Eça de Queirós jornalista

distrito-de-c3a9voraAssumindo temporariamente os papéis de redator e jornalista, a passagem pelo Distrito de Évora significa uma aprendizagem não só relativamente à falta de ética numa “cultura de conversação” (Zima, 1980), alimentada pela imprensa em coabitação com a política reduzida à retórica de autopromoção, mas também acerca da incessante produção de ‘novidades’ em todas as áreas, incluindo a literatura, sob as leis do mercado, como demonstra a primeira citação.

Desde o início, Eça não se identifica com uma escrita que obedece à lei mercantil do infontainment. No entanto, não cessa de utilizá-lo como “privilegiado meio de expressão e de comunicação”, procurando unir a formação de consciência crítica com entretenimento, o que inclui um “distanciamento crítico” em relação aos jornais e à atividade dos jornalistas (Baptista, 1988: 326). Apenas dois anos depois da sua experiência em Évora, é no Diário de Notícias – paradigma lisboeta do jornal de informação e entretenimento, seguindo o padrão do Petit Journal  parisiense –  que Eça, em parceria com Ramalho Ortigão, finge a autenticidade de um caso policial, apresentando a narrativa numa série de “Cartas ao editor”. Deste modo, O Mistério da Estrada de Sintra (1870), romance feuilleton  invulgar, joga com a construção mediática da realidade.

Neste contexto, o jovem Eça adquire uma consciência nítida da situação periférica de Portugal, cuja evolução lenta e dependente do modelo de urna civilização cosmopolita em ebulição, se torna, ao mesmo tempo, foco da sua decadência. Os folhetins na Gazeta de Portugal  bem como os textos no Distrito de Évora  já propõem um projeto terapêutico no contexto duplo da civilização moderna e da miséria portuguesa que ainda se repercute n’As Farpas,  logo na apresentação desta “Crónica mensal da Política, das Letras e dos Costumes”, em Junho de 1871 (…).

(Extrato de Orlando Grossegesse, “Jornais e high life. O papel dos media nos romances queirosianos”, in Queirosiana. Estudos sobre Eça de Queirós e a sua Geração, nºs 23/24, p. 138.)

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