Eça dramaturgo falhado

Ms. 233 do Espólio de Eça

Ms. 233 do Espólio de Eça

Numa entrevista concedida em 1945, a propósito da adaptação teatral d’Os Maias, José Bruno Carreiro referiu-se às dificuldades que teve que superar para levar a cabo a dita adaptação (cf. J. Bruno Carreiro, Os Maias. Adaptação teatral do original de Eça de Queirós, edição de 1984 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda). Por exemplo: a eliminação de “muitas cenas, com grande interesse” e a necessidade de o trabalho dramatúrgico se concentrar no “drama Carlos-Maria Eduarda” e no “indispensável para criar o ambiente em que se desencadeia esse drama” (pp. 25-27).
Bruno Carreiro certamente ignorava que Eça passara por constrangimentos semelhantes, uma vez que, tendo tentado uma adaptação do seu romance, acabou por desistir da empresa. Sabemo-lo porque no espólio queirosiano que se guarda na Biblioteca Nacional existe um manuscrito (Esp. E1/233) que resultou dessa tentativa abortada. Trata-se da planificação de dois atos, esboçada pelo escritor supostamente antes de avançar para a escrita do texto dramático propriamente dito e não chegando a contemplar eventos e figuras cruciais da ação d’Os Maias. Anunciado no elenco de personagens, Afonso da Maia não reaparece no manuscrito; por outro lado, a intriga do incesto encontra-se longe do seu desenlace, quando se atinge o final do segundo dos dois atos planificados..
Parece claro, quando lemos este manuscrito, que Eça se preocupou sobretudo em fixar nele os elementos fundamentais que a escrita dramática deveria trabalhar: o elenco de personagens, a matéria dos atos, os cenários, com pormenores como a iluminação e a música. Tudo isto escrito aparentemente de um jato e já depois de publicados Os Maias: há no manuscrito frequentes remissões para as páginas do romance – sintomaticamente, aquelas em que abunda o diálogo –, o que sugere que a dramatização seguiria de perto o desenvolvimento do relato.
Com exceção de um fragmento de cena já composta e que na arrumação do espólio foi integrada neste manuscrito 233, nada mais se conhece deste impulso queirosiano para a escrita destinada ao teatro, em adaptação do que fora concebido como narrativa. Mas são bem evidentes as potencialidades dramáticas dos relatos queirosianos, com destaque precisamente para Os Maias. Para só dar um exemplo, lembre-se a cena de revelação do incesto, no capítulo XVII, envolvendo Carlos da Maia, João da Ega e Vilaça – que no momento mais tenso do diálogo procura o chapéu que se sumira… Num outro plano, é conhecida uma carta de Eça a Augusto Fábregas (autor da adaptação teatral d’O Crime do Padre Amaro) em que expressamente é dito: “O único dos meus livros que sempre se me afigurou próprio a dar um drama patético, de fortes carateres, de situações morais altamente comoventes, é o meu romance «Os Maias»” (carta de 6 de maio de 1890).
Pelo que toca à escrita queirosiana, o romance Os Maias ficou como era: um grande e admirável romance. Aparentemente, Eça não foi capaz de concentrar, numa ação dramática inevitavelmente redutora, vastíssimos cenários e lapsos temporais alargados, forçando-se a supressões difíceis de aceitar. O nível de exigência artística do grande romancista era, como ele disse em carta de 20 de fevereiro de 1881 a Ramalho Ortigão, o de quem, em modo narrativo e não dramático, originalmente desejara uma obra “em que (…) pusesse tudo o que [tinha] no saco”.

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1 Comentário

  1. Luís Martins

     /  24 de Julho de 2013

    sintético, mas extremamento informativo. Obrigado

    Responder

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