Carta de Fradique Mendes

Ao Senhor Diretor do Diário de Notícias

Califórnia, fins de janeiro

Senhor Diretor,

Respondo tardiamente ao seu pedido, recebido quando já me aprestava a partir dessas saudosas terras lusitanas que a distância torna mais doces e mais amenas. Tarefas urgentes têm-me desviado do dever de corresponder ao seu amável desafio, dever que agora gostosamente cumpro, sempre certo da sua bondosa tolerância. Pedia-me o meu amigo que lhe mandasse notícias desta América que, desde há dois séculos, tem atraído vagas de pioneiros e de imigrantes,  que fizeram sua  esta  Terra de Promissão. Como eles, boa e farta razão têm quantos olham ainda o Novo Mundo, como lugar fértil em sucessos de que se espanta o Velho Mundo, e não sem um frémito de inveja que bem se entende.

Mais ainda por estes dias, quando um novo presidente tomou as rédeas da mais poderosa nação do Universo, para regozijo de quantos nele veem o restaurador de uma Ordem e de um Poder perdidos. Das terras húmidas da Louisiana às planícies geladas do Minnesota e às faldas agrestes das Montanhas Rochosas, não são poucos aqueles que se deleitam a escutar a palavra fácil desse presidente que, de uma penada, resolveu varrer da vista dos seus fellow americans o estendal de desmazelos e de lascívias que têm debilitado estas terras outrora vigorosas.

Sobre estes e outros casos não preciso de entrar em detalhes. O Senhor Diretor e os seus fiéis leitores tomá-los-iam, muito justamente, por excessivos e até presunçosos. A agilidade com que as notícias hoje galopam pelo mundo, mais céleres do que boato em rumoroso bazar de Istambul ou do Cairo,  dispensa-me de falar com minúcia dos acontecimentos estupendos que esta grande nação tem vivido nas últimas semanas. Uma coisa tenho por certa: está a chegar a Hora, quero dizer, vem aí, e a largas passadas, o tempo de Redenção por que ansiavam muitos daqueles patriotas para quem o chapéu de aba retorcida, a bota de bico recurvo e, quiçá, o revólver expedito pendurado à cinta são emblemas de uma cultura, mais do que  atavios de circunstância. Porque essa América também existe  e sabe Deus com que energia!

Na distraída Europa estamos habituados a pensar que a América toda se espelha, com exatidão cristalina, na endinheirada Nova York, na Chicago espraiada à beira do grande lago ou na Califórnia do sol, das praias e da mundanidade de Beverly Hills. Erro e bem grosseiro! Há uma outra América, mais calada, menos vistosa e também menos amigável, uma América que também conta e que, se o meu Amigo permite o calembourg atrevido, faz a conta. Justamente: faz a conta aos impostos que paga, aos estrangeiros que chegam e aos empregos que saem – esses sacrossantos jobs que os americanos veneram.

Essa América profunda é exímia e pontual em fazer a barbecue no quintal, em  pendurar, com indisfarçado orgulho, a bandeira na varanda e, ao domingo, nunca deixa de cantar, com voz galharda e bem timbrada,  os salmos que o seu Pastor rege. É a América da tríade mágica God, my family and my country, a mesma que junta o rebanho familiar  em quinta-feira de Thanksgiving e adora aquela saudável comida a que nós, por maldosa ignorância, chamamos junk food – comida lixo! Essa é a América que se deleita na constante, às vezes cansativa invocação da family and friends, uma expressão que por aqui muito se ouve também, quem sabe se para espanejar o ranço  clerical daquela tríade, presente na memória de muitos dos nossos patrícios.  Não é  verdade que “o nosso Salazar” – como lhe chamava um meu saudoso tio açoriano – sempre proclamou, com uma suavidade cheia de sibilantes, a bondade da fórmula Deus, Pátria, Família?

Ora essa América profunda falou, quando foi “chamada às urnas”, como dizem os senhores amanuenses do ministério do Reino. Falou e o presidente eleito, de ouvido atento e sagaz, escutou. E o que escutou ele? Muito do que disse  à ansiosa nação americana e ao mundo boquiaberto, naquela sua arenga de 20 deste mês de janeiro, data que parece já pré-histórica, tantas e tão vivazes têm sido as novidades destes dias.

Nesse seu arrazoado, o presidente não mandou recados por ninguém: disse ele mesmo ao que vinha – e  ao que vem. Porque o senhor Diretor aprecia uma  síntese que  poupe a sua gazeta a maçadores circunlóquios, resumirei a sábia mensagem que nos foi arremessada com esta expressão textual: “America first!” E para que dúvidas não ficassem, a respeitável figura espetou o dedo e insistiu: “América first!” Quem não apreciará neste bondoso homem a virtude da clareza? Eu que muitas vezes me amofino quando o nosso pessoal político gagueja argumentos, sem decidir o que lhe vai na mente,  louvo a nitidez daquela mensagem tão transparente como  “as doces águas do Minho”, expressão que gulosamente colho do mavioso poeta Vidal. “America first!” Duas palavras singelas, mas quanta  profundidade e quanta verdade nelas se escondem! E também generosidade, Deus seja louvado! Porque, ao contrário do que disseram comentadores apressados, naquela frase não se esgrime nacionalismo, mas sim  abertura ao mundo. Abertura cuidadosa – mas abertura.

