“Os Maias” depois de Eça

Os Maias depois de Eça

Centro-me num romance, Os Maias de Eça de Queirós, e num recente prolongamento da sua vida enquanto obra literária escrita e publicada em 1888. A questão prévia é esta: com essa publicação ficou o genial romance de Eça definitivamente “fechado” nas páginas daquela edição em dois volumes? Noutros termos: o que (e porquê) contribuiu para que Os Maias tivessem permanecido, até hoje e por muito tempo mais, como relato ativo e presente na nossa vida cultural? Como ganhou o romance a vida que tem e terá? Estas interrogações acham-se sintetizadas numa pergunta que parafraseia um título de Saramago, a partir de uma fala atribuída a Camões (também ele autor de um livro que, perdoe-se a expressão, tinha muito futuro…). A pergunta: que temos feito com este livro?
O que temos feito com Os Maias é bem sabido: edições e reedições, leituras críticas, estudos de história e de sociologia literária, ensino nas escolas e nas universidades, interpretações iconográficas, versões televisivas, adaptações teatrais, etc. De tudo isso e por tudo isso Os Maias ganharam uma intensa sobrevida, muitas vezes trivializada quando, em termos redutores, falamos da atualidade do romance. Digo trivializada para me reportar a leituras de fôlego curto, aquelas que têm da atualidade da obra uma noção meramente projetiva, traduzida na tentativa de encontrar semelhanças comportamentais e mentais entre figuras e eventos de um grande romance e figuras e eventos da nossa realidade atual. Não é essa a atualidade que contribui para que uma obra literária transcenda o seu tempo, na aceção mais exigente do termo, mas não é disso que me ocupo agora.
A continuação d’Os Maias por seis escritores que aceitaram o repto de prolongar no século XX personagens e ações saídas do romance – merece ponderação. E merece-a, antes de mais, a partir de uma bem forte convicção que há muito tempo assumi: Os Maias parecem ter sido escritos para serem continuados.
Eça deu sinais discretos de que haveria alternativas para o desenrolar da ação. Um exemplo: no segundo capítulo, conta-se um acidente de caça em que Pedro da Maia fere Tancredo, exilado italiano que virá a fugir com Maria Monforte; é perante esta que Pedro, em momento de grande consternação, desabafa: “Isto só a mim, Senhor! E então o Alencar, que ia mesmo ao pé dele… Podia antes ter ferido o Alencar, um rapaz íntimo, de confiança! Até a gente se ria. Mas não, zás, logo o outro, o de cerimónia…” Deixo de lado o que Alencar pensaria da “amigável” hipótese assim aventada e digo: expressamente, coloca-se a hipótese de um outro curso dos acontecimentos (e não comento também o que há de simbólico na má pontaria de Pedro…): se o ferido fosse Alencar, haveria adultério, fuga e incesto? Nunca o saberemos, até que alguém, com talento e ousadia, decida retomar Os Maias a partir daquele tiro desajeitado, corrigindo duas trajetórias, a da bala e a da história.
Seria isto uma ofensa ao grande romance de Eça? Certamente, mas só para quem confundir canonização (e Os Maias são, de facto, uma obra do cânone) com sacralização. Continuar Os Maias, num outro tempo e com autoria determinada, não é ofender a memória de Eça, nem desrespeitar o seu legado, mas antes uma forma de o homenagear, sempre que se trate não de uma mera imitação, mas de uma resposta a desafios e a interrogações que o romance encerra. De resto, foi isso que o próprio Eça tratou de fazer, ainda que em registos próprios – que eram os do seu tempo, um tempo que não conhecia as derrogações pós-modernistas que vieram mais tarde… Explico-me: depois do regresso a Lisboa, em 1887 e já no final do relato, Carlos da Maia ganhou uma sobrevida, consubstanciada num outro Carlos, o Fradique Mendes que, sem ser exatamente uma personagem de romance, acentua os traços que o protagonista d’Os Maias exibe no seu passeio por Lisboa (foi António José Saraiva quem há muito o notou).
De modo que, como dizia uma personagem d’O Crime do Padre Amaro, nada de sustos. A vida d’Os Maias não é, restritivamente, a das figuras que atravessam a sua história, que nela nascem, vivem, amam e um dia morrem (se é que morrem: não acontece assim com Carlos, Ega ou Maria Eduarda); a vida d’Os Maias é a que soubermos incutir a um extraordinário romance, em diferentes modos e discursos eventualmente derivados dele, conscientes como devemos estar de que uma grande obra literária nunca está acabada.

(Excerto de texto publicado em Expresso/Atual, 27 de julho de 2013, pp. 34-35)

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2 comentários

  1. Eu li o texto na íntegra e talvez a maior dificuldade que me “tolhe” seja o de encontrar os termos precisos para felicitar o autor do texto, que fala de outro autor e de outro texto (Eça compreenderia que eu falasse assim de quem tão bem o estudou e estuda). Encho o peito… e afirmo: cada um no seu registo, claro, mas estamos no mesmo padrão de qualidade da escrita, uma escrita sempre cristalina, elegante, concisa, o mesmo padrão de argumentação e análise, sempre bem fundamentada, abrangente e imaginativa. Que os Maias prossigam, talvez “ainda o apanhamos”, não o americano mas o que ele nos quis dizer!
    Um abraço.

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  2. rui esteves

     /  12 de Agosto de 2013

    Acabei de ler O Rio Somos Nós, de José Rentes de Carvalho, continuação dos Novos Maias.
    Estamos em 1937, a Guerra Civil em Espanha, o início da chacina dos judeus na Alemanha, Salazar inicia o seu longuíssimo consulado, e Carlos da Maia vive na Quinta da Pestaninha, no Alto Douro.
    Carlos continua só, nunca ultrapassou o drama que viveu com a irmã, e olha com desgosto para o desperdício de toda uma vida.
    João da Ega, que também está só, com alguns filhos bastardos à perna, vive com aflição os últimos tostões da herança da mãe e da tia de Celorico.
    Ega vem visitar Carlos e há uma réplica do jantar em Tormes, com aqueles pratos da cozinha tradicional portuguesa que o Eça tanto apreciou.
    A noite cai, Carlos e Ega conversam à varanda, fumando, vencidos e saudosos da vida que viveram, e Ega morre sem ruído.

    Rentes de Carvalho foi brilhante e escreveu uma digna continuação dos Maias.

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