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Uma enorme janela de reflexão, dizendo respeito ao tema da sobrevida das personagens, envolve os problemas levantados por isso a que Marie-Laure Ryan chamou transposição intermediática. Não entro por tal janela agora, embora gostasse.
Mas lembro que Eça de Queirós conheceu estas questões e outras conexas; e escreveu sobre elas, com a inteligência que lhe conhecemos. Grande criador de personagens (que muito têm sido contempladas por representações iconográficas, diga-se de passagem), Eça deixou-nos, acerca de alguns destes temas, um bem conhecido e magistral texto, verdadeiro guião para um curso de semântica da ficção. Trata-se de uma das Cartas Públicas do grande romancista, neste caso aquela em que se dá resposta a uma acusação formulada por Pinheiro Chagas: segundo o severo Chagas, Tomás de Alencar seria uma maldosa caricatura de Bulhão Pato. Na sua hábil refutação, Eça é bem claro: não foi a personagem que “imitou” a pessoa, foi esta que, afinal, se permitiu “entrar” abusivamente na personagem. Não trato de saber quem tem razão, Eça ou o intrépido Chagas. Conjeturo apenas (mas não posso demonstrá-lo agora) que Eça terá figurado Alencar a partir do retrato de Bulhão Pato, pintado por Columbano em 1883 e que este, ao pintar de novo Pato, em 1911, não pôde escapar à memória da imagem literária de Alencar; e o mesmo talvez tenha acontecido com a caricatura que o mano Rafael Bordalo Pinheiro publicou no Álbum das Glórias, em 1902. A ser assim, Alencar já então estaria mais vivo do que o ancião Bulhão Pato.
(Excerto de “Pessoas de livro: figuração e sobrevida da personagem”, em preparação)