De Teodorico aos Santos

Teodorico, Topsius e o jucundo Potte, por Rui Campos Matos

Teodorico, Topsius e o jucundo Potte, por Rui Campos Matos

Em certo momento da sua vida, Teodorico Raposo, potencial herdeiro da vasta fortuna de uma tia devota, faz uma viagem àTerra Santa, com o propósito de trazer a Dona Patrocínio das Neves uma impressionante relíquia. A viagem e o projeto de amolecer a rigidez da devota acabam mal: Teodorico é expulso de  casa da tia e confronta-se com as contradições da sua duplicidade moral.  Antes disso, contudo, num sonho que ocupa todo o terceiro capítulo do romance, o devasso Teodorico testemunha os últimos dias de Cristo, numa Jerusalém reconstituída com cuidado arqueológico. Ora a imagem de Cristo e o mistério da ressurreição, episódio fulcral para a fundação do Cristianismo, surgem tocados pela marca de afetos e de vivências humanas, ao mesmo tempo que a religião que nasce ganha uma feição lendária. Para além disso, os termos em que n’A Relíquia  são representados o cenário e o tempo da vida de Cristo remetem para o antigo fascínio que sobre Eça exercia aquele cenário e aquela época de transcendente relevância para o imaginário ocidental. A leitura de  Renan ecoa seguramente naquele fascínio, a par da memória  de  Eça, também ele  viajante pelo Egito e pela Palestina, nos finais de 1869 e, logo então, autor do relato, supostamente inacabado, “A Morte de Jesus” (inserto, por Marie-Hélène Piwnik, no volume Contos I, da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós).

Por aqui se vê que a relação de Eça com a religião, com o Cristianismo e com o seu legado espiritual, incluindo-se nele  o valor da santidade, vai muito além do anticlericalismo dos anos 70. Se é certo que esse anticlericalismo esteve congenitamente ligado a um programa ideológico reformista, a verdade é que ao longo dos anos ele foi dando lugar  a textos ficcionais e a textos cronísticos  que traduzem  uma atração quase idealista pela palavra cristã e pela santidade de matriz evangélica.

Aquele Eça a que nos habituámos a chamar último Eça tem tudo a ver com os sentidos que mencionei. Refiro-me, a este respeito e sem pretender ser exaustivo, a vários textos queirosianos dos anos 90 do século XIX, em muitos aspetos sintonizados com as Lendas de Santos e, em particular, com o São Cristóvão. A crónica “Um Santo Moderno”, publicada na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, em 1892, quando da morte do Cardeal Manning, aponta numa direção muito clara: é possível encontrar manifestações de uma  santidade essencial no final do século XIX,  fazendo emergir na agitação das grandes cidades o franciscanismo ou o exemplo de Santo Antão. No ano seguinte e também na Gazeta de Notícias,surgem duas crónicas  que reafirmam algumas das preocupações formuladas a respeito do “santo moderno”. Ambas se reportam às dúvidas que, em Eça e noutros mais, iam sendo provocadas pelos excessos da “religião” da ciência, pela doxa do pensamento positivista e pelos desígnios da democracia: em “O Bock ideal” e em “Positivismo e Idealismo” reaparecem, como alternativas àquela doxa, o espírito do Evangelho, a prática de vida que ele inspirava e mesmo a sugestão de um catolicismo social cujo mentor, Melchior de Vogüé (1848-1910), suscitava, contudo, algumas reservas a Eça de Queirós. Parece inquestionável, todavia, que a reação anti-naturalista que em “Positivismo e Idealismo” é descrita acaba por desembocar numa consolação: a de ser possível, livremente e sem censuras, invocar de novo esse “santo incomparável” (palavras de Eça) que foi São Francisco de Assis.

(Excerto de “Notas sobre a santidade em Eça de Queirós”, prefácio a uma tradução em inglês do São Cristóvão, a publicar por Tagus Press, University of Massachusetts Dartmouth)

São Cristóvão, em O Mosquito (1953), ilustrado por E. T. Coelho

São Cristóvão, em O Mosquito (1953), ilustrado por E. T. Coelho

 

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2 comentários

  1. O que é que o atual Papa (Francisco) tem a ver com “atração quase idealista pela palavra cristã e pela santidade de matriz evangélica” do último Eça? À primeira vista, diria nada! Talvez os tempos, tal como na época desse “último Eça”, sejam tempos de emergência de um outro “catolicismo social”, e aí, o nada pode ser muita coisa!! uma delas sei qual é – a atualidade do Eça.

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  2. Ana Paula Magalhães

     /  16 de Junho de 2014

    A atitude ideológica de Eça que o aproxima dos valores cristãos puros não o afasta de um posicionamento crítico realista, antes dele poderá advir. A Igreja, enquanto instituição, e os seus representantes humanos são alvo do Realismo pelas suas falhas e excessos (como está patente nas conferências),os princípios cristãos nunca me pareceram postos em causa, não obstante os aspetos mefistofélicos de algumas personagens de eleição que, no entanto, são também submetidas ao crivo do ideário realista (no que pode ser considerado uma perspetiva metacrítica), como Ega.
    Este último Eça, entretanto, elevado à aristocracia, via casamento, e cada vez mais próximo do fim da vida, faz, porventura, como é tão comum em tal fase da vida, um exame existencialista que o aproxima da religião, o que não obsta à sua visão clara, lúcida e acutilante sobre a prática comum da mesma.
    Grata por mais uma estimulante publicação.

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