Evocação de Helena Cidade Moura

Helena Cidade Moura

O recente desaparecimento de Helena Cidade Moura deu lugar a várias e justas referências à sua atividade de intervenção cívica, resultado direto de uma forma de estar na vida que foi a sua, durante muitos anos. Com especial ênfase foi sublinhada a sua participação no campo da alfabetização, trabalho a que se consagrou depois do 25 de Abril, num tempo em que era já possível, sem falsos pudores, mostrar as nossas carências educativas. Helena Cidade Moura, que foi também dirigente do Movimento Democrático Português e deputada à Assembleia da República em várias legislaturas, fazia da luta pela cidadania uma causa que, com a firmeza quase obstinada que a caraterizava, jamais abandonou; o seu empenhamento na fundação e no desenvolvimento da Civitas, Associação para a Defesa e Promoção dos Direitos dos Cidadãos, testemunha a forma como se bateu pela dignificação e pela emancipação cultural e cívica de quantos puderam beneficiar de uma militância que Helena Cidade Moura começou a exercer em Portugal quando sobre nós pairavam ainda as nuvens do obscurantismo e quando era arriscado estar contra o poder.
Foi escassa ou nulamente lembrado, nas recentes evocações de Helena Cidade Moura, o labor que desenvolveu nos estudos queirosianos, em particular nos anos 60 e 70, depois de os descendentes de Eça de Queirós terem recuperado os direitos sobre a obra do grande escritor. A sua edição da obra de Eça, incidindo em especial sobre os chamados não-póstumos, marcou uma época e ajudou a formar muitos leitores que por aquela edição conheceram, fruíram e estudaram o autor d’Os Maias.
Sabe-se hoje que as edições dos Livros do Brasil não são perfeitas, como dificilmente seriam, num tempo em que não parecia haver condições para levar a cabo a edição crítica da obra do escritor, coisa que só agora está a acontecer. E contudo, mesmo nesse difícil e não raro mal compreendido domínio da crítica textual adentrou-se Helena Cidade Moura: a sua edição crítica das três versões d’O Crime do Padre Amaro, publicada em dois volumes pela Lello, em 1964, constituiu um primeiro e corajoso passo num terreno onde são mais os obstáculos e as dúvidas do que as facilidades e as certezas.
No decurso do seu trabalho manteve Helena Cidade Moura contacto estreito com D. Maria d’Eça de Queiroz, filha do grande escritor. E foi pela sua mão que o mestre inesquecível dos estudos queirosianos, Ernesto Guerra da Cal, visitou Tormes (onde então se encontrava o espólio queirosiano, hoje na Biblioteca Nacional), ali recolhendo importantes elementos de trabalho para a sua monumental Bibliografía Queirociana. Há testemunhos epistolares daqueles anos que um dia valerá a pena conhecer.
Carlos Reis

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