Cidade

Na literatura do século XIX – e particularmente na ficção realista e naturalista -, a cidade constitui um cenário privilegiado, por nele confluírem figuras e conflitos que muito bem documentam questões de  dimensão social: a industrialização e os seus excessos, a proletarização dos trabalhadores, o crescimento urbano e os seus desequilíbrios, o cosmopolitismo e as suas contradições, etc.

A obra ficcional de Eça de Queirós contempla, de forma intensa, os espaços urbanos, a ponto de se dizer que nela o campo ocupa um lugar subalterno. E de facto, nos romances O Primo Basílio, Os Maias e A Relíquia o fundamental da acção centra-se em Lisboa, cidade que implicitamente ocupa o título de um outro romance, A Capital!; n’O Crime do Padre Amaro, o cenário é a cidade de província Leiria, registando-se ainda incursões sobre Lisboa (p. ex.: no episódio final). N’A Cidade e as Serras, a cidade quase ganha estatuto de personagem, com a amplidão, com a modernidade e tambémcom o fascínio próprio da grande capital que era Paris.

O espaço das cidades traz aos romances queirosianos a  ilustração de uma vida coletiva integrada por tipos que representam  diversas facetas sociais e profissionais: o jornalismo, a literatura, a finança, a política, o clero são algumas dessas facetas, configurando uma sociedade cujos estratos dirigentes surgem afetados por vícios e por deformações várias. É a cidade – sobretudo quando, como é o caso de Lisboa, ela é capital, ainda que  com  acentuada feição provinciana – que permite pôr em evidência esses vícios e deformações.

N’A Cidade e as Serras a cidade não é apenas cenário. Ela é verdadeiramente (como acontece também no conto “Civilização”) um núcleo temático forte, diretamente relacionado com as conceções de vida de Jacinto, que na cidade vê a materialização exuberante da civilização, particularmente aquela que no fim de século exibe uma crença quase arrogante nas conquistas da ciência e da técnica. É contra essa imagem  que progressivamente se vai pronunciando Zé Fernandes, à medida que observa no amigo os sintomas de uma espécie de doença anímica provocada pelos excessos da civilização urbana. Num tal contexto, as Serras (e com elas o campo) surgem como hipótese de regeneração existencial, vivida, ainda assim, de forma não isenta de problemas.

Paris em 1889 (Exposição Universal; grav. de Hoffbnaur e Dochy)

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1 Comentário

  1. Rui Carp

     /  5 de Julho de 2015

    Estas pequenas notas do Professor Carlos Reis são maravilhas.

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