Os meus Eças (3)

Depois, veio o meu Eça mais, digamos, “escolar”. Pelo fim dos anos 70, início dos anos 80, ainda se lia alguma coisa nas escolas secundárias e Os Maias eram leitura “obrigatória”. Nunca gostei da expressão: para mim, a leitura não deve ser “obrigatória”, muito menos a d’Os Maias.

Hotel Central em Lisboa Cenário de um jantar n'Os Maias

Hotel Central em Lisboa
Cenário de um jantar n’Os Maias

Surgiu-me então a ideia de fazer alguma coisa de semelhante ao que eu lia em prestimosas colecções didácticas, sobretudo francesas; e tendo conversado sobre o assunto com uma antiga colega (por onde andará?), a ideia consolidou-se: a minha Introdução à leitura d’Os Maias, que publiquei, de novo na Almedina, em 1978, teve uma primeira tiragem de 12 500 exemplares,  número que obviamente achei desmedido. Mas quando verifiquei que aquela tiragem se esgotara em menos de um ano, pude confirmar a ideia de que o sagaz Joaquim Machado, com o seu faro editorial, dominava como poucos o mundo da  edição e o seu difícil mercado.

O livrinho ainda aí anda, já cansado de tanta reimpressão, de tanta fotocópia e de tantas imitações, umas disfarçadas, outras nem tanto. Vendeu, até hoje, uns 110 mil exemplares e fica na minha memória de autor como um momento decisivo em que percebi que era necessário e possível escrever claro sobre Eça de Queirós e sobre o seu grande romance.

Os meus Eças (2)

Os meus primeiros Eças foram, então, atravessados por acasos, por equívocos, por juvenis atrevimentos e por secretas admirações. Provavelmente é assim que os grandes amores começam e é assim também, às vezes a partir de um encontro casual e inesperado, que duram o tempo das nossas vidas. Quis o destino e também a minha vontade que um outro Eça começasse a tomar forma dentro de mim,  pelo meu desejo de fazer dele o escritor da minha vida. O Eça que conheci nos bancos da Faculdade de Letras de Coimbra foi sobretudo o da Geração de 70, mas já também o de Fradique Mendes, então  acentuado nas suas facetas tardo-românticos e tradicionalistas, mais do que nas suas premonições modernistas. No princípio dos anos 70 e na Universidade de Coimbra, o ensino da literatura portuguesa não chegava ao século XX. Quase logo depois, apareceu-me pela frente a teoria da literatura, efeito directo do competente e motivador magistério do Prof. Vítor Aguiar e Silva. E pela primeira vez, fiz de Monsieur Jourdain: era a narratologia que estava no caminho que eu ia trilhando, sem que eu me apercebesse de que “falava narratologia”, com a nitidez teórica que  ela veio a assumir para mim.

estatuto-e-perspectivas1Quando se tratou de escolher um autor e um tema para a minha tese de licenciatura (quem se lembra hoje de que tal coisa existia?), a decisão foi óbvia: Eça de Queirós. Foi isso que propus ao Prof. Aguiar e Silva, meu orientador de seminário e de tese; a ideia foi por diante, até por trazer consigo uma articulação com a teoria que, na minha intuição, fazia sentido. (Uns anos mais tarde, Guerra da Cal dir-me-ia: uma boa tese faz-se sempre a partir de uma boa intuição). Tratava-se de estudar a evolução queirosiana à luz das mudanças técnicas que as suas narrativas evidenciam, particularmente no que dizia respeito à formulação dos pontos de vista e à configuração de situações narrativas distintas. E assim percorri quase toda a ficção queirosiana, com inesgotável entusiasmo, com incontáveis fichas e com a alegre crença de que me era possível surpreender um Eça por descobrir. Um Eça que, nesse tempo, para mim era sobretudo um repositório de focalizações, de registos do discurso, de níveis diegéticos e de narradores autodiegéticos. A verdade seja dita: aprendi coisas que me ficaram para a vida. A tese fez-se, dei-lhe o título pretensioso e meio darwinista de Metamorfoses Narrativas na Ficção de Eça de Queirós e a Profª Ofélia Paiva Monteiro arguiu-a, com tolerância e com amena simpatia, num dia 27 de Julho que não esquecerei. O saudoso Joaquim Machado editou-a na sua Almedina, teve três edições e, sinceramente, não me envergonho do que fiz, porque me regi por uma convicção forte e por um entusiasmo que quase desculpam o título ainda mais retorcido que nessa edição em livro acabei por dar àquele meu estudo: Estatuto e Perspectivas do Narrador na Ficção de Eça de Queirós. Como diria o próprio Eça, éramos assim absurdos em 1975!

