Desastre literário

Eça cerca de 1870

Eça cerca de 1870

Os incidentes que rodearam a publicação dO Crime do Padre Amaro – ou melhor, do primeiro O Crime do Padre Amaro, em 1875 – constituem um episódio decisivo para o amadurecimento literário de Eça de Queirós; consequência imediata desse amadurecimento foi, desde logo, o labor de aperfeiçoamento a que Eça se consagrou, até chegar à versão definitiva do seu romance. Não por acaso e de acordo com um testemunho de Fialho de Almeida, Oliveira Martins teria dito, a propósito d’O Crime do Padre Amaro, que aquele fora “o único romance que Eça trouxera no ventre”. A esta afirmação facilmente se associa a máxima antiga e de alcance muito mais geral, com inteira justeza enunciada também acerca da presente obra de Eça: habent sua fata libelli.
O romance O Crime do Padre Amaro tem, de facto, um destino singular e, antes disso, um trajeto de longa incubação. Destino tão singular que dele pode dizer-se que corresponde não só à parte importante de um certo percurso estético-ideológico, como simultaneamente traduz uma ética da criação artística que os anos tratarão de apurar.

Antes, entretanto, de analisarmos esse episódio fundamental (e nalguns aspetos ainda mal conhecido) da formação de Eça, avance-se o seguinte: que os depoimentos, sobretudo epistolares, que, para o efeito se recolhem, hão de ser relativizados em função de fatores de distorção a que convém estar atento; o epistolário queirosiano (ainda não estudado de forma sistemática), é certamente um corpus altamente sugestivo, pelas informações que encerra, mas não deve, por isso, levar-nos a esquecer o que, afinal, não se passa só com Eça: que, nas suas cartas, o escritor tende, não raro, a encenar explicações ou a ocultar motivações. E muitas vezes não é só o destinatário imediato que é visado: é também um destinatário mediato, inscrito na posteridade, destinatário outro não menos importante do que o primeiro, em quem o escritor provavelmente também pensa, ainda que obviamente o não diga de forma expressa. A esse destinatário outro endereçam-se, por vezes, de forma enviesada, explicações que podem não convencer o primeiro, mas que, a prazo, ilustrarão aspetos importantes da vida literária do escritor.

(continuar a ler)

O Sonho de Amélia, por Paula Rego

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