A falência da palavra realista

As datas com que usualmente balizamos os acontecimentos da historia literária revestem-se da convencionalidade relativa que é bem conhecida. E contudo, não parece excessivo tentarmos surpreender nelas algum significado, tanto do ponto de vista heurístico, como no que toca à configuração de uma história literária dinâmica. Comecemos, então, por aquilo que está à vista.

Uma das obras de referência para o estudo do modernismo europeu é consabidamente o livro de M. Bradbury e J. McFarlane (eds.), Modernism. A Guide to European Literature: 1890-1930 (London: Penguin Books, 1991); logo no seu título pode observar-se a indicação de 1890 como ano de referência, quando está em causa a determinação fundacional do modernismo europeu, ressalvando-se aqui, como é evidente e importa fazer, o que há de convencional naquela data. A necessidade de relativizarmos a marcação temporal estabelecida pela data confirma-se, por comparação, porque, diferentemente da obra mencionada, 0 livro de F.R. Karl, Modern and Modernism. The Sovereignty of the Artist 1885-1925 (New York: Atheneum, 1988) recua um lustro, quando trata de assinalar os termos de partida e de chegada do modernismo.

Atentemos, pois, nas datas, sem hipertrofia do que valem, mas também sem receio de lermos nelas sinais e tendências daquilo que a cronologia pura e dura só por si não revela e sempre tendo em atenção o ano adotado como marco inicial das relações literárias e artísticas entre Portugal e Espanha que aqui estão em causa. Aquele ano de 1890 foi traumático, sabemo-lo bem, na história portuguesa, quando a crise da monarquia se acentuou por força do Ultimato britânico que tanta indignação desatou em Portugal; indignação e também alguma lúcida reflexão, por exemplo pela pena de um Eça já quase plenamente curado de alguns excessos realistas e capaz de reconhecer, lá do seu «exílio» parisiense, que aquele intolerável ato de violência politica não tinha justificação, mas sim explicações que apontavam para a triste e finissecular decadência portuguesa. Muitas coisas iam mudar e Eça bem o suspeitava.

(in “A falência da palavra realista: antes do modernismo”, in Suroeste 1 . Relaciones literárias y artísticas entre Portugal y España (1890-1936). Badajoz: MEIAC, 2010, pp. 95-105. Versão integral aqui)

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Eça e o motivo do regresso

               Quando aludo ao legado clássico em Eça, não ignoro nem omito que, de um ponto de vista formativo, não é essa a sua matriz dominante, mas antes a francesa, conforme o próprio escritor reconheceu, nos poucos textos autobiográficos que deixou: concretamente, em “0 ‘Francesismo'” (provavelmente de 1886 ou 87) e “Um Génio que era um Santo” (1896). Por outro lado e continuando, por alguns momentos mais, em clave biográfica, parece evidente que os motivos profissionais que fizeram de Eça, por quase toda a vida, um “exilado” por vontade própria concorreram certamente para o destaque que no seu imaginário pessoal ocupam temas e atitudes que importa aqui ter em conta: o tema do exílio (ainda que, repito, por escolha própria), a vivência da saudade e o culto da distância como critério de análise crítica. Tudo isso e ainda o regresso, interpretado como motivo de reencontro com a pátria ausente e, de novo, oportunidade para ponderação crítica, por confronto com o estrangeiro em que Eça viveu quase toda a sua vida adulta.

(“Eça de Queirós e o motivo do regresso”; artigo integral)

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Os Maias em entrevista

A entrevista com o Prof. Carlos Reis deu-se na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em 11 de junho de 2014, no âmbito das atividades realizadas no primeiro semestre, quando atuou como professor-visitante, bolsa Escola de Altos Estudos (CAPES).

