Bovarismo

 

Valentine Tessier como Emma Bovary, na versão de Jean Renoir (1933)

Valentine Tessier como Emma Bovary, na versão de Jean Renoir (1933)

A caracterização do bovarismo implica a prévia alusão à personagem criada por Flaubert, da qual derivam o termo e o conceito em questão. Afetada po ruma imaginação desequilibrada, que decorre do excesso de leituras romanescas, Emma Bovary constrói um mundo imaginário, de referências eminentemente literárias, mundo que constantemente se confronta com a trivial banalidade da vida burguesa e vazia da idealização que rodeia a personagem; por isso, ela é conduzida a comportamentos (designadamente: relações adúlteras) tendentes a superar aquele desencontro, mas finalmente impulsionando-a ao suicídio. A isso mesmo referiu-se Eça, num texto de 1880, escrito quando da morte de Flaubert.

Na obra queirosiana, o interesse pelo bovarismo explica-se não só pela influência exercida por Flaubert sobre Eça, mas também pela atenção conferida pelo romance realista à mulher como personagem ficcional. Desde O Mistério da Estrada de Sintra (designadamente na figura da condessa de W.), passando pel’As Farpas, a mulher é analisada em função de temas direta ou indiretamente relacionados com o bovarismo: a educação, o ócio, o romantismo,  o adultério, etc.

No que às personagens femininas diz respeito, são as d’O Primo Basílio que inegavelmente atestam a importância do bovarismo como tema crítico. Luísa aparece condicionada, desde a adolescência  até depois do casamento com Jorge,  pelas figuras, pelos ambientes e pelas aventuras que lê nos romances; o aparecimento de Basílio estimula-a a tentar encontrar na vida real os cenários e os comportamentos romanescos que a seduziam. De forma mais  determinada, Leopoldina revela, na sua  vida sentimental, uma energia superior à de Luísa, buscando incessantemente a ligação amorosa que lhe permita superar o trauma do casamento com um homem banal e grosseiro.

Deste modo, o tema do bovarismo cruza-se com o do adultério. É assim que personagens femininas como a condessa de Gouvarinho ou Maria da Piedade (do conto “No Moinho”)  imediatamente levam à articulação entre ambos os temas; e nelas, como nas restantes aqui consideradas, a condição da mulher – que o romance realista e naturalista analisava nas suas mais prementes implicações sociais e morais – é, afinal, a preocupação central de um escritor e de um projeto de índole reformista.

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3 comentários

  1. Laab

     /  6 de Junho de 2013

    Excelente. Parabéns! Gosto cada vez mais do “Eça de Queirós”! Abraço fraterno,

    Luiz Antonio de Assis Brasil http://www.laab.com.br ARS LONGA VITA BREVIS

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  2. Não sendo eu destas “artes”, no entanto, esta prosa sobre o “Bovarismo” deixou-me uma dúvida que talvez possa esclarecer, é a seguinte: embora me pareça ter alguma relevância na (nossa) crítica literária, salvo melhor opinião, creio que não existe um estudo sistemático sobre a interpretação e o uso
    desse conceito – parece-me que apenas uns fogachos em alguns momentos lampejam a crítica literária aqui no “burgo”.
    O Eça sempre atual!
    DC

    Responder

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