Carlos Reis

Os meus Eças (1)

Ao longo da minha vida tenho convivido com vários Eças. Com os meus Eças, desdobramentos e feições distintas de um escritor cuja multiforme diversidade não cessou, até hoje, de me surpreender.

Curiosamente, não me recordo de ter conhecido um Eça escolar. No tempo em que, no Liceu Nacional de Angra do Heroísmo, eu estudava Português, dominava a selecta, vigorava o respeito e Eça era demasiado ousado para a “boa” moral que regia a pedagogia de então. Estava-se nos anos 60, um tempo que só depois vim a perceber quão decisivo e dramático foi na vida pública portuguesa e no destino da Europa e do mundo; para mim, nessa época, bastavam os Beatles para vagamente entender que havia um fenómeno chamado conflito de gerações,  pacatamente  reduzido quase só ao pequeno escândalo de uns cabelos modestamente compridos e de uma empolgante música de duvidosa afinação. De Eça retenho uma primeira e equivocada imagem: a que me foi sugerida por um título, numa montra de livraria, que rezava assim, por debaixo do nome do autor: Os Maias. Para mim, nesse tempo, os Maias eram um povo nativo da América Latina,  talvez porque o dito povo tenha perpassado, diante dos meus olhos, nalguma banda desenhada das que  ilustravam as páginas do Cavaleiro Andante e títulos quejandos. E já que pouco mais  do que isso cabia na minha juvenil ignorância, no “contrato” de leitura que estabeleci com aquela capa, com aquele título e com aquele nome de autor, aquele não era um livro literário, mas (talvez) um livro de História.

Mais tarde, numa adolescência espigada, percebi que Eça de Queirós e os seus livros eram outra coisa. Foi na biblioteca fixa da Gulbenkian, nesse tempo hospedada numa espécie de desvão da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, que uma capa esbranquiçada da Lello me chamou a atenção. O livro intitulava-se singelamente A Capital e erado tal Eça de Queirós. Levei-o para casa, mais por estar o tal livro classificado como desaconselhado a adolescentes (ah! o doce e inocente sabor das transgressões de então!), do que por outra qualquer razão. E li-o de uma ponta à outra, quase sem parar, num êxtase que só muito depois voltaria a experimentar, provocado por um contemporâneo de Eça chamado Machado de Assis.

Ser-me-ia difícil recuperar hoje o que desde logo me fascinou em Eça. Retenho, todavia e de forma muito viva, que naquele estilo corredio e ágil, surpreendente pela graça e pela inventiva das imagens, radicou muito de um fascínio que jamais se desvaneceu em mim. Longe estava eu de imaginar então que, no caso d’A Capital, o tal estilo sedutor provinha também do trabalho do filho de Eça que, como hoje sabemos, desenvoltamente meteu a mão num texto que o pai deixara inacabado; e algo semelhante acontecia, como também muito mais tarde vim a perceber, no texto d’A Cidade e as Serras, o segundo título queirosiano que, de novo por minha iniciativa, mas já não por acaso, entrou na minha vida.

