Eça de Queirós e a questão mediática

Eça Agora Caricatura

São  frequentes, diversificadas e significativas as referências, em obras de Eça de Queirós, aos jornais, à imprensa em geral e à circulação das notícias.  Alinho algumas citações, sem calculada ordenação.

A primeira dessas referências encontra-se numa carta de Carlos Fradique Mendes a um amigo, responsável pelo projeto da fundação de um jornal. Fradique discorda da ideia e enuncia uma série de defeitos que, no seu entender, a imprensa da época já manifestava: “O jornal é com efeito o fole incansável que assopra a vaidade humana, lhe irrita e lhe espalha a chama. (…)  E a forma nova da vaidade para o civilizado consiste em ter o seu rico nome impresso no jornal, a sua rica pessoa comentada no jornal! Vir no jornal!  eis hoje a impaciente aspiração e a recompensa suprema! (…)  Nas nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas, os homens praticam todas as ações – mesmo as boas.” (A Correspondência de Fradique Mendes, carta a Bento de S.).

A segunda referência encontra-se no final d’Os Maias. Regressado  a Lisboa, depois de um ausência prolongada, Carlos da Maia  visita lugares (o Chiado, o Ramalhete abandonado) que lhe haviam sido familiares dez anos antes; por fim, revela, em jeito de balanço e com indisfarçável melancolia, a João de Ega: “– E aqui tens tu uma existência de homem! Em dez anos não me tem sucedido nada, a não ser quando se me quebrou o faetonte na estrada de Saint-Cloud… Vim no «Figaro». // Ega ergueu-se, atirou um gesto desolado:  //  – Falhámos a vida, menino!”

A terceira referência ocorre num contexto histórico conhecido e dramático. Estamos agora no início do derradeiro capítulo d’O Crime do Padre Amaro, pouco antes de entrarem em cena o padre Amaro, o cónego  Dias e o conde de Ribamar. Nesse final de maio de 1871, no Chiado, é a isto que se assiste: “Com efeito, a cada hora, chegavam telegramas anunciando os episódios sucessivos da insurreição batalhando nas ruas de Paris: telegramas despedidos de Versailles num terror dizendo os palácios que ardiam, as ruas que se aluíam; fuzilamentos em massa nos pátios dos quartéis e entre os mausoléus dos cemitérios (…). Burgueses com tendas de capelistas falavam da «canalha» com o desdém imponente de um La Tremouille ou de um Ossuna. Sujeitos, palitando os dentes, decretavam a vingança. Vadios pareciam furiosos «contra o operário que quer viver como príncipe». Falava-se com devoção na propriedade, no capital! // De outro lado eram moços verbosos, localistas excitados que declamavam contra o velho mundo, a velha ideia, ameaçando-os de alto, propondo-se a derruí-los em artigos tremendos. // E assim uma burguesia entorpecida esperava deter, com alguns polícias, uma evolução social: e uma mocidade, envernizada de literatura, decidia destruir num folhetim uma sociedade de dezoito séculos.”

Uma última referência: estamos agora em Paris, no palacete de Jacinto, quando o amigo Zé Fernandes observa, entre atónito e divertido, as maravilhas da técnica que se espalham pelo 202. Assim: “E, com efeito, de uma redoma de vidro posta numa coluna, e contendo um aparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma ténia, a longa tira de papel com carateres impressos, que eu, homem das serras, apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, anunciava ao meu amigo Jacinto que a fragata russa «Azoff» entrara em Marselha com avaria! // Já ele abandonara o telefone. Desejei saber, inquieto, se o prejudicava diretamente aquela avaria da «Azoff». //   – Da «Azoff»?… A avaria? A mim?… Não! É uma notícia.”

Em termos genéricos, note-se, antes de mais, o seguinte: estão aqui em causa novos media (novos, para a época, entenda-se), novas funções e novas atitudes. Ou seja: fenómenos que os estudiosos da comunicação de massas têm descrito –  a começar (e com destaque) por Marshall McLuhan –, fenómenos esses de  que Eça, no final do século XIX, se ia apercebendo com uma lucidez admirável. Naqueles quatro passos, há presenças importantes e uma omissão que deve ser anotada: fala-se ali do jornal e do telégrafo, mas o livro não está representado, o que não significa que ele não tenha sido considerado em textos queirosianos, enquanto medium específico, em tempos de afirmação ou de consolidação de outros media.

            (“Extrato de Impaciente aspiração: a questão mediática em Eça de Queirós”, a publicar na revista Queirosiana)

Largo de Camões, em 1880

Largo de Camões, em 1880

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4 comentários

  1. Assis Brasil

     /  30 de Maio de 2014

    Magnífico! Nunca li nada parecido. Parabéns, grato, e um baita abraço do Assis Brasil

    Luiz Antonio de Assis Brasil http://www.laab.com.br ARS LONGA VITA BREVIS

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  2. Ana Paula Magalhães

     /  31 de Maio de 2014

    E não foi também em “Cartas de Londres” que Eça comentou esse outro novo invento americano, o telefone?

    Responder

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