A expressão com que designamos o cânone queirosiano não se confunde com aquela que diz de Eça de Queirós (como de Camões, de Garrett, de Herculano ou de Fernando Pessoa) que é um escritor canónico. Nessa aceção, hoje relativamente trivial, as obras de Eça e a sua língua literária constituem um fator de legitimação dos valores, dos grandes temas e das ideias estruturantes de uma comunidade que a literatura, sobretudo através do sistema de ensino, ajuda a identificar.
Para o que aqui interessa, fala-se em cânone queirosiano quando nos reportamos à autenticidade autoral, num sentido translato que consabidamente decorre de um paradigma religioso: do entendimento do cânone como conjunto de textos em que lemos a palavra divina. De acordo com essa dimensão translata, buscamos determinar que textos são da autoria efetiva de Eça de Queirós e quais aqueles que, embora presuntivamente escritos por ele, o não são ou apenas o são de forma precária e condicionada por acidentes vários, de transmissão, de fixação e de edição em determinado suporte.
Nem por ser um autor moderno Eça e o seu cânone deixaram de ser atingidos por problemas editoriais que perturbaram a fidedignidade dos textos que lhe são atribuídos. Para quem ignora tais problemas e os seus efeitos perversos, os títulos O Crime do Padre Amaro, A Cidade e as Serras, Prosas Bárbaras ou O Conde d’Abranhos reportam-se, idêntica e pacificamente, a obras de Eça de Queirós. Não é bem assim, como hoje sabemos; o trabalho da edição crítica das obras de Eça tem mostrado que o cenário bibliográfico queirosiano foi afetado, ainda em vida do escritor, mas sobretudo depois da sua morte, por intervenções espúrias e por critérios editoriais pouco rigorosos. Dito de outra forma: Eça de Queirós, enquanto escritor, não é quem julgávamos que ele era, sem que isto implique uma revisão do valor facial da sua obra, enquanto pedra angular do nosso património literário. Por exemplo: a edição póstuma d’A Capital, em 1925, foi afetada por incontáveis intervenções (algumas de teor quase censório) por parte de quem leu e transcreveu (no caso, o filho do escritor) um manuscrito e demais materiais muito complexos; e as várias edições divergentes d’A Tragédia da Rua das Flores, publicadas a partir de 1980, criaram uma situação extremamente confusa e controversa, por carência de uma estratégia editorial devidamente ponderada. Num outro plano, um volume intitulado Notas Contemporâneas (editado pela primeira vez em 1909, por Luís de Magalhães) constitui um aglomerado de textos dispersos, de épocas e de géneros muito distintos, sem qualquer unidade bibliográfica.
Em síntese: pode afirmar-se que a questão do cânone queirosiano é da família de outras similares (por exemplo, o cânone da lírica camoniana ou o do teatro vicentino). Tal questão pertence, no entanto, a um ramo mais recente e tem a feição que lhe foi incutida pelas lógicas culturais e editoriais vigentes do século XIX em diante. Sendo assim, a edição crítica das obras de Eça é um contributo decisivo para a renovação do cânone queirosiano.