São desse tempo de encontro iniciático com Eça de Queirós dois episódios quase íntimos que quero evocar aqui. Um deles vivi-o no entusiasmo do adolescente que queria “escrever um romance”. Ao projectá-lo, congeminei uma história estranha: a de dois irmãos separados na infância por força de um qualquer incidente, reencontrados na idade adulta sem se conhecerem e ligados por uma paixão amorosa devastadora. Nesse tempo, eu não conhecia a palavra incesto e muito menos conhecia as sinuosas dimensões sociais, morais e psicológicas que ele envolve; talvez por isso, a ideia pareceu-me completamente descabelada e abandonei-a, por absurda e inviável. O resultado desse devaneio foi que, já na universidade, li um romance de Eça (para mim e até hoje o romance) que, entre muitas outras coisas, me revelou que, afinal, pouca coisa resta por inventar no universo das ficções romanescas.

O segundo episódio teve que ver também com um livro exposto numa livraria de Angra: outra revelação. Tinha esse livro por autor

Ernesto Guerra da Cal

Ernesto Guerra da Cal

alguém com o nome para mim estranho de Guerra da Cal e tratava da linguagem e do estilo de Eça de Queirós. Muito bem me lembro de por várias vezes o ter folheado e de sempre me ter demorado a ler nele, aqui e além, abundantes citações de Eça,  citações evidentemente escolhidas por alguém que, soube-o depois, foi e é o mais inteligente e fino  conhecedor da obra queirosiana. De Ernesto Guerra da Cal vim a ser  discípulo, amigo e (como ele generosamente dizia) “príncipe herdeiro”; a Guerra da Cal fiquei a dever esse outro livro que, tal como o outro, não pude escrever porque alguém, com infinito saber e inimitável talento, já o havia escrito. Estava, por isso, consideravelmente facilitado o meu trajecto queirosiano; o incentivo final veio quando, já nos bancos da Faculdade, em 1970 e num anfiteatro pejado de gente, assisti a uma notável conferência do mesmo Guerra da Cal sobre A Relíquia. Não se apagou em mim, até hoje, a forte impressão que nessa altura me causou a palavra convincente, a segura erudição e a elegante figura carismática de quem então começou a ser o meu Mestre.

Carlos Reis

Literatura

A constituição da literatura como tema, na obra queirosiana, é um processo com motivações várias, desenvolvido em distintos planos de reflexão. A importância adquirida por um tal tema advém, antes mais, da relevância que o fenómeno literário conheceu, no tempo cultural de Eça: numa sociedade em que a leitura ocupava uma função cada vez mais saliente e onde era reconhecido ao escritor um destaque social apreciável, a literatura foi inevitavelmente objeto de tematização. Por outro lado, Eça revelou sempre uma notável vocação para a reflexão doutrinária, o que lhe deu a possibilidade de analisar questões técnicas, sociais e culturais levantadas pela literatura e pela sua escrita.

O poeta Alencar, por Wladimiro A. de Souza

O poeta Alencar, por Wladimiro A. de Souza

Nesse plano doutrinário, são inúmeras as intervenções queirosianas. Desde o tempo da Gazeta de Portugal, em textos depois incluídos nas Prosas Bárbaras, Eça vai  dissertando sobre o Romantismo, os seus excessos  e a sua projeção social; sobre o Naturalismo, os seus fundamentos ideológicos e os seus procedimentos técnicos; sobre o trabalho formal e as suas exigências; sobre os géneros literários e a sua composição; sobre a literatura e as suas formas de consagração institucional; sobre as sinuosas relações entre ficção e real. Textos como o prefácio (não publicado em vida) “Idealismo e Realismo”, a carta-prefácio d’O Mandarim, o prefácio dos Azulejos do Conde de Arnoso, o prefácio d’O Brasileiro Soares de Luís de Magalhães, a carta pública a Carlos Lobo de Ávila sobre Alencar e Bulhão Pato (inserta nas Notas Contemporâneas), bem como inúmeras cartas particulares (sobretudo a Ramalho Ortigão, a Oliveira Martins, a Teófilo Braga e aos seus editores) são muito elucidativos da capacidade de ponderação metaliterária de Eça de Queirós.

A literatura tematiza-se também em quase todas as obras literárias queirosianas. Em vários romances,  encena-se a função decorativa da literatura:  em casa do desembargador Amado (n’O Conde d’Abranhos), no sarau do Teatro da Trindade (n’Os Maias) ou no jantar literário pago por Artur Corvelo (n’A Capital), a literatura é declamada na presença de burgueses e de aristocratas, de políticos e de funcionários públicos, que acolhem essa presença como ostentação cultural com repercussões sociais.