Entrevistaram-no alunos da turma de formandos em Português-Literaturas em Língua Portuguesa do turno da manhã, na disciplina Literatura Portuguesa VI, curso monográfico sobre o romance Os Maias (1888). Ao longo das quinze perguntas e respostas, que compõem esta entrevista sobre Os Maias, são abordados assuntos como: a importância do contexto histórico, dos protocolos de descrição e da multiplicidade de perspetivas adotadas pelo narrador; a função dos retratos na construção das personagens; o anticlericalismo de Eça de Queirós; as personagens femininas do romance; a versão para a televisão brasileira; os problemas das edições disponíveis e a necessidade de uma edição crítica (já em curso); os dois modelos de educação, que se contrapõem no romance; a sua longa gestação e a relação com as obras que foram publicadas durante o tempo em que foi escrito; a fratura do sujeito em Carlos da Maia; as semelhanças entre este personagem e outro Carlos queirosiano, o da  Correspondência de  Fradique  Mendes;  e,  por  fim,  os  sentidos  da  exploração  de  aspectos  linguísticos na construção do personagem brasileiro, bem como as contradições resultantes  desse processo.

Ler a entrevista aqui.

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Prova tipográfica d’Os Maias emendada por Eça

 

Educação literária: Os Maias

O trabalho que agora se publica tem um propósito definido e visa destinatários específicos.  O propósito: motivar e auxiliar a leitura d’Os Maias (e não substituí-la), naqueles aspetos em que isso é possível. Os destinatários: os alunos de Português do 11º ano do Ensino Secundário, em cujo programa aquele grande romance de Eça de Queirós aparece  como uma das obras de leitura integral.

É  sabido que a primeira dificuldade com que nos defrontamos, quando temos de  ler Os Maias, é a sua extensão. Trata-se, de facto, de um relato longo, trazendo até nós muitas personagens, diversos espaços, descrições pormenorizadas, expressões que, nalguns casos, podem não ser muito acessíveis. Para além disso, os costumes e os comportamentos do século XIX em que se passa a ação d’Os Maias estão já distantes de nós, embora não tanto como no caso de outros textos e autores de séculos anteriores, também do programa de Português.

E contudo, vale a pena tentarmos perceber em que medida alguns dos principais sentidos que encontramos n’Os Maias são capazes de nos alertar para temas e para problemas do nosso tempo. Por exemplo: a questão da educação e os seus reflexos na formação da pessoa adulta, a ilusão dos projetos concebidos e a desilusão causada pelo seu falhanço, os limites da nossa capacidade para decidirmos o nosso destino, a passagem do tempo e os seus efeitos, a importância que certos espaços têm nas nossas vidas, etc. A  atualidade de Eça e d’Os Maias percebe-se também quando observamos, no nosso tempo, comportamentos e figuras semelhantes ao que ali se nos depara: a ostentação, a mediocridade mal disfarçada, o culto das aparências, a vaidade, a ambição e as fraquezas do poder político, a ociosidade e os seus efeitos, a prática e os vícios do jornalismo, etc. É sobretudo nas personagens  que aquela atualidade se torna flagrante; por essa  razão,  a galeria dos tipos que povoam o romance pode ser considerada das mais ricas da nossa literatura.  (…)

Por fim, um desafio: mesmo quem acha que Os Maias são um relato não apenas longo, mas também lento e maçador (é mesmo verdade:  a descrição do Ramalhete é extensa…) deve fazer um esforço para ler o romance. Um esforço, repete-se. Como é bem sabido, sem isso não conseguimos resolver problemas difíceis, entender fenómenos históricos complexos ou  movimentos filosóficos de agora e de outras épocas. O mesmo  acontece com a leitura d’Os Maias. O que não parece certo é desistir antes de começar ou dizer que se não gosta daquilo que nem sequer se tentou conhecer, sobretudo quando a obra que aqui está em causa  revela o talento de escrita, a perspicácia crítica, a ironia e por vezes o humor de um grande escritor chamado Eça de Queirós.

(Extrato de “Nota Prévia” a Os Maias. Eça de Queirós. Coleção “Educação Literária. Leituras Orientadas”. Porto: Porto Editora, 2016, pp. 6-8).

