Carta Inédita de Fradique Mendes

AO SR. E. MOLLINET

Diretor da Revista de Biografia e História 

                        Lisboa, outubro

            Meu caro sr. Mollinet:

            Pede-me o meu amigo que lhe explique, com minúcia e paciência, quem são e como procedem estes jovens governantes que com mão ágil estão guiando o  meu país e que repetidamente têm desatado o alarido das gazetas e dos periodistas. Não serei eu a pessoa mais

Fradique Mendes por António

Fradique Mendes por António

indicada para o fazer, com o objetivo desassombro que de mim espera: pertenço ao bem acanhado número daqueles que, reconhecendo nos tais governantes um talento e um patriotismo que a vesga parcialidade dos meus concidadãos não alcança, só posso alardear louvores  e encómios que  a pena do velho Chagas (sempre este homem fatal!) não desdenharia. Mas sabendo bem das graves exigências de historiador a que o meu caro senhor Mollinet há de fazer frente, corro em seu auxílio e deixo-lhe, com traços bem largos e bem grossos, a breve análise que o  meu olhar balzaquiano permite.

Deixe-me que, antes de mais, lhe diga que os portugueses são um povo de gente ignara e ingrata. Longamente tenho observado este fenómeno que a nossa imatura  democracia exibe, para espanto de quantos, como eu, só devem reverência  e gratidão aos que  conduzem os nossos destinos: quanto mais esses que regem as nossas vidas breves se esforçam e se explicam, mais as mal agradecidas plebes lançam aos ventos a impudente e esganiçada gritaria da sua contestação incontida, erguendo-se a uma só voz contra medidas que  só deveriam provocar gozo e agradecimento. Mas assim são as coisas! De tal modo que uns poucos já vão, sem pudor nem discrição, louvando com saudade  os tempos remotos da Senhora D. Maria I, essa sagaz estadista  que ao pulso férreo do senhor intendente Pina Manique confiava a manutenção de  um recato que muito espantava a Europa de então, infestada de pedreiros-livres. Por qualquer razão oculta que não atinjo, alguns desses nostálgicos falam até, para se referirem a essa época de  austeros costumes, no tempo da outra senhora. A tanto chega a criatividade e o engenho dos meus patrícios.

O caso que agora despertou o curioso interesse do meu caro Sr. Mollinet conta-se em poucas palavras. Mais divagações são necessárias, contudo, para bem aprofundarmos a razão de ser (ou a sem-razão, como diria o nosso chorado José Maria) de tão ásperas críticas como as que temos lido e ouvido nos últimos dias. Acontece que um vice-primeiro ministro, de seu nome Paulo Portas, havia traçado, não se sabe  onde nem com que eficiente instrumento, uma firme e bem nítida linha vermelha. No lápis,  no pincel ou no giz (os historiadores tratarão de esclarecer esta dúvida) com que o fez havia o declarado propósito de dizer: daqui não passa a minha tolerância, relativamente aos direitos de velhinhas  e de reformados. Digo “reformados” porque o vice-primeiro ministro Portas é bem conhecido pela desenvoltura com que, para nosso gáudio e ilustração, renomeia coisas e conceitos: aquilo  que para muitos é  agricultura, para ele é “lavoura”; aos aposentados chama “reformados”; e  qualquer decisão a rever rapidamente – para ele é “irrevogável”.

Mas passemos. Acontece que, certamente por distraído e perdoável descuido, Portas esqueceu a tal linha. Fora ela riscada com a nitidez de que só os grandes estadistas dão prova, mesmo que, com  a língua de fora e transpirando de concentração,  tenham que lançar mão de uma sólida régua, daquelas com que antigamente os mestres-escolas ofereciam reguadas aos meninos madraços. Não sei se terá sido o caso. O que sei é que, ao que me dizem,  Portas ultrapassou a linha. Todavia,  ainda há dias, ao anunciar suaves medidas que sustentam as contas da Nação para o ano, glorioso entre todos, de 2014, o verbo sempre vibrante e garrido  do vice-primeiro ministro contornou, com uma habilidade que muitos nele louvam, uma ou outra insignificante decisão, porventura mais gravosa. Como essa a que alguns comentadores, perfidamente exigentes com a tal linha, têm chamado a “TSU das viúvas”,  seja lá o que for que estas enigmáticas palavras querem dizer.

Diferentemente do que esses plumitivos maldosos querem fazer crer, não vejo nas omissões do nosso Portas nem maldade nem sobranceria. Não está o vice-primeiro ministro atarefado com uma reforma do Estado que há tempos nos prometeu? Não serão esses operosos afazeres suficientemente absorventes para desculparem a  distração? E não é  verdade que daquela reforma, ansiosamente aguardada, há de sair obra que espantará o mundo? Não serão uma tal proeza e o talento de que se nutre suficientes para relevarmos o salto por cima da linha?

É  assim, meu caro senhor Mollinet, a desagradecida reação de espíritos estreitos que em tudo veem oculta aleivosia ou incompetência rude. Bem ignorantes são os que deste modo pensam; melhor fora que tivessem presente que este nosso governante e quase todos os seus colegas de Governo traziam consigo, quando se aconchegarem nas cadeiras do poder, vastos currículos de proezas que só os invejosos não reconhecem. Não é certo que quase todos ostentam vistosos diplomas passados por universidades das mais exigentes? Não é verdade que, depois disso, souberam construir vidas profissionais recheadas de sonoras realizações? E não passaram esses trajetos de sucesso  pela provação suprema  de enfrentar arrastadas reuniões, comités e comissões partidárias, daquelas em que se decide quem um dia há de subir as escadarias de São Bento?  Por muito que se esfalfem aqueles que entregam as suas vidas e as horas de que elas são feitas aos interesses supremos da Nação, nunca os meus ingratos concidadãos deixarão de sobre eles bolçar a baba ingrata da sua maledicência. Disso  mesmo se queixou, em tempos e irritadamente, um outro estadista, agora comentador de palavra cortante, e de nada lhe serviu.

Dizem-me que, por estas horas  e num Conselho de Ministros dominical (repare  o meu caro amigo que nem ao domingo esta gente descansa!), se está fechando o rol do deve e haver do Estado para o ano que vem. Que o bom Deus ilumine quantos tal empresa levam por diante; e que  lhes sejam leves as  malsãs denúncias que os críticos do costume hão de fazer nos próximos dias, quando vierem, com a vozearia que os distingue, apontar erros e excessos, linhas franqueadas e irrevogáveis decisões afinal revistas.

O que se há de fazer, meu caro senhor Mollinet, para conviver com tanta desfaçatez? Por mim, consolo-me no remanso de um refúgio doméstico que o  aroma de um  Vega Fina saboroso torna mais doce. E daqui não saio – a não ser para lhe assegurar, meu bom amigo, o afeto deste que com garbo lhe endereça um  rijo abraço  e que se assina,

 Carlos Fradique Mendes

Foto de João Girão/Global Imagens

Foto de João Girão/Global Imagens

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5 comentários

  1. Mas que maravilha de presente para receber num domingo chuvoso. Abençoado Eça!

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  2. Paula Lago

     /  13 de Outubro de 2013

    Sublime!

    Responder
  3. Cristina Vieira

     /  14 de Outubro de 2013

    Touché! Que drama para Portugal, a atualidade de Eça!

    Cristina Vieira

    Responder
  4. Paula Machado

     /  14 de Outubro de 2013

    Delícia de texto.

    Responder
  5. Ahahaha. Fradique Mendes versão 2013!

    Responder

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