O insólito n’Os Maias

João da Ega por Wladimiro A. de Souza

João da Ega por Wladimiro A. de Souza

Num passo d’Os Maias de Eça de Queirós, quando a ação do romance se vai aproximando do seu desenlace trágico, uma das personagens mais próximas do protagonista (de facto, o seu amigo e confidente) formula uma reflexão que bem introduz o tema que me interessa analisar, em conexão direta com a personagem, com as suas perceções e com os seus juízos. Trata-se de João da Ega, inopinadamente confrontado com uma verdade terrível: Carlos da Maia é irmão de Maria Eduarda, a mulher por quem se apaixonou e com quem mantém uma ligação amorosa. Tal como na tragédia antiga, a notícia do incesto foi trazida por um mensageiro de circunstância, que, no caso, nem se apercebeu da catástrofe familiar que estava a desencadear, com essa notícia anunciada com singeleza e sem propósito doloso.

É então que João da Ega, imerso em comoção e perplexidade, reflete sobre o absurdo de uma tal situação: “Era acaso verosímil que tal se passasse, com um amigo seu, numa rua de Lisboa, numa casa alugada à mãe Cruges?… Não podia ser! Esses horrores só se produziam na confusão social, no tumulto da Meia Idade! Mas numa sociedade burguesa, bem policiada, bem escriturada, garantida por tantas leis, documentada por tantos papéis, com tanto registo de batismo, com tanta certidão de casamento, não podia ser! Não! não estava no feitio da vida contemporânea que duas crianças, separadas por uma loucura da mãe, depois de dormirem um instante no mesmo berço, cresçam em terras distantes, se eduquem, descrevam as parábolas remotas dos seus destinos – para quê? Para virem tornar a dormir juntas no mesmo ponto, num leito de concubinagem! Não era possível.” (Os Maias, cap. XVI).

Aquilo que deixa João da Ega confuso e revoltado tem, como já se percebeu, a feição do insólito. Ou seja: trata-se de algo que vem corroer uma “normalidade” e uma verosimilhança que nada parecia capaz de abalar: o “feitio da vida contemporânea” e a “sociedade burguesa, bem policiada, bem escriturada, garantida por tantas leis” são incompatíveis com a subversão de uma ordem que o tempo do racionalismo positivista reforçava, como crença e como filosofia de vida aparentemente inatacáveis.

É isto que quero desde já sublinhar: há um insólito modelado pela ficção a que chamamos realista e de base verosímil, insólito que se manifesta como tal não em si mesmo ou só por si mas contra uma lógica que nada parece capaz de abalar. Nessa lógica ressoa uma certa historicidade e o timbre de um contexto particular, em função dos quais se decide o insólito e se ponderam os seus efeitos; como se, naquele tempo de “normalidade” socialmente controlada, não houvesse para o insólito outro lugar que não fosse o das ficções ousadas. Diz-se no texto, logo depois: “Tais coisas pertencem só aos livros, onde vêm, como invenções subtis da arte, para dar à alma humana um terror novo…” Recordo que quem isto sugere é João da Ega, uma personagem de ficção que, com inocente naturalidade, ignora que é, ele também, parte de uma invenção da arte.

Alargo o âmbito destas considerações e acentuo a questão da historicidade, apontando para a dimensão contextual das Vertentes do Insólitorepresentações do insólito. De forma mais explícita e um tanto redutora: não há, nos textos literários, um insólito em absoluto ou em abstrato, ou seja, fora de contexto; há um insólito (ou até vários insólitos) que os românticos elaboram no quadro mental e cultural do romantismo, como há um insólito barroco, um insólito realista, um insólito surrealista, um insólito pós-modernista e assim por diante. O que, evidentemente, conta com a aceitação dos princípios da periodização literária, entendida como resultado de “reconstrucciones experimentadas del pasado [que] son «ficciones de verdad» gramaticales y textuales”, diz George Steiner em Presencias reales (1991, pp. 202-203), enquadrando e organizando discursivamente o nosso “diálogo com o passado e o de uns com os outros acerca do passado”, palavras de David Perkins (Is Literary History Possible?, 1992, p. 14).

        (C. Reis, “Figurações do insólito em contexto ficcional”, in Flavio García e M. Cristina Batalha (orgs.), Vertentes teóricas e ficcionais do Insólito. Rio de Janeiro: Caetés, 2012; (ler texto integral).

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