Realismo

O realismo foi para Eça, com frequência, um tema de reflexão doutrinária, até se transformar, sob o signo de Carlos Fradique Mendes, numa vexata quaestio.  Um projeto (aliás falhado, coisa sintomática) designado “Cenas Portuguesas” ou “Cenas da Vida Portuguesa” concentra muito dos propósitos e também das vacilações do grande escritor em torno do realismo; é esta uma matéria mais do que estudada e que se ilustra com indagações queirosianas sobre a relevância e a funcionalidade da personagem, sobre o potencial de transcendência que nela deveria ser valorizado, sobre a importância operativa da observação, sobre as cumplicidades entre pintura e literatura e assim por diante. A isto acrescento que, quando aqui falo de realismo queirosiano, não trato de destrinçar o que nesse realismo (assim chamado pelo próprio escritor, de forma não isenta de equívocos) se aprofunda no cumprimento do programa ideológico e literário do naturalismo, em ligação com a fisiologia experimental.

Cenas da Vida PortuguesaPrefiro notar que o realismo que Eça perseguiu corresponde àquilo que Darío Villanueva designou como realismo genético, ou seja, aquele que, fundando-se na crença e na elaboração de uma linguagem supostamente “transparente”, privilegia um referente que lhe é pré-existente. O caráter falacioso da representação de um real que emerge sem deformação, mediado por uma linguagem “translúcida”, foi várias vezes intuído por Eça e lamentosamente confidenciado em cartas (sobretudo a Ramalho Ortigão), nos anos mais árduos de escrita realista; foi preciso, todavia, que Carlos Fradique Mendes fosse confrontado com a sugestão de narrar uma viagem a África e de descrever o que lá vira, para que aquela falácia se declarasse, sob a forma de impossibilidade da representação através da palavra: “Porque o verbo humano, tal como o falamos, é ainda impotente para encarnar a menor impressão intelectual ou reproduzir a simples forma dum arbusto…”, declara Fradique, antes de postular uma linguagem  por inventar, “que só por si, plasticamente, realizasse uma absoluta beleza – e que expressionalmente, como verbo, tudo pudesse traduzir desde os mais fugidios tons de luz até os mais subtis estados de alma…”

Repare-se: Fradique não chega a pôr em causa a condição heterónoma e supostamente exterior do objeto a representar; basta-lhe afirmar a falência da linguagem como  semiose do mundo empírico para que a sua doutrina implícita da representação o coloque na linha do que Flaubert chegou a desejar: “um livro sem referência, que se sustentaria por si mesmo, pela força interior do seu estilo”.  Antes mesmo de chegar a este ponto, Fradique Mendes  desqualifica o que fora um crucial instrumento de análise do realismo mais vigorosamente genético: a observação. “Não vi nada na África, que os outros não tivessem já visto”, confessa, naquele mesmo passo.

(texto integral: Figurações da personagem realista: os bigodes e os rasgos de Tomás de Alencar, in A. Apolinário Lourenço, M. Helena Santana e M. João Simões (coord.), O Século do Romance. Realismo e Naturalismo na Ficção Oitocentista. Coimbra: Centro de Literatura Portuguesa, 2013, pp. 91-110).

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1 Comentário

  1. Cristina Vieira

     /  24 de Fevereiro de 2014

    Boa noite, Sandra: Veja se este post pertinente para si. Um grande abrao e at ao nosso encontro, Cristina

    Date: Sat, 22 Feb 2014 17:57:40 +0000 To: crisleov@hotmail.com

    Responder

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