A edição crítica como amor e júbilo

 

Preparar uma edição crítica é uma medida terapêutica contra a impaciência. Dá imensa saúde e contribui para o aperfeiçoamento espiritual do editor. Uma edição crítica é um exercício de higiene mental, de humildade e de busca de rigor; é uma disciplina exigente, mas é também um caminho de amor e de júbilo. Não há realmente talvez, senão no amor, sentimento equivalente ao vínculo de intimidade possessiva que se estabelece entre o editor e o texto que ele edita. Esse sentimento é sedimentado pela longa familiaridade do editor com os sistemas orgânicos de significação da obra, com os seus delicados mecanismos de implicação, mutação e ressonância. E esse sentimento também é potenciado pela noção da extrema fragilidade e imperiosa justeza das decisões sucessivamente tomadas pelo autor, que o editor tenta reconstituir e compreender. Como se também do editor dependesse, de algum modo, a perfeição e a felicidade daquele corpo textual que ele recompõe.

Fazer uma edição crítica completa a nossa educação. Não se sai igual, depois de fazer uma edição crítica. Sai-se melhor (eu precisarei ainda de fazer mais umas tantas). (…)

Desfibrando e degustando cada vírgula d’O Mistério da Estrada de Sintra, aprendi a acamaradar com gente tão notável como Luísa, condessa de W., esplêndida adúltera oitocentista, tão atípica e tão autocrítica que é impossível condená-la; com a impetuosa Carmen Puebla, espanhola (ou cubana) veemente, ainda sem a sordidez de outras Lolas ou Conchas queirosianas, arrebatada de paixão e de alguma considerável perversidade erótica; com o mascarado alto (de que nunca se saberá o nome), personagem secundária e narrador que profundamente molda a história e o mundo que evoca, com as suas poses e a sua bisbilhotice, a sua elegância romântica e os seus silêncios; ou com Captain Rytmel, desconcertante e suspeito como os mais impulsivos namorados, e tão esquivo, tão louro e sedutor quanto convém – e tão talhado para vítima. E Fradique Mendes, claro, ainda a traço grosso, ainda muito melómano, muito dândi, muito satânico e muito oracular no folhetim de 1870, evoluindo rapidamente para um perfil mais discreto e sofisticado no livro do mesmo ano, mas inconfundivelmente Fradique Mendes; Fradique que cresce com Eça, sempre como ele um esteta e um ironista – cúmplice, delator e intérprete das paixões dos outros e da beleza das coisas.

   Ana Luísa Vilela, apresentação da edição crítica d’O Mistério da Estrada de Sintra. Lisboa, 8 de março de 2016 (extratos).

 

Capa MES

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