Imagens d’A Relíquia

A iconografia baseada na ficção queirosiana é abundante e diversificada. De Raquel Roque Gameiro a  Wladimir Alves de Souza e Bernardo Marques, de Alberto de Sousa a João Abel Manta e António, de Lima de Feitas a Paula Rego, são várias  as histórias e as figuras objeto de  processos de transposição intermediática. Contribui-se assim para evidenciar  a sobrevida da personagem queirosiana e também para confirmar Eça  como uma grande criador de figuras ficcionais.

Teodorico, Topsius e o jucundo Potte

Teodorico, Topsius e o jucundo Potte por Rui Campos Matos

Aos nomes citados junta-se agora o de Rui Campos Matos, autor de uma antologia ilustrada d’A Relíquia que merece atenção. Trata-se, como fica dito, de uma recolha de textos daquele relato, abundante não apenas em situações burlescas, mas também em personagens com a marca forte da sátira queirosiana. E assim, as aventuras e desventuras de Teodorico Raposo pelo Egito e pela Terra Santa são refiguradas em dezenas de imagens que acompanham o desenrolar da história. “A Relíquia”, escreve Rui Campos Matos na nota preambular, “é uma obra de vastos e intensos motivos, pela variedade das situações e pela riqueza da geografia oriental que constitui pano de fundo de grande parte do seu texto, onde o humor, a sátira e o herético atingem a máxima acidez e contundência”.

Assim é. E a propósito d’A Relíquia  evoco  uma personagem talvez pouco conhecida, que se manifesta em dois episódios relativamente marginais do romance. Esclareço: Teodorico Raposo, o protagonista e narrador, parte para o Egito e para a Palestina, num trajeto que Eça conhecia bem, porque ele mesmo fez a viagem que  atribui ao protagonista.  Durante o trajeto para a Terra Santa,  Teodorico  convive com outro viajante, o alemão Topsius, académico erudito e senhor de uma sobranceria germânica que incomoda o companheiro português. “Ambos com o mesmo roteiro, podíamos acamaradar” , propõe Teodorico, o que dá lugar a um  frequente diálogo de culturas e de mentalidades que  constitui um fator de afirmação identitária muito significativo: é longe da Pátria e em confronto com um outro que a identidade do sujeito em viagem se afirma com  vigor.

Eis senão quando, uma surpresa: na chegada a Alexandria e ao entrar no hotel, Teodorico é interpelado por um patrício, a tal personagem a que me refiro, dono de uma “sombria história” de emigração infeliz: “Era de Trancoso e desgraçado”, revela o singular Alpedrinha, português perdido pelo mundo, depois de desgostos de amor que o levaram  a Madrid, a Marselha e a Roma, mais longe ainda, a Atenas, à Moreia, a Esmirna e a Alexandria. “E ali estava no Hotel das Pirâmides, moço de bagagens e triste”; e também com saudades da Pátria, claro. Mais tarde, tendo reencontrado “o mofino Alpedrinha”  já em Jafa e quase de regresso a Portugal, Teodorico despede-se do compatriota emigrado com uma reflexão que vale a pena citar:  “Desventuroso Alpedrinha! Só eu, em verdade, compreendi a tua grandeza! Tu eras o derradeiro lusíada, da raça dos Albuquerques, dos Castros, dos varões fortes que iam nas armadas à Índia! A mesma sede divina do desconhecido te levara, como eles, para essa terra de Oriente, donde sobem ao céu os astros que espalham a luz e os deuses que ensinam a Lei. Somente não tendo já, como os velhos Lusíadas, crenças heroicas concebendo empresas heroicas, tu não vais como eles, com um grande rosário e com uma grande espada, impor às gentes estranhas o teu rei e o teu Deus. Já não tens Deus por quem se combata, Alpedrinha! Nem rei por quem se navegue, Alpedrinha!… Por isso, entre os povos do Oriente, te gastas nas ocupações únicas que comportam a fé, o ideal, o valor dos modernos Lusíadas – descansar encostado às esquinas, ou tristemente carregar fardos alheios…”

Teodorico e Alpedrinha por Rui Campos Matos

Teodorico e Alpedrinha por Rui Campos Matos

Em registo de caricatura bem queirosiana, Alpedrinha é o epítome do emigrante português que deambula pelo mundo, atraído, como se diz no texto, pela “saudade dos mares, das cidades cheias de história, das multidões desconhecidas…” Mas esta é uma época de emigração e de aventura já outra, quando comparada com o tempo mítico dos “varões fortes”, celebrados por um  relato do século XVI, com propósito de legitimação  expansionista, Os Lusíadas, evidentemente. E assim, divergindo dos velhos Lusíadas, o Alpedrinha do século XIX, no tempo em que os portugueses emigravam  para o Brasil (mas dessa dispersão emigrante não pode tratar A Relíquia), ilustra, nas terras do Oriente, uma decadência portuguesa que a geração de Eça  denunciou: a espada guerreira da Cristandade perdeu vigor e  legitimidade; e os fardos que o aventureiro carrega são  “fardos alheios” que humilham a memória dos aventureiros do passado. Conclusão, por agora: não se mudam só os tempos e as vontades, como dizia o poeta da epopeia, mudam-se também os modos de tematização da diáspora, os procedimentos retóricos e narrativos que a representam e os efeitos ideológicos que dessas mudanças se deduzem. Algumas dessas mudanças: a viagem  aventurosa já não é modelada pela epopeia, mas pelo romance  satírico e autobiográfico; e a celebração heroica do relato épico dá lugar ao drama pessoal da distância, do abandono e da saudade, nada disso suficiente, contudo, para pôr em causa a solidariedade identitária do “mofino Alpedrinha” com o aventureiro acidental que é Teodorico Raposo.

A Relíquia ilustrada por Rui Campos Matos

A Relíquia ilustrada por Rui Campos Matos

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1 Comentário

  1. Muito bom isto: “Conclusão, por agora: não se mudam só os tempos e as vontades, como dizia o poeta da epopeia, mudam-se também os modos de tematização da diáspora, os procedimentos retóricos e narrativos que a representam e os efeitos ideológicos que dessas mudanças se deduzem. Algumas dessas mudanças: a viagem aventurosa já não é modelada pela epopeia, mas pelo romance satírico e autobiográfico; e a celebração heroica do relato épico dá lugar ao drama pessoal da distância, do abandono e da saudade […].” Isso é ciência literária.

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