Carta de Fradique Mendes sobre as praxes

Ao Senhor Diretor da Gazeta de Paris

Fevereiro de 2014

Meu caro Amigo:

O meu fiel Smith acaba de me entregar, com a sua circunspeção de escocês austero, o bilhete em que o meu  Amigo me pede notícias acerca dos episódios que vêm abalando o meu país e que, cobertos pelo nome misterioso  de praxe, tanta comoção têm causado entre os meus patrícios. E contudo, temo  não ser capaz de lhe dar – e, por seu intermédio, aos leitores  da Gazeta – as informações sólidas e nítidas que tão ansiosamente me são pedidas. Em verdade digo que muitas coisas mudaram na saudosa Lusa Atenas, desde que deixei os bancos sonolentos da  alma mater coimbrã,  onde com deleitado gozo e não menor proveito colhi as lições que a facúndia dos lentes ditava.

Deseja o meu bom amigo saber que obscuras razões levam a juventude das Escolas  à prática metódica de ritos e de liturgias cujo alcance o comum dos mortais não entende e cuja oculta lógica menos ainda  atinge. De tal forma que, ainda recentemente, uma tragédia que consumiu a vida de seis jovens pôde ser atribuída às tais praxes, coisa sobre que não me alongarei, porque a esse silêncio me obriga o respeito por aqueles jovens e pelos que lhes são mais próximos.

logo3            Mas apesar de, no sossego do meu apartamento, me achar bem longe da  encantada e quase fantástica Coimbra, não deixarei,  caro Diretor, de  transmitir o meu sentir sobre tão premente assunto. Faço-o também  para tentar contrariar a gritaria que atravessa o meu pacato Portugal, exalada das goelas escancaradas de quantos querem, sabe-se lá com que oculto desígnio, acusar as tais praxes de serem malignas e perversas. E porque não houve praticamente ninguém, dos poderes instituídos (incluindo o sempre vibrante Dr. Portas!) aos periodistas mais opinativos, que se não pronunciasse sobre as ditas praxes, também eu me acho no direito de aqui exprimir o que delas penso.

Em que consistem, afinal, as  praxes?, ouço-o daqui perguntar. Em coisas bem singelas e bem inofensivas, que algumas vezes pude testemunhar, com risonha bonomia. Dois ou três jovens, alçados à posição confortável  de pedagogos da integração (palavra que muito temos ouvido e lido nos últimos tempos), vigorosamente convocam um rebanho de colegas mais jovens para posições e  para práticas que só a crassa ignorância dos não iniciados pode criticar. A esses estudantes mais jovens dá-se o ameno nome de caloiros – nome que o fervor   praxístico às vezes  substitui por outros, bem saborosamente vernáculos, que aqui não repetirei – e sobre eles recai a graciosa e jovial criatividade dos tais colegas mais velhos, a quem, com otimismo e generosidade, se chama doutores. E como se materializa  a tal criatividade?  Lambendo degraus de escadas,  gemendo coisas com voz esganiçada,  rastejando de cócoras e de quatro,  rolando por sobre lamas e por sobre águas paradas,  sendo pintalgado e salpicado com tintas flamantes e, quando calha,  simulando prazeres e gozos íntimos, com suspiros bem sugestivos.

Vê o meu amigo algum mal nestas coisas inócuas? Se vê, então não entende a suprema dádiva da integração que, lá bem  no fundo  dos seus executores, justifica as praxes. Pois é em nome dessa integração que tudo se explica. E bem justa é ela, porque é a  integração que permite aos agachados e aos pintalgados de hoje agacharem e pintalgarem os que  amanhã vierem, obrigando-os a deslizar de cócoras pelas escadarias da universidade, coisa bem adequada à sólida organização hierárquica que assim se celebra.

Argumentam alguns, com uma maldade de que deveriam envergonhar-se, que estas engraçadas ações revelam que os nossos jovens (o futuro da Nação, no dizer sempre eloquente do Senhor Conde de Ribamar) padecem de uma forma de regressão que, já em estado adulto, os reconduz à frágil idade mental da infância. Nada mais errado! O que pinturas no rosto, lambedelas em escadas e meiguices com colheres de pau mostram é a saudável inclinação da nossa mocidade para permanecer moça! E para, assim fazendo, resistir estoicamente àquela aborrecida e baça madurez que outra coisa não traz às nossas vidas que não seja maçada e  tédio. Bem fazem eles! E melhor andam quando, em boa parte por virtude (outro termo não tenho) das praxes, descuidam as sebentas que os lentes, com açodado zelo, para eles escrevinharam; e rejeitam-nas também porque prudentemente  adivinham que da leitura só podem resultar enxaquecas pertinazes e perigoso cansaço da vista.

Em todo o caso, as tais praxes pouco tempo acabam por consumir aos nossos dedicados estudantes universitários. Bastará resumir, meu bom Amigo, a semana típica de muitos deles, para que bem se entenda o absurdo de recriminações como as que destilam das mentes que malevolamente criticam estes inocentes divertimentos. A semana do estudante reduz-se hoje, quanto a estudo e a bocejante frequência dos bancos das aulas, a um só dia, a quarta-feira. É ela o meridiano que separa os dias em que  laboriosamente se prepara e vive o fim de semana, dos dias em que se descansa dos deleites do fim de semana passado, já com  incontido desejo daquele que se avinha.  Resta, em suma, pouco tempo para as praxes.

