Eça de Queirós em formato Globo

João da Ega por Bernardo Marques (pormenor)

João da Ega por Bernardo Marques (pormenor)

Há um passo d’Os Maias que bem pode servir de ponto de partida e motivação para o que se segue. Refiro-me ao episódio em que, no capítulo XVIII, Carlos da Maia toma conhecimento da trágica situação que o atingiu: tendo chegado de Paris um tal Sr. Guimarães, talhado para mensageiro involuntário da desgraça, Carlos da Maia passa então da ignorância ao conhecimento (como queria a Poética aristotélica), pela palavra inábil do procurador Vilaça. É nesse momento que o protagonista se apercebe não exatamente de qual a sua verdadeira identidade pessoal, mas, de certa forma, a da sua família; justamente aquela perceção decorre de um reconhecimento (anagnórisis) que arrastará a catástrofe familiar: Maria Eduarda é filha de Maria Monforte e irmã de Carlos da Maia com quem mantém uma ardente relação amorosa.

A situação é, evidentemente, dramática, numa aceção plural do termo, que remete também para o potencial de teatralidade que ela encerra. Consciente disso, Eça de Queirós acentua aquele potencial, quando nos mostra Carlos da Maia, perante Vilaça que sai e João da Ega que chega, incrédulo e abalado: “Parecia ter conservado um ânimo viril e firme: apenas os olhos lhe rebrilhavam, com um fulgor seco, ansiosos e mais largos na palidez que o cobria”. É então que o amigo de sempre se prepara para contar pormenores e sobretudo para compartilhar com o protagonista, em registo de confiante intimidade (a intimidade que o procurador não tinha com Carlos), a desgraça que se está a abater sobre a família dos Maias. Vilaça prepara-se, então, para sair:

O procurador, com o lenço na mão, lançou em redor um olhar lento. Depois espreitou debaixo da mesa. Parecia muito surpreendido. E Carlos seguia com impaciência os passos tímidos que ele dava pelo quarto, procurando…
– Que é, homem?
– O meu chapéu. Imaginei que o tinha posto aqui… Naturalmente ficou lá fora… Bem, se for necessário alguma coisa…
Mal ele saiu, atirando ainda os olhos inquietos pelos cantos, Carlos fechou violentamente o reposteiro. E voltando para o Ega, caindo pesadamente numa cadeira:
– Dize lá!
Ega, sentado no sofá, começou por contar o encontro com o Sr. Guimarães, em baixo, no botequim da Trindade, depois de ter falado o Rufino. O homem queria explicações sobre a carta do Dâmaso, sobre a bebedeira hereditária… Tudo se aclarara, ficando daí entre eles um começo de familiaridade…
Mas o reposteiro mexeu de leve – e surdiu de novo a face do Vilaça:
– Peço desculpa, mas é o meu chapéu… Não o acho, havia de jurar que o deixei aqui…
Carlos conteve uma praga. Então Ega procurou também, por trás do sofá, no vão da janela. Carlos, desesperado, para findar, foi ver entre os cortinados da cama. E Vilaça, escarlate, aflito, esquadrinhava até a alcova do banho…
– Um sumiço assim! Enfim, talvez me esquecesse na antecâmara!… Vou ver outra vez… O que peço é desculpa. (…)
Novamente o reposteiro franziu, Baptista pediu perdão a Suas Excelências:
– É o Sr. Vilaça que não acha o chapéu, diz que o deixou aqui…
Carlos ergueu-se furioso, agarrando a cadeira pelas costas, como para despedaçar o Baptista.
– Vai para o Diabo tu e o Sr. Vilaça!… Que saia sem chapéu! Dá-lhe um chapéu meu! Irra!
Baptista recuou, muito grave. (Os Maias, cap. XVII)

O que pretendo evidenciar está à vista: nada mais burlesco do que misturar as emocionadas revelações que estão a chegar, com a desajeitada procura de um chapéu que se sumiu. O contraste entre aquela emoção e o sumiço do chapéu, vividos numa cena dialogada que não pode deixar de irritar Carlos da Maia, deriva para o tragicómico, bem justificado pela impenitente vocação queirosiana para a irrisão, mesmo quando estão em causa factos e vivências como os que aqui se encontram. Apetece dizer: aquele episódio está a pedir uma adaptação teatral; ou televisiva; ou cinematográfica. Em suma: uma reescrita que, por processo de transcodificação, contemple uma representação, um meio e uma linguagem que prolonguem e até aprofundem as virtualidades dramáticas de que falei.

C. Reis, de “Eça de Queirós em formato da Globo” (versão integral)

os maias Globo

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