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Carta ao Ministro da Educação

Ao Senhor Ministro Tiago Brandão Rodrigues

 Paris, rue de Varennes, fins de maio

Perdoará, Senhor Ministro, que eu lhe escreva esta carta tão urgente como inesperada, uma vez que nos não  conhecemos e certamente nunca nos cruzaremos na vida breve a que estamos condenados. Faço-o, contudo, a instâncias de um amigo que, de passagem por Portugal, teve notícia de factos  que a imprensa internacional tem noticiado, com justificado espanto e preocupação.

O caso é que este meu amigo, sempre zeloso do Bem Público e do sossego das famílias, se Retrato_oficial_Tiago_Brandão_Rodriguesapercebeu de que medidas que o Senhor Ministro ultimamente tem tomado fazem perigar a serenidade de jovens estudantes que, até agora, confiavam na sensatez e sobretudo na magnanimidade dos poderes públicos do meu distante país.  Aqui onde me encontro, tenho dificuldade em perceber exatamente o que se passa, quanto à arrastada querela do financiamento público do ensino privado; por isso, peço-lhe desde já, Senhor Ministro, que releve aquilo que nesta bem intencionada carta não aderir à “realidade real das coisas” de que falava a saudosa figura cujo nome me dispenso de mencionar,  tão conhecida é ela.

Segundo aquele meu amigo, o ministério em cuja cadeira o Senhor Ministro tem o assento mais confortável está a condenar à negra miséria dos proscritos alguns milhares (garante-me o meu confidente) de crianças e de adolescentes dessa terra portuguesa que ambos desveladamente amamos. E porquê? Porque os dinheiros públicos que têm alimentado algum do ensino privado português  são agora avaramente regateados pelo poder político. Ao que parece, até agora esses dinheiros  estavam seguros e engavetados, como dádiva  generosa de governantes que, precedendo o Senhor Ministro, haviam entendido que o Estado deveria  encaminhar para o ensino privado uma parte importante dos cabedais que os contribuintes lhe confiam.  Na opinião de alguns dos meus compatriotas, certa e avisada era essa drenagem dos nossos dinheiros, pois que no ensino público campeavam (e campeiam!) um tal desmazelo e uma tal imoralidade, que só mesmo com medidas extremas seria possível resguardar o tal sossego que a todos preocupa, mas a que só alguns têm acesso.

Carlos Fradique Mendes por António

C. Fradique Mendes, por António

Talvez o Senhor Ministro pense que, ao falar em proscritos da Educação, estou a exagerar. É possível. A verdade, porém, é que as imagens que aquele meu amigo me transmitiu são inquietantes, reforçadas como estão por testemunhos de progenitores cuja aflição não invejo, mas respeito. Segundo esses testemunhos, por causa da azeda maldade do Senhor Ministro muitas crianças serão obrigadas a abandonar o ninho escolar onde têm sido acarinhadas e ficarão, enfrentando chuvas inclementes e ventos gélidos, desprovidas de ensino, para todo o sempre. Remetidos ao mais cruel abandono, estes inocentes rebentos serão, ao que parece, privados da aprendizagem de elementares operações de aritmética, da leitura dos nossos mais maviosos poetas, do conhecimento das leis da Física e do exercício mental a que os sinuosos raciocínios da Lógica nos convidam.

Dirá o Senhor Ministro que não é bem assim e que a muitos desses deserdados bastará atravessarem a rua ou percorrerem algumas centenas de metros para que tais mutilações sejam resolvidas. Ora isto é um engano e bem falaz! É que (e lamento ter de o lembrar) há diferenças flagrantes entre o colégio deste lado da rua e a escola pública que, do outro lado do asfalto, negreja. Nesta, há aulas, professores, alunos de várias etnias, diferentes condições sociais, variados níveis de desenvolvimento económico e até mesmo, quando calha, crianças a necessitarem de apoio especial. Uma série de maçadas, em suma! Pelo contrário, do lado de cá da rua há outra coisa: há projetos educativos.

