Editar A Correspondência de Fradique Mendes (1)

Não são de resolução fácil as decisões atinentes à escolha, para efeitos de uma edição crítica, do texto base d’A Correspondência de Fradique Mendes, incluindo o corpus epistolar que a integra.
Convém lembrarque as decisões que levaram à construção do macrotexto que é a  edição em livro de 1900 (seja quem for que tomou tais decisões) acabaram  por condicionar o nosso trajeto de leitura do epistolário de Fradique Mendes, a configuração da sua personalidade e a imagem que dele a posteridade constituiu. Uma posteridade que agora já o não é apenas em relação ao poeta das Lapidárias,  mas também em relação ao próprio Eça de Queirós, tendo em vista a ilustração do seu cânone textual e a sua estabilização. Deste ponto de vista, A Correspondência de Fradique Mendes não está só: O Livro de Cesário Verde e o Livro do Desassossego de Bernardo Soares fazem-lhe, antes e depois, uma ilustre companhia, enquanto livros póstumos e instáveis, como o são outros casos geniais que a nossa literatura conhece, a começar pelas Rimas de Camões. Irónica ou premonitoriamente, o próprio Fradique contribuiu para aquela instabilidade, pondo em causa, por razões temperamentais e por opções calculadas, a própria possibilidade de existência do livro enquanto tal.

Prova d’A Correspondência de Fradique Mendes

O narrador e biógrafo de Fradique afirma, a propósito do espólio do amigo, “que nesse cofre de ferro, perdido num velho solar russo, não existe uma obra – porque Fradique nunca foi verdadeiramente um autor” (A Correspondência de Fradique Mendes,  Porto: Livraria Chardron de Lello e Irmão Editores, 1900,  p. 111). E Fradique ele mesmo confirma a razão de uma tal ausência: explicando a sua recusa em escrever um livro sobre África,  declara perentoriamente a sua incapacidade de escrever “uma prosa como ainda não há!” E conclui: “– E como ainda a não há, é uma inutilidade escrever. Só se podem produzir formas sem beleza: e dentro dessas mesmas só cabe metade do que se queria exprimir, porque a outra metade não é redutível ao verbo.” (p. 115).

Sabendo-se desde logo que lidamos aqui com um semi-póstumo, importa ter em conta que a sua feição em parte macrotextual (referimo-nos, evidentemente, à coleção constituída pelo epistolário fradiquista) obriga a colocar as questões quanto à escolha das cartas que devem integrar o epistolário e quanto  à sua ordenação. Acresce a estas uma outra, já formulada: que destino deve ser dado às cartas que não integraram a edição de 1900, em geral conhecidas como Cartas Inéditas de Fradique Mendes?

(Da Introdução à edição crítica d’A Correspondência de Fradique Mendes, por Carlos Reis, Irene Fialho e Maria João Simões. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, no prelo).

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