Literatura

A constituição da literatura como tema, na obra queirosiana, é um processo com motivações várias, desenvolvido em distintos planos de reflexão. A importância adquirida por um tal tema advém, antes mais, da relevância que o fenómeno literário conheceu, no tempo cultural de Eça: numa sociedade em que a leitura ocupava uma função cada vez mais saliente e onde era reconhecido ao escritor um destaque social apreciável, a literatura foi inevitavelmente objeto de tematização. Por outro lado, Eça revelou sempre uma notável vocação para a reflexão doutrinária, o que lhe deu a possibilidade de analisar questões técnicas, sociais e culturais levantadas pela literatura e pela sua escrita.

O poeta Alencar, por Wladimiro A. de Souza

O poeta Alencar, por Wladimiro A. de Souza

Nesse plano doutrinário, são inúmeras as intervenções queirosianas. Desde o tempo da Gazeta de Portugal, em textos depois incluídos nas Prosas Bárbaras, Eça vai  dissertando sobre o Romantismo, os seus excessos  e a sua projeção social; sobre o Naturalismo, os seus fundamentos ideológicos e os seus procedimentos técnicos; sobre o trabalho formal e as suas exigências; sobre os géneros literários e a sua composição; sobre a literatura e as suas formas de consagração institucional; sobre as sinuosas relações entre ficção e real. Textos como o prefácio (não publicado em vida) “Idealismo e Realismo”, a carta-prefácio d’O Mandarim, o prefácio dos Azulejos do Conde de Arnoso, o prefácio d’O Brasileiro Soares de Luís de Magalhães, a carta pública a Carlos Lobo de Ávila sobre Alencar e Bulhão Pato (inserta nas Notas Contemporâneas), bem como inúmeras cartas particulares (sobretudo a Ramalho Ortigão, a Oliveira Martins, a Teófilo Braga e aos seus editores) são muito elucidativos da capacidade de ponderação metaliterária de Eça de Queirós.

A literatura tematiza-se também em quase todas as obras literárias queirosianas. Em vários romances,  encena-se a função decorativa da literatura:  em casa do desembargador Amado (n’O Conde d’Abranhos), no sarau do Teatro da Trindade (n’Os Maias) ou no jantar literário pago por Artur Corvelo (n’A Capital), a literatura é declamada na presença de burgueses e de aristocratas, de políticos e de funcionários públicos, que acolhem essa presença como ostentação cultural com repercussões sociais.

Ao mesmo tempo, a literatura modeliza-se também na figura do escritor como personagem. N’O Crime do Padre Amaro, essa figura  é o fugaz poeta romântico Carlos Alcoforado  (cap. V); para além deste, a galeria queirosiana de escritores é abundante e pitoresca: Ernestinho Ledesma, Korriscosso, Tomás de Alencar, João da Ega, Artur Corvelo, o poeta Roma e Gonçalo Mendes Ramires são algumas das figuras que a integram; em várias delas lemos os tiques, as convenções e as debilidades culturais determinadas pelos protocolos  e pela  retórica do Romantismo. O dramaturgo Ernestinho Ledesma e os dissabores por que passa para levar à cena o seu drama, tal como o poeta Alencar e o poema que debita no sarau da Trindade representam  limitações e contradições (a dependência em relação ao poder, a artificialidade da linguagem poética, etc.) que afetavam o escritor. A tal ponto eram socialmente significativas essas limitações e contradições, que Eça consagra todo um romance (que não chegou, aliás, a terminar) à atribulada iniciação literária de um escritor: sintomaticamente, o subtítulo desse romance (A Capital!) é Começos duma carreira.

O caso de Gonçalo Mendes Ramires é mais complexo. Motivado a escrever uma novela romântica, Gonçalo projeta no seu trabalho literário dificuldades e traumas que Eça conhecia bem, do complexo do plágio à luta denodada pelo estilo; para além disso, o fidalgo da Torre revela, com a sua experiência de novelista, os nexos e as cumplicidades existentes entre a notoriedade literária e a vida política.

Praticamente no termo final da sua reflexão literária sobre o escritor, a literatura e a criação literária, Eça reconstitui um poeta provindo da sua juventude literária:  Carlos Fradique Mendes. Um dos aspetos mais interessantes do pensamento de Fradique Mendes é precisamente a sua conceção da literatura: defendendo posições eminentemente elitistas e antirrealistas, Fradique postula a dimensão formal da obra literária como sua componente dominante, afirmada de modo tão insistente que dela pode falar-se como obsessão de efeitos mutilantes:  incapaz de atingir a forma perfeita, Fradique reduz a literatura ao silêncio e morre como escritor puramente virtual.

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