Eça e Machado: diálogo cancelado

Machado de Assis

O décimo quarto volume  da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós (Almanaques e outros dispersos. Ed. de Irene Fialho. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2011) abarca um conjunto de textos que, na sua  maioria, pouco dirão ao leitor que admira no grande escritor português sobretudo os seus  títulos “canónicos”. E contudo, aquele volume acolhe escritos de grande significado para se compreender a história literária de Eça, incluindo o seu não-diálogo com o confrade que no Brasil lhe corresponde em talento: Machado de Assis. É o caso de um texto que a crítica queirosiana conhece como “Idealismo e Realismo”, texto que aquela edição permite reavaliar: trata-se de um desordenado borrão, a que os acidentes da publicação póstuma deram a coerência que, no manuscrito, ele não evidencia. E contudo, aquele manuscrito inacabado constitui um testemunho eloquente do que poderia ter sido (mas não chegou a ser) o diálogo entre dois grandes escritores; disso mesmo tratou, em parte, o livro de Machado da Rosa, Eça, discípulo de Machado? (1963).
           

Resposta de Eça a Machado (fragmento; transc. diplomática por Irene Fialho)

É sabido que, na segunda metade do século XIX, Eça era já um escritor conhecido e  consagrado no Brasil. E é sabido também que, na época,  de Portugal e também da França chegavam ainda as tendências literárias com que a emergente literatura brasileira ia dialogando. Passava-se isto numa época e num quadro ideológico em que a independência política carecia da legitimação que lhe era conferida pela afirmação de uma literatura nacional; no muito citado texto em que reconhecia, na “atual literatura brasileira” e “como primeiro traço, certo instinto de nacionalidade”, Machado de Assis dizia também:   “Esta outra independência não tem Sete de Setembro nem campo de Ipiranga; não se fará num dia, mas pausadamente, para sair mais duradoura; não será obra de uma geração nem duas; muitas trabalharão para ela até perfazê-la de todo.” Para além daquilo que estas palavras significam, realço o seguinte: o longo ensaio de onde elas provêm,  “Notícia da atual literatura brasileira. Instinto de nacionalidade”, foi originariamente publicado não no Brasil, mas nos Estados Unidos (no jornal O Novo Mundo, em Nova York, a 24 de março de 1873), como se fosse estrategicamente conveniente afirmar fora do Brasil um impulso de autonomização literária que tinha também uma dimensão patriótica.
            Pois bem: um tal impulso não perturbava a atenção com que Machado  acompanhava a literatura portuguesa que então se publicava. Assim tinha que ser, também porque, nos anos 70, Eça protagonizara, juntamente com Ramalho Ortigão, um episódio com larga repercussão no Brasil e há muito estudado por Paulo Cavalcanti, no livro Eça de Queirós, agitador no Brasil (1959): as críticas sarcásticas ao Imperador D. Pedro II, quando da sua visita a Portugal, em 1872, insertas em algumas d’As Farpas desse ano.E assim, quando em fevereiro de 1878 aparece O Primo Basílio, logo Machado se debruça sobre ele, numa extensa  crítica publicada n’O Cruzeiro,  a 16 e a 30 de abril.  
            O que nele se encontra naquela análise tem muito da consabida rejeição machadiana de certos  aspetos do naturalismo, sobretudo pela sua  “viva pintura dos fatos viciosos” (Machado dixit), uma rejeição que aflorava  na citada “Notícia da Literatura Brasileira” e que se confirma em “A Nova Geração” (1879). Foi a isso que Eça quis reagir, não tendo esse intuito ido além, como o mostra o manuscrito inserto em Almanaques e outros dispersos, de uma tentativa abortada.
            Por que razão Eça não levou adiante a sua resposta é coisa que provavelmente nunca saberemos. Conjeturo, porém, que Eça se terá apercebido, quando já dominava a doutrina do naturalismo, de que aquele não era o seu caminho e que, por conseguinte, Machado tinha razão. Outro mistério: por que motivo ficou sem sequência o quase-diálogo entre os dois grandes romancistas e isto apesar de Eça ter estendido a mão a um debate que, tanto quanto se sabe, não chegou a existir. Por arrogância, por displicente descaso ou por tímido recato do autor de Dom Casmurro? Rejeito as primeiras hipóteses, aposto na última. Antes de a justificar, noto o seguinte: se Eça ficou a dever a Machado uma mudança de rumo que fez dele discípulo do colega brasileiro, talvez Machado tenha confirmado, com a leitura  d’O Primo Basílio,  que a matriz formal daquele romance  tinha de ser superada. E assim, depois de Iaiá Garcia (de 1878, como O Primo Basílio), Machado dá à estampa, em 1881, o genial Memórias Póstumas de Brás Cubas.  
            Em 16 de agosto de 1900, quando Eça morre em Paris, o seu prestígio brasileiro era inequívoco. Esse foi o momento para que Machado de Assis expressasse uma generosa e irrestrita admiração por Eça; fê-lo numa carta escrita a 23 de agosto de 1900 e endereçada a Henrique Chaves, a carta em que  Machado diz: “Para os romancistas é como se perdêssemos o melhor da família, o mais esbelto e o mais valido”. E logo depois: “Tal que começou pela estranheza acabou pela admiração”. O que é uma forma bem elegante de realçar o que foi, em Eça, a autossuperação potenciada pela crítica de Machado. Caso para dizer: para Eça, a carta chegou tarde de mais;  para a justa ponderação do seu talento de escritor, feita pelo mais destacado dos seus pares brasileiros, ela é um documento ainda oportuno e tocado por um nobre sentimento de justiça.

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1 Comentário

  1. Jessica Ariana

     /  4 de Janeiro de 2013

    O reconhecimento assumido vem geralmente sempre tarde, mas cedo ou tarde o que importa é que as críticas são construtivas e levam à quase-perfeição, uma vez que o perfeito não existe. É de certo uma situação admirável e “tocante”. Um bom discípulo não se contenta em ser tão bom como o seu “modelo”, quer superar a si mesmo e a quem sente admiração e eu creio que não há maior gozo que aquele que o “grande exemplo” do discípulo sente ao ver que conseguiu ser útil à construção artística do seu “seguidor” . A admiração e respeito é mutuo entre um bom discípulo e mestre, basta ver o caso de Machado e Eça. Mais uma vez, fantástico!

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