E o que é um projeto educativo, perguntará o Senhor Ministro? Não sei bem, confesso-o com um embaraço que me envergonha. Suponho, contudo, que um projeto educativo corresponderá  ao propósito de ensinar bem, de formar jovens para a vida, de dedicar a atividade docente à nobre missão de fazer crescer os alunos que cada professor tem como seus. É isso exclusivo das tais escolas privadas?  Ignoro. Necessitam elas, para bem o realizarem, dos nossos preciosos dinheiros? Se assim for, que mal tem isso, Senhor Ministro?! Dir-se-á que na escola em frente se procura fazer o  mesmo, com alunos que não são escolhidos “a dedo” (com perdão pelo plebeísmo) e em condições de trabalho que os  dinheiros públicos pouco têm ajudado. Mas isso, Senhor Ministro, são pormenores a que só  espíritos malevolamente críticos dão atenção, sobretudo por ignorarem aquilo que uma sábia tia minha sempre dizia: que toda a vida haverá ricos e pobres! Máxima que, naturalmente, não me atrevo a transferir para esta penosa questão – mas que de vez em quando me faz pensar…

Os protestos a que esta disputa tem dado lugar não têm sido edificantes, mas não deixam de ser (passe a ironia) muito educativos. De tudo se tem visto, diz-me o tal  amigo que me dá conta destes sucessos – e com imagens! Nessas imagens predomina o amarelo, cor bem gritante e expressiva. Cor, todavia, cujo significado oculto tenho dificuldade em alcançar, quando a vejo associada àquelas instituições de ensino  que em Portugal se desenvolveram nos últimos anos como cogumelos em húmida terra  adubada pelo erário público. Diz-me um velho dicionário de símbolos que o amarelo é cor expansiva e quente, evocativa dos raios do sol e do poder das divindades do Além. Cor do ouro, também, e por isso lembrando episódios  como o da chuva dourada de que o engenhoso Zeus tomou a forma, quando quis fecundar a esquiva Danae. Terá sido nisso que pensaram os prosélitos da causa, quando escolheram o amarelo como  emblema para o seu combate? Não posso afirmá-lo com absoluta certeza.  Temo, contudo, que, na pressa com que os tais prosélitos escolheram as suas vestimentas, não tenham sido cogitadas variantes menos nobres do dourado ardil usado pelo pai dos deuses. Honni soit qui mal y pense!

Por fim – e sempre guiando-me pelos comentários do meu amigo e confidente –, parece que algumas mentes mesquinhas têm criticado o apoio que a Igreja Católica vem dando à cruzada em favor do ensino privado. Em vez de dar ouvidos a essas vozes roufenhas de azedume, o Senhor Ministro deveria pôr os olhos, com atenta concentração, em tal apoio. E indagar as suas causas. Tão natural é ele que, por não desejar  ofender  a sua cultura,  me dispenso, Senhor Ministro, de explicar a sua razão de ser. Lembrarei apenas isto:  como a História de sobra nos ensina (tanto em escolas públicas como em escolas privadas, suponho), sempre a Igreja Católica tem estado do “lado certo da vida”, expressão que há alguns anos aprendi, em conversa inesquecível com uma figura de impecável formação moral. Sabemo-lo pelo menos desde o século XVI, quando  começaram a ser justa e metodicamente perseguidos quantos se atreviam a dissentir de coisas tão óbvias como o movimento do Sol em torno da Terra.  Vimo-lo depois quando, mais tarde, um obscuro historiador ousou pôr em causa a verdade do milagre de Ourique. E fico-me por aqui, porque me escasseia o espaço e a ao Senhor Ministro, por certo, a paciência.

Não será o caso agora, mas isso não torna menos eloquente nem menos expressiva a palavra da nossa digna Conferência Episcopal. Foi ela que, ainda recentemente, veio lembrar o “direito constitucional da liberdade de ensino”, a isto acrescentando o seu severo apoio a iniciativas que “defendam a liberdade dos pais escolherem a escola e projetos educativos que desejam oferecer aos seus filhos”.

