Nova carta inédita de Fradique Mendes

 A Madame de Jouarre

 Paris, Janeiro

Minha boa Madrinha:

A carta em que a minha madrinha me pede notícias de Portugal esperava-me no regresso de uma longa viagem pelos pampas e pelas repúblicas do Rio da Prata. Encontro-a agora, adormecida ao lado das gazetas que, vindas do meu país, me trazem, atrasadas e lentas, novas das terras e das gentes portuguesas e que, passadas duas semanas,  quase entraram já no regaço da História.

Fradique Mendes por António

Fradique Mendes por António

É razão – e bem ponderosa! – da sua curiosidade perplexa o chorado desaparecimento de um jogador de foot-ball, de seu nome Eusébio da Silva Ferreira, agora alçado a herói nacional,  com semelhante estatura à dos Gamas, dos Cabrais e dos Albuquerques, esses outros e já desvanecidos heróis  com que se ilustra a História do meu  Portugal. Não compreende a minha boa madrinha isso a que chama “une exagération assez bizarre”, porque lhe escasseia – e perdoe-me que lho diga com uma franqueza sempre envolta em afeto – o minucioso e documentado conhecimento  dos hábitos e  das mentes dos meus patrícios. É disso que me apresso a falar-lhe, informado como estou pelo que me dizem as tais gazetas, nelas luzindo, com o  esplendor do seu verbo marmóreo, uma carta do Senhor Conselheiro Acácio ao diretor do Diário de Notícias: nela, com palavras firmes e fortes, o austero Conselheiro  propõe a ida do tal Eusébio (ou do que dele resta) para o Panteão Nacional.

É essa proposta que está desencadeando acesa discussão em Portugal (os periodistas portugueses  preferem dizer “polémica”, sempre que um debate, ainda que pacífico, se instala na chamada praça pública). Não quero  pronunciar-me já sobre tão ingente questão, porque me falta explicar-lhe, com o carinho que sabe, duas ou três coisas sobre os modos de ser e de estar dos meus concidadãos, em particular quando se cruzam com a figura sinistra da Morte e com a temerosa ideia da Eternidade, sua parente próxima.

Os portugueses, minha boa  madrinha, são um povo atraído pelo desgosto e  pela celebração fúnebre. Nada os  une mais do que o passamento de alguém, anónimo ou conhecido, famoso ou obscuro: é nesse momento fatal que aquele que a malvada Foice  decapitou ganha qualidades que o próprio estranharia, se, lá para onde foi, pudesse saber como os que lhe eram afetos e sobretudo os que lhe foram desafetos,  lembram virtudes e esquecem defeitos, com uma celeridade que  enternece. E depois é ver, quando chega a hora do funeral, os rostos compungidos e as palavras  comovidas (autenticamente comovidas, afianço!) que a nunca gasta retórica  do desgosto nos dita.

Quando o morto é uma  figura pública, seja do mundo da política, seja das artes ou seja do desporto, então os discursos esmeram-se e as faces tornam-se mais sombrias, coisa que bem adensada é por uns oportunos óculos fumados, sempre de reserva para a decisiva hora do enterramento. E é ver então  quase todos quantos declaram o seu muito apreço e admiração pelo defunto, em esforços mal contidos para, na biografia do desaparecido, encontrarem um cantinho de convívio pessoal e de  bem testemunhado conhecimento das tais virtudes e glórias. No caso do finado Eusébio e como a minha madrinha vai ver, também tenho o meu recanto, ainda que bem estreito e modesto; mas mesmo que o não tivesse, poderia eu agora esfuracar, com método e paciência,  no passado do futebolista uma qualquer ocorrência  em que se tivessem cruzado as nossa vidas,  porque já cá não está quem poderia desmentir-me. Ainda recentemente tivemos disso mesmo exemplos bem tocantes, quando Mandela se foi: não faltaram em Portugal políticos com conhecimento direto e pessoal do herói que o mundo inteiro, em sonora e unânime  homenagem, evocou; de tal forma que cheguei a pensar que os longos e sofridos anos  que Mandela gastou numa masmorra cruel foram amenizados pelas visitas regulares dos que agora ostentam uma familiaridade, que muito invejo, com Madiba (assim dizem os tais, porque a isso os autoriza a intimidade que puderam ter com o herói de África).

Este Eusébio que aguça o interesse da minha boa madrinha foi, como sabe já, um futebolista e dos bons. Mas agora que ele partiu, descobre-se que não foi apenas um grande jogador, mas antes o melhor de sempre e não só de Portugal, mas do mundo,  dos tempos passados e até talvez dos tempos por vir. Esgotaram-se (positivamente esgotaram-se!), no nosso suave  e bem fornecido idioma, os adjetivos com que desvairadamente foram  elogiadas   as correrias e os feitos do grande Eusébio! Pela sua estátua (sim, porque ainda em vida este honrado cidadão teve direito a ela, coisa que Camões e Pombal por muito tempo e pacientemente aguardaram), pela sua estátua, dizia, desfilaram, aos milhares, anónimos portugueses,  reverentes e em pranto, não sendo poucos os que jamais viram o jogador Eusébio conquistar uma vitória “dentro das quatro linhas” – conforme competentemente dizem os plumitivos da especialidade.