Ao mesmo tempo, a literatura modeliza-se também na figura do escritor como personagem. N’O Crime do Padre Amaro, essa figura  é o fugaz poeta romântico Carlos Alcoforado  (cap. V); para além deste, a galeria queirosiana de escritores é abundante e pitoresca: Ernestinho Ledesma, Korriscosso, Tomás de Alencar, João da Ega, Artur Corvelo, o poeta Roma e Gonçalo Mendes Ramires são algumas das figuras que a integram; em várias delas lemos os tiques, as convenções e as debilidades culturais determinadas pelos protocolos  e pela  retórica do Romantismo. O dramaturgo Ernestinho Ledesma e os dissabores por que passa para levar à cena o seu drama, tal como o poeta Alencar e o poema que debita no sarau da Trindade representam  limitações e contradições (a dependência em relação ao poder, a artificialidade da linguagem poética, etc.) que afetavam o escritor. A tal ponto eram socialmente significativas essas limitações e contradições, que Eça consagra todo um romance (que não chegou, aliás, a terminar) à atribulada iniciação literária de um escritor: sintomaticamente, o subtítulo desse romance (A Capital!) é Começos duma carreira.

O caso de Gonçalo Mendes Ramires é mais complexo. Motivado a escrever uma novela romântica, Gonçalo projeta no seu trabalho literário dificuldades e traumas que Eça conhecia bem, do complexo do plágio à luta denodada pelo estilo; para além disso, o fidalgo da Torre revela, com a sua experiência de novelista, os nexos e as cumplicidades existentes entre a notoriedade literária e a vida política.

Praticamente no termo final da sua reflexão literária sobre o escritor, a literatura e a criação literária, Eça reconstitui um poeta provindo da sua juventude literária:  Carlos Fradique Mendes. Um dos aspetos mais interessantes do pensamento de Fradique Mendes é precisamente a sua conceção da literatura: defendendo posições eminentemente elitistas e antirrealistas, Fradique postula a dimensão formal da obra literária como sua componente dominante, afirmada de modo tão insistente que dela pode falar-se como obsessão de efeitos mutilantes:  incapaz de atingir a forma perfeita, Fradique reduz a literatura ao silêncio e morre como escritor puramente virtual.

Cânone

Recorte de jornal emendado (d'A Corr. de Fradique  Mendes).

Recorte de jornal emendado (d’A Corr. de Fradique Mendes).

A expressão com que designamos o cânone queirosiano não se confunde com aquela que diz de Eça de Queirós (como de Camões, de Garrett, de Herculano ou de Fernando Pessoa)  que é um escritor canónico. Nessa aceção, hoje relativamente trivial, as obras de Eça  e a sua língua literária  constituem um fator de legitimação dos valores, dos grandes temas e das ideias estruturantes de uma comunidade que a literatura, sobretudo através do sistema de ensino, ajuda a identificar.

Para o que aqui interessa, fala-se em  cânone queirosiano quando nos reportamos  à  autenticidade autoral,  num sentido translato  que consabidamente decorre de um paradigma religioso: do entendimento do cânone como conjunto de textos em que lemos a palavra divina.  De acordo com essa dimensão translata, buscamos determinar que textos são da autoria efetiva de Eça de Queirós e quais aqueles que, embora presuntivamente escritos por ele, o não são ou apenas o são de forma precária e condicionada por acidentes vários, de transmissão, de fixação e de edição em determinado suporte.