Permita-me que insista, Senhor Ministro: atente nestas ponderosas palavras e, apesar da juventude que para alguns é um seu defeito, perceberá qual o tal “lado certo da vida”. Um curto texto em que por duas vezes se fala em liberdade é certamente lúcido e avisado, vindo de quem vem. Mais: a preocupação com a lei constitucional que nele aflora não é menos, digamos, instrutiva, até por ser bem sabido que, nos últimos e difíceis anos que os portugueses têm vivido, sempre a Igreja Católica teve a dita lei debaixo de olho. Já a utilização do verbo “oferecer” pode levantar algumas dúvidas, pois que nem todos temos a argúcia exegética que é apanágio de qualquer eclesiástico encartado. E assim, uma leitura literal daquela traiçoeira palavra pode deitar a perder boas intenções que, acredito, até no Paraíso existem.

Certo de que estes sinceros e sentidos apelos não cairão no saco roto de uma indiferença jacobina, apresento-lhe, Senhor Ministro, os meus respeitosos e solidários cumprimentos.

 Carlos Fradique Mendes

 

 

 

A edição crítica como amor e júbilo

 

Preparar uma edição crítica é uma medida terapêutica contra a impaciência. Dá imensa saúde e contribui para o aperfeiçoamento espiritual do editor. Uma edição crítica é um exercício de higiene mental, de humildade e de busca de rigor; é uma disciplina exigente, mas é também um caminho de amor e de júbilo. Não há realmente talvez, senão no amor, sentimento equivalente ao vínculo de intimidade possessiva que se estabelece entre o editor e o texto que ele edita. Esse sentimento é sedimentado pela longa familiaridade do editor com os sistemas orgânicos de significação da obra, com os seus delicados mecanismos de implicação, mutação e ressonância. E esse sentimento também é potenciado pela noção da extrema fragilidade e imperiosa justeza das decisões sucessivamente tomadas pelo autor, que o editor tenta reconstituir e compreender. Como se também do editor dependesse, de algum modo, a perfeição e a felicidade daquele corpo textual que ele recompõe.

Fazer uma edição crítica completa a nossa educação. Não se sai igual, depois de fazer uma edição crítica. Sai-se melhor (eu precisarei ainda de fazer mais umas tantas). (…)

Desfibrando e degustando cada vírgula d’O Mistério da Estrada de Sintra, aprendi a acamaradar com gente tão notável como Luísa, condessa de W., esplêndida adúltera oitocentista, tão atípica e tão autocrítica que é impossível condená-la; com a impetuosa Carmen Puebla, espanhola (ou cubana) veemente, ainda sem a sordidez de outras Lolas ou Conchas queirosianas, arrebatada de paixão e de alguma considerável perversidade erótica; com o mascarado alto (de que nunca se saberá o nome), personagem secundária e narrador que profundamente molda a história e o mundo que evoca, com as suas poses e a sua bisbilhotice, a sua elegância romântica e os seus silêncios; ou com Captain Rytmel, desconcertante e suspeito como os mais impulsivos namorados, e tão esquivo, tão louro e sedutor quanto convém – e tão talhado para vítima. E Fradique Mendes, claro, ainda a traço grosso, ainda muito melómano, muito dândi, muito satânico e muito oracular no folhetim de 1870, evoluindo rapidamente para um perfil mais discreto e sofisticado no livro do mesmo ano, mas inconfundivelmente Fradique Mendes; Fradique que cresce com Eça, sempre como ele um esteta e um ironista – cúmplice, delator e intérprete das paixões dos outros e da beleza das coisas.

   Ana Luísa Vilela, apresentação da edição crítica d’O Mistério da Estrada de Sintra. Lisboa, 8 de março de 2016 (extratos).

 

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O Mistério da Estrada de Sintra: apresentação

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Fradique e Eça

Afinal de contas, quando nasceu Fradique Mendes? E, numa expressão  deliberadamente ambígua, como foi ele concebido?

