Eça e a história dos media

Iluminação a gás na Inglaterra (1807)

Iluminação a gás na Inglaterra (1807)

            Eça de Queirós escreveu  e publicou no tempo do livro industrializado, tempo que foi também o da afirmação e da consolidação de outros media  da escrita, como o jornal e a revista. Em muitas dessas publicações colaborou o escritor, certamente com a consciência de que elas eram alternativas que podiam pôr  em causa a hegemonia do livro como prestigiado veículo mediático, ao serviço de projetos culturais de intervenção crítica e de reforma de costumes.

Passa-se isto num tempo histórico que testemunhou importantes conquistas técnicas, com efeitos inevitáveis sobre os modos de comunicação e de receção das mensagens escritas. A invenção do telégrafo (ainda na primeira metade do século XIX), o aparecimento do daguerreótipo e sobretudo da fotografia, a imprensa cilíndrica e a rotativa (ambas permitindo incutir maior celeridade à impressão de jornais), tudo isso por junto tornou a imprensa atrativa e acessível. A criação de agências de notícias – a agência Havas, em 1835; a Reuters, em 1851 – foi um contributo mais para que a imprensa se transformasse num fenómeno comunicacional capaz de atingir públicos  cada vez mais vastos. A diminuição gradual do analfabetismo (em todo o caso muito lenta em Portugal), o incremento da leitura feminina e o surgimento de gabinetes de leitura (de certa forma antecessores das modernas bibliotecas públicas) reforçam a importância dos media da escrita e criam mais amplos espaços de circulação do livro, do jornal e da revista.

Na carta-prefácio dos Azulejos do conde de Arnoso, Eça de Queirós deu testemunho do agudo conhecimento que tinha de como certas inovações técnico-industriais se entrelaçavam com mutações sociais e culturais, num processo de dinâmico intercondicionamento. Trata-se, então, de assinalar a extinção de uma figura – a do leitor – e a emergência de uma outra entidade, o público.  “Numa manhã de Julho”, escreveu Eça naquele texto, “tomou-se a Bastilha. Tudo se revolveu: e mil novidades violentas surgiram, alterando a configuração moral da Terra. Veio a Democracia: fez-se a iluminação a gás: assomou a instrução gratuita e obrigatória; instalaram-se as máquinas Marinoni que imprimem cem mil jornais por hora: vieram os Clubs, o Romantismo, a Política, a Liberdade e a Fototipia. (…) Foi então que se sumiu o Leitor, (…)  o Leitor amigo, com quem se conversava deliciosamente em longos, loquazes Proémios: e em lugar dele o homem de letras viu diante de si a turba que se chama o Público, que lê alto e à pressa no rumor das ruas.”

(excerto de  “Impaciente aspiração: a questão mediática em Eça de Queirós”; colóquio “Eça de Queiroz no contexto da história dos media”; Roma e Viterbo, 4 6.12.2013).

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