Nem por ser um  autor moderno Eça e o seu cânone deixaram de ser atingidos por problemas editoriais que perturbaram a fidedignidade dos textos que lhe são atribuídos.  Para quem ignora tais problemas e os seus efeitos perversos, os títulos O Crime do Padre Amaro, A Cidade e as SerrasProsas Bárbaras ou O Conde d’Abranhos reportam-se,  idêntica e pacificamente, a obras  de Eça de Queirós. Não é bem assim, como hoje sabemos; o trabalho da edição crítica das obras de Eça tem mostrado que o cenário bibliográfico queirosiano foi afetado, ainda em vida do escritor, mas sobretudo depois da sua morte, por intervenções espúrias e por critérios editoriais pouco rigorosos.  Dito de outra forma: Eça de Queirós, enquanto  escritor, não é quem julgávamos que ele era, sem que isto implique uma revisão do valor facial da sua obra, enquanto pedra angular do nosso património literário. Por exemplo:  a edição póstuma d’A Capital,  em 1925, foi afetada por incontáveis intervenções (algumas de teor quase censório) por parte de quem leu e transcreveu (no caso, o filho do escritor) um manuscrito e demais materiais muito complexos;  e as várias edições divergentes d’A Tragédia da Rua das Flores, publicadas a partir de 1980, criaram uma situação extremamente confusa e controversa, por carência de uma estratégia editorial devidamente ponderada. Num outro plano, um volume intitulado Notas Contemporâneas (editado pela primeira vez em 1909, por Luís de Magalhães) constitui um aglomerado de textos dispersos, de épocas e de géneros muito distintos, sem qualquer unidade bibliográfica.

Em síntese: pode afirmar-se que a questão do cânone queirosiano  é da família de outras   similares (por exemplo, o cânone da lírica camoniana ou o do teatro vicentino). Tal questão pertence, no entanto, a um ramo mais recente e tem a feição que lhe foi incutida pelas lógicas culturais e editoriais vigentes do século XIX em diante. Sendo assim, a edição crítica das obras de Eça é um contributo decisivo para a renovação do cânone queirosiano.

Cidade

Na literatura do século XIX – e particularmente na ficção realista e naturalista -, a cidade constitui um cenário privilegiado, por nele confluírem figuras e conflitos que muito bem documentam questões de  dimensão social: a industrialização e os seus excessos, a proletarização dos trabalhadores, o crescimento urbano e os seus desequilíbrios, o cosmopolitismo e as suas contradições, etc.

A obra ficcional de Eça de Queirós contempla, de forma intensa, os espaços urbanos, a ponto de se dizer que nela o campo ocupa um lugar subalterno. E de facto, nos romances O Primo Basílio, Os Maias e A Relíquia o fundamental da acção centra-se em Lisboa, cidade que implicitamente ocupa o título de um outro romance, A Capital!; n’O Crime do Padre Amaro, o cenário é a cidade de província Leiria, registando-se ainda incursões sobre Lisboa (p. ex.: no episódio final). N’A Cidade e as Serras, a cidade quase ganha estatuto de personagem, com a amplidão, com a modernidade e tambémcom o fascínio próprio da grande capital que era Paris.

O espaço das cidades traz aos romances queirosianos a  ilustração de uma vida coletiva integrada por tipos que representam  diversas facetas sociais e profissionais: o jornalismo, a literatura, a finança, a política, o clero são algumas dessas facetas, configurando uma sociedade cujos estratos dirigentes surgem afetados por vícios e por deformações várias. É a cidade – sobretudo quando, como é o caso de Lisboa, ela é capital, ainda que  com  acentuada feição provinciana – que permite pôr em evidência esses vícios e deformações.

N’A Cidade e as Serras a cidade não é apenas cenário. Ela é verdadeiramente (como acontece também no conto “Civilização”) um núcleo temático forte, diretamente relacionado com as conceções de vida de Jacinto, que na cidade vê a materialização exuberante da civilização, particularmente aquela que no fim de século exibe uma crença quase arrogante nas conquistas da ciência e da técnica. É contra essa imagem  que progressivamente se vai pronunciando Zé Fernandes, à medida que observa no amigo os sintomas de uma espécie de doença anímica provocada pelos excessos da civilização urbana. Num tal contexto, as Serras (e com elas o campo) surgem como hipótese de regeneração existencial, vivida, ainda assim, de forma não isenta de problemas.

Paris em 1889 (Exposição Universal; grav. de Hoffbnaur e Dochy)

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