Anos depois do affaire antropófago, ressurge Carlos Fradique Mendes. O mesmo? Vamos por partes, porque a “ressurreição” de Fradique tem várias facetas. As  cartas a Oliveira Martins vêm a ser os lugares privilegiados para o anúncio do renascimento de uma figura agora, apesar de tudo, mais séria. Digo desde já: o segundo Fradique Mendes, chamemos-lhe assim, está no caminho que leva aos heterónimos pessoanos e, antes deles, por coincidências apreciáveis, ao semi-heterónimo Bernardo Soares. Não são irmãos,  mas são da mesma família.

Vejamos os factos: em meados de 1885, Eça de Queirós propõe a Oliveira Martins a publicação de “uma série de cartas sobre toda a sorte de assuntos, desde a imortalidade da alma até ao preço do carvão, escritas por um certo grande homem que viveu aqui há tempos, depois do cerco de Troia e antes do de Paris, e que se chamava Fradique Mendes!” E acrescenta: “Não te lembras dele? Pergunta ao Antero. Ele conheceu-o”. Claro que sim:  foram cúmplices e  ambos eram açorianos. Ora este Fradique Mendes, “homem distinto, poeta, viajante, filósofo nas horas vagas, diletante, e voluptuoso (…) morreu”. Nada melhor, diz Eça a Oliveira Martins, para celebrar esta personalidade do que publicar-lhe a correspondência.

Em 1888, ano em que publica Os Maias, Eça de Queirós volta a escrever a Oliveira Martins, mas agora vai mais longe: não é possível “editar a correspondência de Fradique, sem a preceder de um estudo sobre esta singular personalidade”. Assim mesmo, “um estudo”. Aparentemente, Oliveira Martins não percebeu  o que aqui estava em causa e Eça teve de se explicar. Assim:  “A introdução a «Cartas que nunca foram escritas por um homem que nunca existiu, não podia deixar de ser uma composição em que se tentasse dar a esse homem, primeiramente, realidade, corpo, movimento, vida”. Repito: dar “realidade, corpo, movimento, vida” a um “homem que nunca existiu”.

É esta a certidão de nascimento literário de Carlos Fradique Mendes, datada de 12 de junho de 1888, como está na carta de Eça a Oliveira Martins. Exatamente: 12 de junho, véspera daquele 13 de junho do mesmo ano de 1888 em que nasceu uma criança depois batizada como Fernando António Nogueira Pessoa. E assim, por 24 horas apenas, Fradique antecipou-se a  Pessoa.

Fradique Mendes tem uma biografia, uma formação, uma poética e um pensamento próprios e  autónomos em relação a  quem o concebeu. Pelo tal “estudo”, sabemos que Fradique  nasceu na ilha Terceira, que “pertencia a uma velha e rica família dos Açores” e que ali foi criado por uma avó  extravagante. Dessa D. Angelina Fradique diz-se  que era uma “velha estouvada, erudita e exótica que colecionava aves empalhadas, traduzia Klopstock, e perpetuamente sofria dos «dardos de amor»”.  Depois de frequentar uma escola  chamada Terceirense e de receber uma “primeira educação (…) singularmente emaranhada”, aos dezasseis Carlos Fradique Mendes é despachado para Coimbra. Pelo critério de Dona Angelina, a Universidade de Coimbra era  “um nobre centro de estudos clássicos e o derradeiro refúgio das humanidades.” A verdade, segundo constava na ilha, era outra: “apesar dos sessenta anos que lhe revestiam a face de um pelo mais denso que a hera de uma ruína, [D. Angelina] decidira afastar o neto – para casar com o boleeiro.”

Em Coimbra, Carlos Fradique pouco estudou. “Tocou guitarra pelo Penedo da Saudade, encharcou-se de carrascão na tasca das Camelas, publicou na «Ideia» sonetos ascéticos, e amou desesperadamente a filha de um ferrador de Lorvão.” A seguir,  “foi para Paris estudar Direito nas cervejarias que cercam a Sorbona, à espera da maioridade que lhe devia trazer as heranças acumuladas do pai e da avó”.

