Crónica e personagem

Retomando as palavras de Eça de Queirós sobre a crónica: “A crónica é como que a conversa íntima, indolente, desleixada, do jornal com os que o leem: conta mil coisas, sem sistema, sem nexo, espalha-se livremente pela natureza, pela vida, pela literatura, pela cidade; fala das festas, dos bailes, dos teatros, dos enfeites, fala em tudo baixinho, como quando se faz um serão ao braseiro, ou como no Verão, no campo, quando o ar está triste. Ela sabe anedotas, segredos, histórias de amor, crimes terríveis; espreita, porque não lhe fica mal espreitar”.

A caracterização que Eça faz da crónica assinala as múltiplas possibilidades de olhar o mundo. Diremos mais: a definição de crónica feita RM18981226_01por Eça inscreve, de forma subtil, a entidade de maior importância em todos os factos, espaços e situações aí referidas: a personagem. Na verdade, é a personagem que fala baixinho, que sente, que anda nos bailes e nos teatros, que vive histórias de amor ou dramas terríveis. Mas antes de ser personagem, antes do autor lhe dar determinados traços que a transformam em ser de papel, ela foi pessoa, resgatada do imediato, do facto circunstancial, da realidade do quotidiano. E esta é, em boa verdade, a razão deste trabalho. A partir de um conjunto de crónicas que Eça escreveu para a Revista Moderna surge a possibilidade de explorar a personagem numa perspetiva ficcional.

A personagem que aparece nas páginas da Revista Moderna não tem o mesmo poder de observação que as personagens de outros textos ficcionais de Eça. Não esqueçamos: estas personagens são extraídas do real, surgem nas páginas de uma revista e, portanto, não foram pensadas, originariamente, como figuras de uma história ou de um enredo. A maioria das personagens dos seus romances, novelas ou contos é fruto de uma aguda reflexão, de um plano (e aqui referimo-nos ao célebre plano de cinco personagens para uma novela), de uma maturação literária, porque ao serviço de uma ideologia ou propósito social. Mesmo as personagens mais discretas têm uma missão nos seus textos, que tanto pode ser o retrato da beatice, como da “literaturinha acéfala”, como do “tédio da profissão” (da carta de Eça a Teófilo Braga, de 12 de março de 1878). Importa sublinhar que, não obstante estas diferenças, as personagens das crónicas da Revista Moderna também apresentam uma visão autoral, na medida em são um testemunho do espírito queirosiano finissecular. Cada uma delas transporta uma mensagem e uma visão subjetiva do mundo. Talvez por isso, estas crónicas apresentem características muito próximas de outras formas literárias de Eça, tal como o conto.

(Dilar Trancas, A figuração da personagem nas crónicas de Eça de Queirós. Textos de imprensa da Revista Moderna)

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