Decadência

Causas da DecadênciaO tema da decadência é um daqueles que de forma evidente ligam a produção literária queirosiana a preocupações históricas e ideológicas assumidas pela Geração de 70.

Dos anos de afirmação pública da Geração de 70 datam iniciativas em geral interessadas na decadência portuguesa,  observada na nossa vida coletiva, sobretudo desde a Restauração do século XVII. As Conferências do Casino (e sobretudo a de Antero de Quental, intitulada Causas da Decadência dos Povos Peninsulares) atestam esse interesse; o mesmo acontece com As Farpas de Eça e Ramalho Ortigão, com a historiografia de Oliveira Martins (p. ex.: no Portugal Contemporâneo) e com a poesia de Guerra Junqueiro, particularmente a que ataca a decadência moral (A Velhice do Padre Eterno e A Morte de D. João) e a decadência histórica portuguesa (Finis Patriae).

Na obra de Eça, os textos d’As Farpas incidem sobre o estado lamentável em que se encontra a sociedade portuguesa: o texto de abertura, integrado em Uma Campanha Alegre com o título “Estudo social de Portugal em1871”, denuncia aquilo a que Eça chama “o progresso da decadência”, acrescentando: “Esta decadência tornou-se um hábito, quase um bem-estar, para muitos uma indústria”. A educação romântica, a devoção religiosa, o parlamentarismo e a monarquia constitucional são, entre outros, agentes dessa “indústria da decadência” que também nos romances queirosianos se acha representada.

O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio analisam a decadência portuguesa nos mundos da burguesia e do clero, no quotidiano da  vida familiar e das suas práticas: o adultério, o Romantismo dominante, a devoção beata e a perversão do sacerdócio traduzem uma degeneração de costumes que a literatura trata de pôr em evidência; é isso  que encontramos também nos romances de publicação póstuma  A Capital!  e O Conde de Abranhos, constituindo este último uma vigorosa sátira da degradada vida política do constitucionalismo oitocentista.

No final d’O Crime do Padre Amaro, a análise da decadência assume uma dimensão histórica e simbólica: a referência à estátua de Camões prepara o aprofundamento da reflexão histórica que há de ocorrer n’Os Maias e sobretudo n’A Ilustre Casa de Ramires. Em ambos os romances, o processo da decadência portuguesa faz-se em função do destino de famílias – a dos Maias e a dos Ramires – cujo trajeto se entrelaça com o devir da História de Portugal. No caso da família Maia, esse trajeto é o da implantação do Liberalismo, da sua transformação e estabilização, num cenário – o da Lisboa dos anos 70 e 80 – marcado pela descrença na utilidade de qualquer esforço regenerador.

N’A Ilustre Casa de Ramires, a decadência da família é paralela à de Portugal e revela-se depois da Restauração de 1640. Até então, os Ramires participam em todos os lances heroicos da História portuguesa; com a dinastia de Bragança, a família perde o vigor de outrora («Já, porém, como a nação, degenera a nobre raça…»; cap. I) e, na geração de Gonçalo Mendes Ramires, limita-se quase a vegetar à sombra das memórias do passado.  O esforço desse último Ramires, ao partir para África como explorador colonial, assume, então, o significado de uma tentativa de superação da decadência, aparentemente sugerida pela necessidade de aprender a lição humilhante do Ultimato inglês de 1890.

Isto significa também que, na obra de Eça, o reconhecimento da decadência não deixa de suscitar empenhadas tentativas de revitalização. A  Revista de Portugal pode considerar-se uma dessas tentativas; e a recusa de Eça em aderir a propostas ideológicas tradicionalistas (como as que Alberto de Oliveira esboçara com a doutrina neo-garrettista) revela um espírito interessado em resolver de forma  criativa os problemas da decadência portuguesa.

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