Aforismos queirosianos

Civilização

Jacinto, por António

Jacinto, por António

Ora nesse tempo Jacinto concebera uma Ideia… Este Príncipe concebera a Ideia de que «o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado. E por homem civilizado o meu camarada entendia aquele que, robustecendo a sua força pensante com todas as noções adquiridas desde Aristóteles, e multiplicando a potência corporal dos seus órgãos com todos os mecanismos inventados desde Terâmenes, criador da roda, se torna um magnífico Adão, quase omnipotente, quase omnisciente, e apto portanto a recolher dentro de uma sociedade e nos limites do Progresso (tal como ele se comportava em 1875) todos os gozos e todos os proveitos que resultam de Saber e de Poder…(A Cidade e as Serras, cap. I) 

Emigração

Em Portugal quem emigra são os mais enérgicos e os mais rijamente decididos; e um país de fracos e de indolentes padece um prejuízo incalculável, perdendo as raras vontades firmes e os poucos braços viris.

Em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a trasbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre. Não é o espírito de actividade e de expansão que leva para longe os nossos colonos, como leva os ingleses à Austrália e à Índia; mas a miséria que instiga a procurar em outras terras o pão que falta na nossa. (Uma Campanha Alegre. De «As Farpas», janeiro de 1872). 

Jornal

O jornal é com efeito o fole incansável que assopra a vaidade humana, lhe irrita e lhe espalha a chama. (…)Todo o jornal destila intolerância, como um alambique destila álcool, e cada manhã a multidão se envenena aos goles com esse veneno capcioso. É pela acção do jornal que se azedam todos os velhos conflitos do mundo – e que as almas, desevangelizadas, se tornam mais rebeldes à indulgência. (…)  O jornal exerce hoje todas as funções malignas do defunto Satanás, de quem herdou a ubiquidade; e é não só o Pai da Mentira, mas o Pai da Discórdia. É ele que por um lado inflama as exigências mais vorazes – e por outro fornece pedra e cal às resistências mais iníquas. (A Correspondência de Fradique Mendes, carta a Bento de S.).

Passado

O passado é belo e heróico – bem: quando o passado pretende antepor-se aos interesses do presente, o passado é caturra! Seria verdadeiramente impertinente que uma rosa murcha tivesse a pretensão de andar na boutonnière da nossa sobrecasaca: que uma pomada rançosa do ano passado ousasse querer anediar os nossos cabelos: e que o esqueleto da mulher amada tentasse ainda dar-nos beijos! (Uma Campanha Alegre. De «As Farpas», setembro de 1871). 

Reportagem

A reportagem, bem sei, é uma útil abastecedora da História. Decerto importou saber se era adunco ou chato o nariz de Cleópatra, pois que do feitio desse nariz dependeram, durante algum tempo, de Philippes a Actium, os destinos do Universo. (…) Mas, como a reportagem hoje se exerce, menos sobre os que influem nos negócios do Mundo ou nas direções do Pensamento, do que, como diz a Bíblia, sobre toda a «sorte e condições de gente vã», desde os jóqueis até aos assassinos, a sua indiscriminada publicidade concorre pouco para a documentação da história, e muito, prodigiosamente, escandalosamente, para a propagação das vaidades! (A Correspondência de Fradique Mendes, carta a Bento de S.)

as_farpas_1Riso

O riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. E em política constitucional, pelo menos, o riso é uma opinião. (Uma Campanha Alegre. De «As Farpas», junho de 1871).

Vaidade

Nunca a vaidade foi, como no nosso danado século XIX, o motor ofegante do pensamento e da conduta. Nestes estados de civilização,  ruidosos e ocos, tudo deriva da vaidade, tudo tende à vaidade. E a forma nova da vaidade para o civilizado consiste em ter o seu rico nome  impresso no jornal, a sua rica pessoa  comentada no jornal! Vir no jornal! eis hoje a impaciente aspiração e a recompensa suprema! (…) O próprio mal apetece sofregamente as sete linhas que o maldizem. Para aparecerem no jornal, há assassinos que assassinam. Até o velho instinto da conservação cede ao novo instinto da notoriedade: e existe tal maganão, que ante um funeral convertido em apoteose pela abundância das coroas, dos coches e dos prantos oratórios, lambe os beiços, pensativo, e deseja ser o morto. (A Correspondência de Fradique Mendes, carta a Bento de S.).

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3 comentários

  1. Ana Paula Magalhães

     /  8 de Março de 2014

    Clap! Clap! Clap!

    Responder
  2. Maria Antonieta

     /  8 de Março de 2014

    Qualquer semelhança com o século XXI é pura coincidência. Repetem-se os erros e neles se insiste. A diferença grande está na difusão da comunicação imagem.

    Responder
  3. Pois… o Eça tem sempre (aquela) razão. isto também a propósito da emigração, tanto naquela época, como nos anos 60/70 do século passado e de quem hoje emigra, no fundo de quem “sempre” foi forçado a sair deste país – a emigração é obra dos ‘suspeitos’ do costume: os mais pobres e menos escolarizados. Isso da fuga de “cérebros” de que tanto se fala atualmente, dá boas notícias na comunicação social (“propagação das vaidades”), contudo, isso acontece porque temos (felizmente) mais licenciados. A percentagem dos licenciados que hoje saem, está próxima da percentagem dos que naquela época saíam (Primeiro Inquérito Parlamentar,1874) e que sabiam ler e escrever – 12% e 15%. Curioso!!

    Responder

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