A Lisboa de Eça

Jardim de S. Pedro de Alcântara

Os termos em que me acerco de Lisboa enquanto componente da ficção queirosiana não se confundem com abordagens que seguem aquilo a que chamo a lógica do roteiro. Com uma legitimidade que se não põe em causa, aquelas abordagens fixam-se sobretudo nos aspetos materiais do espaço urbano, de um ponto de vista meramente descritivo e obedecendo a intuitos de localização que escassamente se reportam aos grandes sentidos da ficção queirosiana. Uma ficção que, reconheça-se, é por natureza convidativa a este tipo de trabalho, por força da presença de cenários e de marcos urbanos em textos em que o espaço com frequência tem um valor estruturante; um espaço que, para mais, está relativamente próximo de nós e como que disponível, por isso, para aquela lógica do roteiro, enquanto processo “reconstrutivo” e descritivo, baseado no imediato vaivém entre a ficção e o real.
Num outro tipo de tratamento (a meu ver ainda mais rudimentar do que aquele), procura-se cruzar a biografia do escritor com a cidade em que ele viveu ou por onde passou, com a intenção expressa ou velada de “explicar” a ficção. E assim, a atenção do estudioso fixa-se na rua que Eça percorreu, na casa onde viveu, no café que frequentou, etc. No final das contas, esta relação estreitamente biografista entre o escritor e a sua obra enleia-se em explanações falaciosas que ignoram as instâncias modelizadoras do discurso ficcional, os procedimentos de figuração (dizendo respeito, em particular, ao desenho e à caracterização das personagens e dos seus movimentos em espaço urbano), os filtros de perspetivação ou os dispositivos de enunciação narrativa, todos desaconselhando leituras à clef, cujo alcance hermenêutico é inevitavelmente escasso ou até nulo.
A minha Lisboa queirosiana não é esta, nem é toda ela. Digo toda ela porque, de facto, Lisboa constitui, na obra de Eça (e em especial nos romances) uma presença reiterada e alargada, decorrendo essa presença dos termos em que o escritor concebeu e procurou desenvolver um projeto literário de reforma de mentalidades e de crítica de costumes. Um tal projeto tem o seu epítome na atenção que, para Eça, o romance realista deveria dar à “burguesa da baixa, em Lisboa, no Ano da Graça de 1879” (cf. Almanaques e outros dispersos. Edição de Irene Fialho. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2011, p. 357). A mulher, a burguesia, o centro de Lisboa e o presente vivido pelo escritor-observador são os limites do mundo social e urbano que havia que reformar. 
A capital deveria ser, sob todos os pontos de vista, o alvo por excelência dessa reforma, com os seus lugares de circulação e de sociabilidade, tanto pública como privada (ruas e praças, hotéis e teatros, monumentos e jardins, casas de família, etc.); e a existência de um romance, ainda que inacabado, que  menciona em título  A Capital(conforme foi restabelecido pela edição crítica de Luiz Fagundes Duarte), revela bem a proeminência de Lisboa em Eça, uma proeminência que naquele romance se articulava com experiências humanas às vezes dramáticas: é a personagem Artur Corvelo e o motivo da sua vinda para Lisboa que são sugeridos no subtítulo “Começos duma carreira”, igualmente recuperado pela edição crítica. 
Em certos passos da ficção queirosiana, sugere-se uma apropriação do país por Lisboa, espécie de metonímia expedita que autoriza uma personagem com vocação provocatória (João da Ega) a proferir afirmações tão redutoras como esta: “– Lisboa é Portugal (…). – Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento!…” (Os Maias. Lisboa: Livros do Brasil, s. d., p. 170). De forma não menos redutora, uma outra personagem, Gonçalo Mendes Ramires, explica assim a organização de Portugal e a macrocefalia de Lisboa: “Portugal é uma fazenda, uma bela fazenda, possuída por uma parceria. Como vocês sabem há parcerias comerciais e parcerias rurais. Esta de Lisboa é uma parceria política, que governa a herdade chamada Portugal… Nós os Portugueses pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis milhões que trabalham na fazenda, ou vivem nela a olhar, como o Barrolo, e que pagam; e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam a parceria, que recebem e que governam.” (A Ilustre Casa de Ramires. Edição de Elena Losada Soler. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda,1999, p. 180).

 Carlos Reis (de “Lisboa como paisagem: a cidade segundo Fradique Mendes”, in Colóquio/Letras, 179, janeiro/abril de 2012, com reajustamentos).

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