Educação literária: Os Maias

O trabalho que agora se publica tem um propósito definido e visa destinatários específicos.  O propósito: motivar e auxiliar a leitura d’Os Maias (e não substituí-la), naqueles aspetos em que isso é possível. Os destinatários: os alunos de Português do 11º ano do Ensino Secundário, em cujo programa aquele grande romance de Eça de Queirós aparece  como uma das obras de leitura integral.

É  sabido que a primeira dificuldade com que nos defrontamos, quando temos de  ler Os Maias, é a sua extensão. Trata-se, de facto, de um relato longo, trazendo até nós muitas personagens, diversos espaços, descrições pormenorizadas, expressões que, nalguns casos, podem não ser muito acessíveis. Para além disso, os costumes e os comportamentos do século XIX em que se passa a ação d’Os Maias estão já distantes de nós, embora não tanto como no caso de outros textos e autores de séculos anteriores, também do programa de Português.

E contudo, vale a pena tentarmos perceber em que medida alguns dos principais sentidos que encontramos n’Os Maias são capazes de nos alertar para temas e para problemas do nosso tempo. Por exemplo: a questão da educação e os seus reflexos na formação da pessoa adulta, a ilusão dos projetos concebidos e a desilusão causada pelo seu falhanço, os limites da nossa capacidade para decidirmos o nosso destino, a passagem do tempo e os seus efeitos, a importância que certos espaços têm nas nossas vidas, etc. A  atualidade de Eça e d’Os Maias percebe-se também quando observamos, no nosso tempo, comportamentos e figuras semelhantes ao que ali se nos depara: a ostentação, a mediocridade mal disfarçada, o culto das aparências, a vaidade, a ambição e as fraquezas do poder político, a ociosidade e os seus efeitos, a prática e os vícios do jornalismo, etc. É sobretudo nas personagens  que aquela atualidade se torna flagrante; por essa  razão,  a galeria dos tipos que povoam o romance pode ser considerada das mais ricas da nossa literatura.  (…)

Por fim, um desafio: mesmo quem acha que Os Maias são um relato não apenas longo, mas também lento e maçador (é mesmo verdade:  a descrição do Ramalhete é extensa…) deve fazer um esforço para ler o romance. Um esforço, repete-se. Como é bem sabido, sem isso não conseguimos resolver problemas difíceis, entender fenómenos históricos complexos ou  movimentos filosóficos de agora e de outras épocas. O mesmo  acontece com a leitura d’Os Maias. O que não parece certo é desistir antes de começar ou dizer que se não gosta daquilo que nem sequer se tentou conhecer, sobretudo quando a obra que aqui está em causa  revela o talento de escrita, a perspicácia crítica, a ironia e por vezes o humor de um grande escritor chamado Eça de Queirós.

(Extrato de “Nota Prévia” a Os Maias. Eça de Queirós. Coleção “Educação Literária. Leituras Orientadas”. Porto: Porto Editora, 2016, pp. 6-8).

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2 comentários

  1. Sim senhor. Fico curioso. Assim que chegar a Lisboa, vou procurar o livro. Acabei de ler há dias a edição da Guerra & Paz. Pergunto-me que diferenças irei encontrar. Um abraço!

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  2. Silvia Niederauer

     /  27 de Agosto de 2016

    Querido Professor, que trabalho interessante!!! Abraços, Silvia.

    Enviado do meu iPhone

    >

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