A Morte do Diabo

digitalizar0004          Há algum tempo, Irene Fialho localizou, no espólio de Augusto Machado que se encontra na Biblioteca Nacional, uma partitura incompleta. Rastreando referências dispersas em textos de Batalha Reis e de Eça, Irene Fialho identificou a dita partitura: tratava-se de uma opereta em elaboração a seis mãos, A Morte do Diabo, com música de Machado e libreto de Eça de Queirós e Jaime Batalha Reis. São esses documentos que o volume A Morte do Diabo. Fragmentos de uma Opereta (edição Caminho) agora dá a conhecer. Para tal, Irene Fialho e José Brandão transcreveram, respetivamente, o libreto e a partitura, neste último caso com colaboração de Dinis Duarte Silva. Completa-se a edição com dois circunstanciados estudos: de Irene Fialho, “«A Morte do Diabo» e as «Visões» de Carlos Fradique Mendes. Criações coletivas no Cenáculo”; de Mário Vieira de Carvalho: “A Morte do Diabo no contexto da cultura músico-teatral em Lisboa e do discurso crítico de Eça de Queirós”.
O contexto epocal em que decorre a aventura compositiva d’A Morte do Diabo é bem sugestivo, no que toca ao envolvimento de Eça e Batalha Reis. É esse o tempo (falo da segunda metade dos anos 60) em que Eça colabora na Gazeta de Portugal, com folhetins depois recolhidos nas Prosas Bárbaras (1903), avança para a breve aventura do Distrito de Évora, concebe e dá voz poética (com Batalha e Antero) ao primeiro Fradique Mendes, viaja ao Egito e à Palestina e empreende com Ramalho Ortigão o divertido e provocatório romance O Mistério da Estada de Sintra.
É bem sabido que tudo isto teve, para Eça, uma relevância formativa indiscutível, como se o jovem escritor em fase de aprendizagem estivesse à procura de caminhos literários a seguir. Antero de Quental apontou alguns desses caminhos, quando levou os jovens do Cenáculo a participarem nas Conferências do Casino, em 1871. O Eça finissecular de 1896 evocou, em “Um Génio que era um Santo”, esse tempo e o amigo que o liderara: “Aí Antero apareceu numa fria manhã – e foi aclamado. (…) E do Cenáculo, donde, antes da vinda de Antero (…), nada poderia ter nascido além de chalaça, versos satânicos, noitadas curtidas a vinho de Torres, e farrapos de Filosofia fácil, nasceram, mirabile dictu, as Conferências do Casino, aurora dum mundo novo que depois, ó dor, creio que envelheceu e apodreceu…” Batalha Reis não esqueceu também esses tempos de boémia e tertúlia, de satanismo e paródia, mas igualmente e cada vez mais de empenhamento social; lembro os textos “Anos de Lisboa” (inserto, como “Um Génio que era um Santo”, no In Memoriam de Antero) e a admirável introdução “Na primeira fase da vida literária de Eça de Queirós”, que Batalha compôs para a primeira edição das Prosas Bárbaras.
De muito disto falam-nos Irene Fialho e de Mário Vieira de Carvalho na edição d’A Morte do Diabo. Num registo de interdisciplinaridade que convoca a crítica textual, a musicologia e a história literária, a edição rege-se por critérios claros, tanto quanto à natureza dos materiais, como tendo em vista o propósito editorial a atingir; no mesmo sentido, a transcrição da partitura, conforme assinala José Brandão, respeita o “caráter embrionário do seu texto musical” (p. 108). Ou seja: não se pretende fazer deste inédito mais do que aquilo que ele é; e não se cede à tentação do sensacionalismo publicitário que há alguns anos motivou o triste caso d’A Tragédia da Rua das Flores.

Eça cerca de 1870

Eça cerca de 1870

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