Depois veio o funeral, sob uma chuva tão inclemente que o bom Pinheiro Chagas pôde escrever, com aquela argúcia só dele, que era o Céu que se debulhava em lágrimas pelo atleta   já  feito lenda. Poucas vezes, minha querida madrinha, um povo inteiro se uniu em torno de uma causa tão dignamente nacional; e até  o nosso sisudo Chefe de Estado veio declarar, com bem adequada pompa, a gratidão da Nação pelo filho querido. É verdade que alguns espíritos tortuosos e roídos pela traça da maledicência não deixaram de lembrar que o mesmo Chefe de Estado ficou mudo e quieto quando, por exemplo, morreu um dos dois prémios Nobel que a nossa História regista; não comentarei agora tais reparos, porque não quero contaminar esta carta amável com o veneno que daqueles reparos destila.

E chegou então, como se esperava, a ideia acaciana de remeter os restos de Eusébio para  a solene guarda do Panteão Nacional. Por mim, digo que tal ideia não podia ser mais oportuna; e acrescento até que, sendo ela óbvia e inevitável, bem dispensaríamos  a azeda discordância daqueles que, certamente movidos  pela estreiteza de uma visão demasiado rígida dos caminhos que levam à Glória (ou a Santa Engrácia, para ser mais preciso),  querem ensombrecer o brilho da lembrança do Senhor Conselheiro Acácio. Por razões que agora não trato de detalhar, eu pude conhecer pessoalmente este Eusébio, por ocasião de uma viagem oficial a Moçambique, terra de origem do nosso herói. Não direi, como Teodorico a propósito de Topsius, que com ele “arranchei”; mas posso, sem exagero nem distorção da verdade, asseverar que com ele conversei por algum tempo,  ligados como estávamos pelo nervoso que uma viagem daquelas provoca nos dois comuns mortais que nessa circunstância éramos. O que lhe garanto, minha prezada madrinha, é que o homem me pareceu uma pessoa bem simples, de conversa amena e singela, sem a vaidade nem a sobranceria que as suas proezas noutros provocariam, como se estivesse inocente de tais proezas. De modo que não estou certo de que o mesmo Eusébio esperasse ou até entendesse o alcance da vistosa homenagem que a Pátria agora lhe reserva.

Digo que a Pátria lhe reserva porque bem certo estou de que, passados os trâmites e os prazos que as absurdas exigências administrativas do Estado impõem, para o Panteão acolhedor irá o nosso Eusébio. É disso garantia a já declarada concordância de todas (sim, querida madrinha, todas!) as forças políticas que povoam o nosso Parlamento com as suas ideias e com a sua verbosa eloquência; uma concordância que liquidou à partida a estranha reserva da Senhora Presidente do dito Parlamento, por momentos aflita com os grossos cabedais que a iniciativa há de custar. Espante-se com isto, querida madrinha: alguém quis obnubilar, com a vil questão da pecúnia (e parece, por fim, que as contas estavam mal feitas), uma tão gloriosa empresa!  Pergunto-me até se não poderíamos desde logo ter feito o que feito há de ser:  quando aconteceu o nunca visto funeral,  era para Santa Engrácia que a carreta fúnebre deveria ter sido conduzida, com mão firme e rumo certo, assim se poupando mais passos e mais lágrimas (que de novo, é claro, hão de jorrar, quando a trasladação se der) aos devotos do grande Atleta. Sem mais delongas  iria ele fazer companhia aos nomes  quase esquecidos do “divino” Garrett e de Aquilino Ribeiro, de Junqueiro e de Humberto Delgado, de Sidónio Pais e de Manuel de Arriaga. E aos que dizem que hão de ficar espantados estes e os demais que lá são recordados, quando pela larga porta do Panteão assomar o futebolista,  respondo eu que a surpresa é injustificada e não será unânime: daqui mesmo, do meu apartamento da Rue de Varennes, imagino o júbilo da grande Amália – é verdade, minha madrinha, a diva da canção nacional lá repousa, para gozo de inumeráveis  portugueses e portuguesas –, quando se vir na companhia de Eusébio. Juntando-se o futebolista à fadista, teremos então bastas razões para dizer que com rijos pontapés se vai completando o nosso Fado!

Sempre dedicado, beija-lhe as mãos o seu afilhado,

Fradique

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6 comentários

  1. Uma delícia de prosa! Queirosiana, c’est tout!

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  2. Paula Lago

     /  20 de Janeiro de 2014

    Queremos mais; a compilar, para ilustração da juventude.

    Responder
  3. Paula Volupca

     /  21 de Janeiro de 2014

    Ah, caro Professor, fez-me vontades de reler as Correspondências de Fradique Mendes!

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  4. Piwnik

     /  21 de Janeiro de 2014

    Descobrir una inédita de Fradique! GE-NIAL!

    Responder
  5. leonor Santos de Lucena Sibertin-Blanc

     /  21 de Janeiro de 2014

    Simplesmente divinal!

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  6. Lembro-lhe que chegar à Glória e depois do passamento ter poiso em Santa Engrácia, quiçá, nestes tempos dos “irrevogáveis”, é empreitada que deixaria os vários mestres de obras que levaram séculos à volta da dita cuja, a querer ter também lá um poiso com lápide. Sim, porque os mestres que lá ficaram estão entaipados e sem direito a qualquer letrinha!!
    Curiosamente, meu caro Fradique, para o caso de a sua madrinha duvidar desse seu dialogus e trato mais próximo com tão ilustre interprete dos “rijos pontapés”, poderei testemunhar com imagens que, certamente, contribuiriam ainda mais para o regalo da sua madrinha.
    Boa prosa. Este Fradique é como os vinhos, os maus azedam e os bons, com o tempo ficam cada vez melhores.

    Responder

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