O meu Amigo espanta-se com estas coisas surpreendentes? Bem se vê que não conhece a hierarquia académica e a veneração que nela é votada aos seus preclaros líderes. No topo dessa hierarquia acha-se a figura do dux veteranorum, uma personagem cujos méritos provêm do louvável facto de ter, no seu currículo académico, muito mais matrículas do que anos aprovados! Quem despreza a perseverança com que se chega a tão alta dignidade  não conhece e menos ainda admira a veterania da figura que hoje, na vetusta Universidade de Coimbra, ostenta vinte e quatro matrículas (sim, meu Amigo, duas nutridas dúzias!), assim tendo acedido ao inefável estatuto de dux. Muitos o invejam, poucos o igualam, porque não é certamente fácil persistir, com zelo e com obstinação, nos labores (ou na sua ausência, não sei dizer) que conferem tão ambicionada distinção a um ser humano. E quem fala, a propósito do respeitável dux, em preguiça, desmazelo e cabulice, dá mostras de um vesgo desprezo pelas agruras de um duro trajeto estudantil, bem vivido e bem desfrutado.

Não insistirei nas virtudes das praxes para não abusar da  paciência do meu Amigo. Mas não termino sem relatar um caso e saboroso. Quando eu era caloiro (reles caloiro, como amoravelmente diziam os doutores), contava-se em Coimbra uma história cuja veracidade não posso, em bom rigor, asseverar. Segundo tal história, um respeitável lente de Direito, antigo ministro do doutor Salazar, teria sido intercetado por um grupo de estudantes – uma trupe, no dizer da Academia – que o praxou. Ou seja: a trupe castigou as veneráveis unhas do lente com uma rude colher de pau. Porquê? Porque, revestido do negro traje académico (o chamado hábito talar), o tal lente cometera a descarada transgressão de calçar peúgas de cor! Pois o que nesta história se gabava, com desvanecida unção, era a paciente aceitação do eminente jurista, perante tão embaraçosa punição. E essa aceitação o que provava? Que a praxe era coisa tão  estimável que até  um severo professor de Direito a aceitava, com submissa tolerância – o mesmo professor que, enquanto ministro, tutelara os eficientes e ríspidos tribunais plenários que despachavam para a justa escuridão de uma masmorra todo aquele que, por obtusidade ou por aleivosia, se atrevia a duvidar da bondade do regime  então vigente.

Por mim, depois de muito escarafunchar nos escaninhos do meu entendimento, atrevi-me a  achar coisa diferente. E o que pensei foi que a reação pacífica do lente mais não era do que a astuta legitimação de comportamentos hierarquizantes e conservadores, que muito convinham a uma universidade  empedernida na rigidez de tais comportamentos – e que, por conseguinte, o lente ajudava a preservar o que também a ele bem calhava. Mas talvez eu esteja errado; e  terá sido certamente por falha do meu embotado discernimento que não percebi, logo na altura, os tão óbvios méritos da praxe!

Creia-me, meu Amigo, seu dedicado e certo

Fradique

              P.S. Ainda este caso das praxes se não encerrou e já outro e bem suculento ocupa a discussão dos portugueses. Pois não é que quase todos eles (incluindo o Supremo Magistrado da Nação!) de repente descobriram  ser devotos da pintura de Joan Miró? Não tenho espaço, nesta carta, para detalhar tais arroubos; mas se o meu Amigo assim o exigir, cá estarei para tentar explicar este assomo de militância pela causa das artes plásticas, que de repente se abateu sobre o país onde florescem as laranjeiras, como tão inspiradamente disse o nosso Bulhão Pato.

 PRAXE DOS ESTUDANTES DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 290906 LUIS CARR

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4 comentários

  1. Paula Lago

     /  5 de Fevereiro de 2014

    Essa é que é Eça… genuíno e mordaz. Aguardamos com fervor místico a criteriosa dilucidação dos arroubos dos nossos líderes políticos e espirituais, que não seguimos com a obediência que devíamos apenas porque as nossas toscas mentes não logram alcançar os seus superiores desígnios…

    Responder
  2. Luis Manuel de Araujo

     /  6 de Fevereiro de 2014

    Carssimo Amigo

    Parabns pelo magnfico e esclarecedor texto fradiquiano acerca das praxes. Tambm eu penso o mesmo sobre esta questo das praxes, ultimamente to debatidas e analisadas.

    Com a maior estima, um abrao amigo do

    Lus Arajo

    ________________________________ De: “Ea de Queirs” Enviado: quarta-feira, 5 de Fevereiro de 2014 18:55 Para: Luis Manuel de Araujo Assunto: [Novo artigo] Carta de Fradique Mendes sobre as praxes

    Carlos Reis posted: ” Ao Senhor Diretor da Gazeta de Paris Fevereiro de 2014 Meu caro Amigo: O meu fiel Smith acaba de me entregar, com a sua circunspeo de escocs austero, o bilhete em que o meu Amigo me pede notcias acerca dos episdios que vm abalando o me”

    Responder
  3. isabel gomes

     /  6 de Fevereiro de 2014

    Like Date: Wed, 5 Feb 2014 18:55:15 +0000 To: isagomesfil@hotmail.com

    Responder
  4. Maria Helena Reis

     /  8 de Fevereiro de 2014

    O meu irmão no seu melhor!

    Responder

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