Editar A Correspondência de Fradique Mendes (2)

Estamos aqui a lidar com uma das mais fascinantes, complexas e polissémicas obras de Eça de Queirós. Justamente por isso, nos últimos anos A Correspondência de Fradique Mendes tem sido revalorizada, pelos estudos e pelos estudiosos que neste chamado último Eça leem sentidos de sinuosa modernidade e de densa problematização da escrita literária, das tendências estéticas finisseculares e da relação do escritor com a sua posteridade.

Primeira aparição de Fradique Mendes na Revolução de Setembro (1869)

Lembremos aquilo que é fundamental, no que respeita à construção deste epistolário e do seu autor, uma vez que essa construção insinua sentidos e procedimentos que, sem serem um guião de trabalho para a edição crítica, hão de estar nela presentes, com o distanciamento que a crítica textual recomenda. Como se sabe, Carlos Fradique Mendes revela-se em 1869, então como poeta satânico, inventado, num gesto de provocação anti-burguesa, por Eça, Antero de Quental e Jaime Batalha Reis; logo de seguida, em 1870, assoma fugazmente n’O Mistério da Estrada de Sintra. O Fradique que aqui interessa é o que, depois de anos de silêncio, reaparece em meados dos anos 80, retomado e reelaborado por Eça apenas, conforme proposta que o escritor endereça a Oliveira Martins e a que adiante voltaremos, de forma necessariamente breve. É um amigo deste derradeiro e amadurecido Fradique Mendes – amigo que só em jeito de simplificação acrítica poderíamos confundir com Eça de Queirós – que se institui como biógrafo e editor de cartas dessa figura singular. Recorde-se que, em vida, Fradique conheceu Baudelaire, foi companheiro de Garibaldi, amigo de Victor Hugo e íntimo de figuras relevantes da vida pública e cultural portuguesa da segunda metade do século XIX: Antero de Quental, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, etc.

O Carlos Fradique Mendes que, a partir de 1888, conhecemos como epistológrafo é também um poeta de escassa produção e pensador atípico, corporizando uma invenção que vai além do estatuto da mera personagem ficcional (como o são, em Eça, o conselheiro Acácio, o padre Amaro ou Teodorico Raposo) e fica aquém do estatuto do heterónimo acabado, como virão a sê-lo os heterónimos pessoanos. Mas não é isso que importa agora. O que neste momento interessa é a condição do poeta quase inédito e autor de cartas que se trata de dar a conhecer postumamente, como importa também a questão da escrita, protagonizada por quem dela tinha uma conceção claramente material e plástica, no plano escritural e no plano estético; e cabe ainda, em função de tudo isso, analisar outras questões que apontam quase todas para atitudes operatórias que o trabalho de edição crítica solicita: a questão da posteridade, a da publicação de póstumos, a do trabalho editorial e seu âmbito de ação, a dos legatários de espólios e sua responsabilidade. O que, tudo por junto, remete para uma espécie de Fradique perdido e agora, graças aos manuscritos de que dispomos, parcialmente reencontrado.

(Carlos Reis, da introdução à edição crítica d’A Correspondência de Fradique Mendes; no prelo)

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