O resto é mais ou menos conhecido: lançado no mundo, Fradique foi viajante e esteta, dândi e poeta reservado, aventureiro e putativo autor de prosas inéditas, companheiro de Garibaldi e confidente de Victor Hugo. Tudo isso e também amante de mulheres magníficas: da “gloriosa Ana de Léon, a mais culta e bela cortesã (Vidigal [o amigo e patrício de Fradique] dizia «o melhor bocado») do Segundo Império”; da misteriosa Madame Lobrinska,  legatária  dos seus papéis;  e, acima de todas elas, de Clara,  dona de uns  “olhos finos e lânguidos”, que a  Carlos Fradique Mendes mereceram a mais  admirável carta de amor que a língua portuguesa já conheceu.

Tudo isto sabemo-lo pela  introdução d’A Correspondência de Fradique Mendes, o tal “estudo” que é mais do que isso:  trata-se de uma biografia, bem documentada e bem atestada, para que dúvidas não fiquem acerca da existência (“realidade, corpo, movimento, vida”) desta figura. Quem nessa biografia nos fala é uma voz não identificada, que  só por distração poderíamos confundir Eça de Queirós. Trata-se, isso sim, de  alguém que muito bem conheceu Fradique Mendes  e que  o revela aos seus concidadãos,  pela publicação das cartas. “Nos tempos incertos e amargos que vão”, diz o biógrafo, “portugueses destes não podem ficar para sempre esquecidos, longe, sob a mudez de um mármore.” Assim é, de forma que bem podemos dizer que está nestas “Memórias e Notas” a substância de que se faz a recordação de um mestre. Como Alberto Caeiro o foi para Álvaro de Campos.

(“Conversa entre heterónimos”. “Tudo Língua”, Coimbra, 4.12.2015. Por ocasião do Congresso Internacional “Língua Portuguesa: uma Língua de Futuro”).

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 Foto de Frederico Batista, cedida pelo jornal Público

Dois Fradiques

Quem é este Carlos Fradique Mendes de quem  falamos a propósito da língua portuguesa? Cito palavras de Eça de Queirós, numa carta a Oliveira Martins: Fradique foi um “verdadeiro grande homem, pensador original, temperamento inclinado às ações fortes, alma requintada e sensível… Enfim, o diabo!” Chega isto para conhecermos esta espécie de heterónimo que depois reaparece noutra carta, escrita, como aquela, no ano mágico de 1888? Talvez não, até porque,  duas linhas antes, Eça dissera: “Fradique, no nosso tempo, era um pouco cómico”. Afinal, havia outro.

Para encontrar esse outro, recuo uns vinte anos e leio o que vem na Revolução de Setembro (jornal influente, já se sabe) de 29 de agosto de 1869: “Habitando Paris durante muitos anos, conheceu o Sr. Fradique Mendes pessoalmente a Carlos Beaudelaire [sic], Leconte de Lisle, Banville e a todos os poetas da nova geração francesa”. Um Fradique bem relacionado, como se vê e, aparentemente, afrancesado (mas quem o não era, nesses tempos?). Só que este Fradique ia mais longe. De novo a Revolução: “O seu espírito em parte cultivado por esta escola é entre nós o representante dos satanistas do norte, de Coppert, Van Hole,  Kitziz, e principalmente de Ulurus, o fantástico autor das Auroras do Mal”.

Eram  quase risíveis  alguns dos títulos que a Revolução de Setembro anunciava: A Guitarra de Satã, Boleros de Pã e Ideias Selvagens, “três vastas epopeias” garantidamente já prontas a ler; e nelas, poemas bizarramente intitulados “Os beijos no Calvário” e “O testamento do abutre”. Apetece dizer aquilo que  mais tarde será escrito: “Éramos assim absurdos em 1867!” O ano, já se disse, não era 1867, mas 1869 e a diferença não é inocente. Pouco importa, contudo, porque o espírito do absurdo e da paródia  estava lá e bem vivo. Quem o alimentava eram o jovem Eça, mais Antero de Quental e Jaime Batalha Reis. E  a mistificação deu frutos:  houve quem procurasse  os livros dos tais “satanistas do norte”. Debalde:  Coppert, Van Hole,  Kitziz e Ulurus apenas existiam na bem fértil imaginação  dos três amigos.

