Eça e o Oriente

David           No tempo de Eça de Queirós, o Oriente estava na moda. E também na ordem do dia, do ponto de vista político, pois que por lá se decidiam questões relevantes de que dependiam poderes imperiais e interesses económicos. Mas nesse mesmo  tempo, o Oriente era vastíssimo e incluía muitas terras, muitas gentes e muitas culturas. Do chamado Próximo Oriente ao Japão, dito do Sol Nascente para quem o considerava a partir de um lugar de observação eurocêntrico, iam distâncias consideráveis. Entre a Europa e o Japão estava o Império do Meio (entenda-se: no centro do planeta),  ou seja, a China que resistia aos ventos da Revolução Industrial e que só pela força militar usada nas chamadas Guerras do Ópio se foi abrindo ao comércio com o Ocidente. A pouco e pouco,  os estrangeiros deixaram de ser, como até então, “bárbaros”. Arrastam-se estas tensões e os derivados conflitos bélicos por várias décadas, ao longo do século XIX, com consequências que o Eça da segunda metade de oitocentos conhecia bem, sendo, como era, leitor atento da melhor imprensa de então.

Como quer que seja, o Oriente – e sobretudo o mais longínquo dele – conservava um exotismo e um mistério a que só raros viajantes acediam. Na época, não havia ainda o banal turista massificado de hoje, mas o endinheirado e culto touriste, assim à francesa, como Eça escrevia. Não espanta, por isso, que, afastando-se de uma Lisboa que  assistira ao trágico colapso moral da família dos Maias, Carlos Eduardo  e João da Ega, os dois “simpáticos touristes”, como se lê no capítulo final d’Os Maias, tenham alargado os passos e as vistas até à China e ao Japão. Quando regressa, Ega aproveita o impulso de viajante e exibe, na pacata Lisboa dos fins dos anos 70, uma familiaridade com o Oriente bem própria de quem queria embasbacar os concidadãos: “Vinha esplêndido, mais forte, mais trigueiro, soberbo de verve, num alto apuro de toilette, cheio de histórias e de aventuras do Oriente, não tolerando nada em arte ou poesia que não fosse do Japão ou da China, e anunciando um grande livro, o «seu livro», sob este título grave de crónica heroica – «Jornadas da Ásia».” (Queirós, s.d.a: 689)

Não se sabe se Ega chegou a escrever o tal livro, ele que foi sobretudo um escritor não consumado. O que se sabe é que Eça de Queirós viveu uma experiência similar, porventura projetada na sua personagem, enquanto viajante que muito observou, prometeu pelo menos um livro, mas não o publicou. O que não significa que, no plano da escrita, Eça se tenha reduzido ao silêncio.

(A publicar)

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