Dois Fradiques

Quem é este Carlos Fradique Mendes de quem  falamos a propósito da língua portuguesa? Cito palavras de Eça de Queirós, numa carta a Oliveira Martins: Fradique foi um “verdadeiro grande homem, pensador original, temperamento inclinado às ações fortes, alma requintada e sensível… Enfim, o diabo!” Chega isto para conhecermos esta espécie de heterónimo que depois reaparece noutra carta, escrita, como aquela, no ano mágico de 1888? Talvez não, até porque,  duas linhas antes, Eça dissera: “Fradique, no nosso tempo, era um pouco cómico”. Afinal, havia outro.

Para encontrar esse outro, recuo uns vinte anos e leio o que vem na Revolução de Setembro (jornal influente, já se sabe) de 29 de agosto de 1869: “Habitando Paris durante muitos anos, conheceu o Sr. Fradique Mendes pessoalmente a Carlos Beaudelaire [sic], Leconte de Lisle, Banville e a todos os poetas da nova geração francesa”. Um Fradique bem relacionado, como se vê e, aparentemente, afrancesado (mas quem o não era, nesses tempos?). Só que este Fradique ia mais longe. De novo a Revolução: “O seu espírito em parte cultivado por esta escola é entre nós o representante dos satanistas do norte, de Coppert, Van Hole,  Kitziz, e principalmente de Ulurus, o fantástico autor das Auroras do Mal”.

Eram  quase risíveis  alguns dos títulos que a Revolução de Setembro anunciava: A Guitarra de Satã, Boleros de Pã e Ideias Selvagens, “três vastas epopeias” garantidamente já prontas a ler; e nelas, poemas bizarramente intitulados “Os beijos no Calvário” e “O testamento do abutre”. Apetece dizer aquilo que  mais tarde será escrito: “Éramos assim absurdos em 1867!” O ano, já se disse, não era 1867, mas 1869 e a diferença não é inocente. Pouco importa, contudo, porque o espírito do absurdo e da paródia  estava lá e bem vivo. Quem o alimentava eram o jovem Eça, mais Antero de Quental e Jaime Batalha Reis. E  a mistificação deu frutos:  houve quem procurasse  os livros dos tais “satanistas do norte”. Debalde:  Coppert, Van Hole,  Kitziz e Ulurus apenas existiam na bem fértil imaginação  dos três amigos.

Não direi que este é um “Fradique em botão”, mas é claramente um “primeiro Fradique Mendes” e já quase um heterónimo coletivo. Mas não nos apressemos: falta andar algum caminho na estrada que conduz ao heteronimismo pessoano, um caminho feito também de trabalho sobre a língua literária. Se Eça de Queirós parece tentado a ir por aí,  não o faz logo nesses anos 60 e já em vésperas de  uma outra provocação: O Mistério da Estrada de Sintra, romance epistolar (mas isso  só depois se soube)  composto em 1870  com o amigo Ramalho Ortigão.

É  no Mistério que reencontramos Fradique Mendes,  mencionado numa carta da misteriosa condessa W. Numa reunião mundana  Fradique Mendes  faz-se contador de proezas bizarras e  repulsivas. “Sentado num sofá com um abandono asiático, estava um homem verdadeiramente original e superior, um nome conhecido – Carlos Fradique Mendes”, diz a  condessa do Mistério. E acrescenta: “Fora amigo de Carlos Baudelaire e tinha como ele o olhar frio, felino, magnético, inquisitorial.”

De novo, Baudelaire. Mas agora há mais:  Fradique (diz ainda a  a condessa) “tocava admiravelmente violoncelo, era um terrível jogador de armas, tinha viajado no Oriente, estivera em Meca, e contava que fora corsário grego.” Sublinho: “contava que fora corsário grego”. Fradique já não é só poeta de versos por conhecer; ele é também contador de histórias. Uma dessas histórias é a de uma amante antropófaga que, no ardor da paixão, lhe ia levando um braço.  Palavras de Fradique, perante um auditório estupefacto: “A pobre criatura (…) untava os cabelos com um óleo ascoroso. Eu seguia-a pelo cheiro. Um dia, exaltado de amor, aproximei-me dela, arregacei a manga e apresentei-lhe o braço nu. Queria fazer-lhe aquele mimo! Ela cheirou, deu uma dentada, levou um pedaço longo de carne, mastigou, lambeu os beiços e pediu mais. Eu tremia de amor, fascinado, feliz em sofrer por ela. Sufoquei a dor, e estendi-lhe outra vez o braço… (…)  Comeu mais (…), gostou e pediu outra vez.”

Não se sabe até onde chega o repasto. O que se sabe é que este Fradique fica por aqui. Como quem diz: chega de paródia,  porque os anos 70 serão, para Eça, anos de construção de personagens a valer e não de congeminação de heterónimos, mesmo que “em botão”.

(“Conversa entre heterónimos”. “Tudo Língua”, Coimbra, 4.12.2015. Por ocasião do Congresso Internacional “Língua Portuguesa: uma Língua de Futuro”).

Vera Moutinho _CM9B7058

 Foto de Vera Moutinho, cedida pelo jornal Público

 

 

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