Não direi que este é um “Fradique em botão”, mas é claramente um “primeiro Fradique Mendes” e já quase um heterónimo coletivo. Mas não nos apressemos: falta andar algum caminho na estrada que conduz ao heteronimismo pessoano, um caminho feito também de trabalho sobre a língua literária. Se Eça de Queirós parece tentado a ir por aí,  não o faz logo nesses anos 60 e já em vésperas de  uma outra provocação: O Mistério da Estrada de Sintra, romance epistolar (mas isso  só depois se soube)  composto em 1870  com o amigo Ramalho Ortigão.

É  no Mistério que reencontramos Fradique Mendes,  mencionado numa carta da misteriosa condessa W. Numa reunião mundana  Fradique Mendes  faz-se contador de proezas bizarras e  repulsivas. “Sentado num sofá com um abandono asiático, estava um homem verdadeiramente original e superior, um nome conhecido – Carlos Fradique Mendes”, diz a  condessa do Mistério. E acrescenta: “Fora amigo de Carlos Baudelaire e tinha como ele o olhar frio, felino, magnético, inquisitorial.”

De novo, Baudelaire. Mas agora há mais:  Fradique (diz ainda a  a condessa) “tocava admiravelmente violoncelo, era um terrível jogador de armas, tinha viajado no Oriente, estivera em Meca, e contava que fora corsário grego.” Sublinho: “contava que fora corsário grego”. Fradique já não é só poeta de versos por conhecer; ele é também contador de histórias. Uma dessas histórias é a de uma amante antropófaga que, no ardor da paixão, lhe ia levando um braço.  Palavras de Fradique, perante um auditório estupefacto: “A pobre criatura (…) untava os cabelos com um óleo ascoroso. Eu seguia-a pelo cheiro. Um dia, exaltado de amor, aproximei-me dela, arregacei a manga e apresentei-lhe o braço nu. Queria fazer-lhe aquele mimo! Ela cheirou, deu uma dentada, levou um pedaço longo de carne, mastigou, lambeu os beiços e pediu mais. Eu tremia de amor, fascinado, feliz em sofrer por ela. Sufoquei a dor, e estendi-lhe outra vez o braço… (…)  Comeu mais (…), gostou e pediu outra vez.”

Não se sabe até onde chega o repasto. O que se sabe é que este Fradique fica por aqui. Como quem diz: chega de paródia,  porque os anos 70 serão, para Eça, anos de construção de personagens a valer e não de congeminação de heterónimos, mesmo que “em botão”.

(“Conversa entre heterónimos”. “Tudo Língua”, Coimbra, 4.12.2015. Por ocasião do Congresso Internacional “Língua Portuguesa: uma Língua de Futuro”).

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 Foto de Vera Moutinho, cedida pelo jornal Público

 

 

Fradique Mendes e Bernardo Soares (2)

Bernardo Soares e Carlos Fradique Mendes – ou melhor, Jerónimo Pizarro e Carlos Reis –  encontraram-se para uma conversa na Biblioteca Joanina, para o encerramento dos 725 anos da Universidade de Coimbra (UC). Com um saco de pano vermelho que comprou numa livraria de Madrid que se chama “Tipos Infames”, o especialista em Fernando Pessoa Jerónimo Pizarro apresentou o que se ia passar a seguir. “Somos dois tipos infames a falar de outros dois tipos infames que poderiam ser o Bernardo Soares e o Fradique Mendes ou semi-infames por serem semi-heterónimos e pensemos que esta é uma conversa a dois sobre duas personagens que estamos a tentar aproximar.” [continuar a ler e ver vídeo]

Isabel Coutinho, Vera Moutinho e Frederico Batista, Público [online], 7 de dezembro de 2015.

 

 

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