticos e ideológicos de atualidade, disseminando num romance naturalista uma historicidade que, no caso, o vincula ao tempo presente em que ele está implantado. O que, recorde-se, muito bem sintonizava com a doutrina e com a prática do naturalismo e da sua fixação nos fenómenos de uma atualidade degradada que importava reformar.

Este afloramento da historicidade num romance naturalista não se confunde com um outro tipo de presença da História na ficção, que Eça também cultivou. O caso mais conhecido dessa presença, num tempo literário que dista duas décadas d’O Crime do Padre Amaro, é o d’A Ilustre Casa de Ramires, traduzindo como que uma cedência do chamado último Eça àquilo a que ele mesmo chamou “o latente e culpado apetite do romance histórico” (carta ao conde de Ficalho, in Correspondência. Lisboa: Caminho, 2008, vol. I, p. 370). Cedendo àquele apetite, Eça problematiza, no plano ficcional e no plano metaficcional, as relações entre História e ficção e as implicações ideológicas resultantes da sua aproximação ao romance histórico, em contexto finissecular e no ambiente político que se seguiu ao Ultimato britânico de 1890; esta é uma matéria já amplamente estudada e que, para além disso, sempre pode ser ilustrada com sugestivas reflexões do escritor, em cartas em que ele se debruça sobre a questão da História.

(“‘Entre os parágrafos mortos da História’. Sobra a historicidade na ficção queirosiana”, in Revista de Estudos Literários 9, 2019, 85-113). (Artigo completo)

Os Maias na Univ. Federal do Ceará (2)

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