Algum tempo depois de publicar Os Maias, Eça de Queirós tentou escrever uma versão teatral do seu romance. Disso existe o testemunho deixado por manuscritos que se encontram no espólio do escritor; neles encontra-se uma planificação de dois atos, mais o desenvolvimento de uma cena, com diálogos, efeitos musicais e de luzes, elenco de personagens e notações para cenários.
Eça não levou adiante este projeto, por razões que não são conhecidas, mas que podemos conjeturar. Por exemplo: aquele romance tem uma dimensão e uma complexidade que não são compatíveis com as reduções – de tempo, de espaço, de elenco de personagens, etc. – a que a reescrita para palco obrigava.
Há, entre outros, dois aspetos da construção romanesca d’Os Maias que não podem ser ignorados por nenhuma nova versão, noutro medium e para diferente público (entenda-se: um público espectador e não leitor). Assim:
- O tempo d’Os Maias é extenso e multiforme, por vezes tão “arrastado” como a vida social que no relato se ilustra. Essa temporalidade desenvolve-se em diálogos que mimetizam aquela vida social, com as falas, com as pausas e com os gestos próprios de jantares e de serões, de ceias e de saraus. Entre essas “cenas” o tempo não se detém: vai corroendo existências e tecendo destinos. Este outro tempo, tão invisível como insidioso, não pode ser abolido do relato nem do destino de uma família que se vai extinguindo à medida que o século avança. Uma versão outra d’Os Maias, no cinema, na televisão ou no teatro (todas elas foram já tentadas) não pode ignorar este tempo omnipresente.
- O tempo d’Os Maias é vivido por personagens. As rugas e os cabelos brancos que nelas vão surgindo expressam o devir de existências com uma dimensão histórica, cultural, familiar e social. Não é indiferente que algumas personagens sobrevivam ao longo de décadas, enquanto outras desaparecem ou aparecem apenas por momentos. Por exemplo: Tomás de Alencar. Ele está na juventude de Pedro da Maia, reaparece no tempo de Carlos da Maia e sobrevive ainda no capítulo epilogal do romance, já em 1887. Retirá-lo de um destes tempos é ignorar que Alencar é, afinal de contas, uma das grandes personagens d’Os Maias; e que nele está emblematizada uma entidade obsessiva e inescapável: chama-se romantismo essa entidade e o subtítulo do romance é muito claro a este propósito: “Episódios da vida romântica”.
São estas algumas das questões suscitadas pela versão cinematográfica d’Os Maias, realizada por João Botelho. Depois de se ver o filme (quem isto escreve acaba de assistir à ante-estreia) entra-se inevitavelmente num desafio de “confrontação” que envolve a leitura prévia do romance e os componentes que ficaram mencionados; um desafio que convida também a dialogar com tentativas similares, como é o caso da versão para televisão, por Maria Adelaide Amaral e Luís Fernando Carvalho, produzida pela Globo há alguns anos.


Maria Adelaide Amaral
/ 10 de Setembro de 2014VOCÊ NÃO CALCULA COMO FIQUEI CURIOSA A RESPEITO DESSE FILME!
BJS DA M.ADELAIDE
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Carlos Reis
/ 10 de Setembro de 2014Maria Adelaide, tanto quanto sei será exibido no Brasil.
Bjs.
Bianca
/ 10 de Setembro de 2014Ansiosa por poder contemplar mais essa adaptação da obra-prima do genial Eça! Tomara que chegue em breve aqui no Brasil!
Anna Luiza Camargo Bauer
/ 13 de Setembro de 2014Preciso ver esse filme! O quanto antes!
Silvio Cesar dos Santos Alves
/ 17 de Setembro de 2014Também estou ansioso… É mesmo sempre um desafio uma adaptação desse porte. Gostei muito da série televisiva, sobretudo da versão do Diretor, que é mais fiel à obra.
Maria Alcina do Carmo Dias
/ 20 de Outubro de 2014Não introduzo neste brevíssimo comentário a perene e porventura esgotada questão se é melhor o livro, ou a adaptação cinematográfica. Trata-se no meu entender de registos e suportes diferentes, pelo que na sua especificidade devem ser analisados, o que não impede a abordagem sobre aquilo que os une.
A leitura de João Botelho é frágil, neste tratamento híbrido de cinema/teatro; para além da dimensão do tempo acima mencionada, fica aquém o tratamento das personagens -a densidade psicológica e social das mesmas, a finura irónica e satírica com que Eça olha a sua época e que com ela podemos colher elementos para interpelar o presente, não nos chega. Para o público não leitor, fica pálida a curiosidade, e com ela a motivação para ir ao encontro da obra, o que constitui uma perda no meu entender, tanto mais significativa numa época em que se lê mais, mas porventura pior. Continuamos a aprender com os clássicos.
Todavia, apesar destes traços menos favoráveis, a ida à sala justifica-se: para o confronto texto/ imagem e na esteira deste, dialogar com Eça de Queirós, mesmo para aqueles cujo autor não faça parte do seu universo de referências.
Maria
Carlos Reis
/ 21 de Outubro de 2014Não posso estar mais de acordo. Grato pelo comentário.