Responda o meu Amigo e, ao mesmo tempo, ajude-me a avançar nos semideiros do pensamento presidencial: o que se ensinava no compêndio de Geografia que no velho convento de S. Francisco acompanhou a minha adolescência estudiosa? Que por América se entende aquela alentada porção do mundo que vai da gelada Gronelância até ao traiçoeiro cabo Horn, por onde navegou o nosso valente Magalhães. Pois nesse continente de tão garridas gentes, todos cabem: o simpático canadiano e o descendente dos Navajos, o diligente agricultor de Wisconsin e o plácido mexicano  que esconde  a siesta debaixo do seu vasto sombrero, o peruano que habita os refegos dos Andes e o colombiano regalado com a fresca folha da coca, o nosso irmão brasileiro, sempre tão afetuoso,  e o orgulhoso argentino que cavalga pelos pampas. Esses todos e outros mais, que a bondade do Criador espalhou por aquelas terras pródigas. Como não entender naquela altaneira “America first!” o desejo ecuménico de todos envolver, com um abraço bem forte e bem caloroso, e de todos chamar para o abrigo da grande Casa Americana?

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É verdade que a mesma figura que isto proclama quer agora construir um muro, um grande e maciço muro, que demarque, com o rigor de uma linha traçada a lápis grosso, a fronteira com o vizinho México. Não poucos plumitivos, nesta América em que me encontro e por todo o mundo, têm verberado o projeto, pensando talvez que a grossa parede será defesa contra as investidas de um qualquer Pancho Villa renascido das cinzas. Puro engano! Depois de revolver na mente a ideia do muro, nela vejo só  vantagem e benefício que a todos encherão de gáudio, quando  a poeira assentar. A poeira que os trabalhos de construção hão de provocar, é claro, e mais aquela que a discussão, metaforicamente, sempre levanta.

Ajude-me o meu Amigo a argumentar. O que é um muro? Uma obstáculo que protege, mas também um empreendimento que fica, pelos séculos dos séculos, exibindo ao olhar incrédulo dos vindouros um testemunho  bem sólido  do engenho humano. Se o meu Amigo já viajou por essa China que tanto intriga o europeu, certamente recordará a impressão que lhe terá causado a Grande Muralha que corre do Mar Amarelo às paragens inóspitas da Mongólia. Para que ela pudesse existir, muitos séculos tiveram de passar e muita força de braços nela empenharam  milhares de chins, que assim puderam dar uma prova definitiva, se necessária era ela, da sua imensa paciência e da sua imensa capacidade de sacrifício.

Pois bem: impediu a Grande Muralha alguma conquista ou rechaçou alguma invasão? Não! Como ela, o muro – ou talvez já o Grande Muro – será não uma  empresa agreste e intolerante (como teimam em declarar algumas vozes que a baba do azedume inspira) mas o eco retumbante  do génio de um homem.  E assim, de uma assentada, o Supremo Arquiteto comete duas proezas:  cria incontáveis empregos (os tais jobs for the american boys) e lega ao futuro  uma obra sem igual. Tal como a sua  irmã chinesa, será ela admirada, com espanto incontido, pelos selenitas, esse simpático  povo que, das melancólicas paragens lunares, verá não apenas uma, mas duas construções  que glorificam o esforço humano. Isto para já não falar na sombra, bem fresca e bem acolhedora, que, de um lado e do outro, o muro há de oferecer ao texano encalorado ou ao indolente mexicano, ambos regaladamente defendidos do sol inclemente por esta que será maravilha sem par dos nossos tempos.

Parece-lhe isto, bom Amigo, pouca coisa? A mim não. Digo até que bem gratos devemos estar a estas eras e a estes homens que nos maravilham com tais falas e   com tais coisas! Passa-se isto numa América em que está viva ainda a lembrança  daquele outro aviso que, no seu tempo, um outro presidente soltou: a América para os americanos! Governava então os destinos da Europa a piedosa Santa  Aliança, com o severo Metternich à cabeça. Quando  suspeitou que o nariz inquieto do chanceler da Áustria se virava para estas paragens,  o atento James Monroe não hesitou e disse, bem alto e bem claro, que na América estavam acabados os tempos da colonização europeia. Na América e em todo o continente americano, entenda-se!

Depois disso, temos tido guerras e rebeliões, revoltas e insubmissões, mas a América manteve-se disciplinadamente fiel àquela doutrina. Será o “America first!” uma nova e atualizada versão do que disse Monroe, com a autoridade do founding father que também era? E até: será o brado “America first!” uma doutrina, com ponderado ideário e com pensamento elaborado? Não sei. Os tempos que correm vão pouco propícios para tais adivinhações, tão imprevisíveis e tão bruscos são os humores de quem agora governa a América. Mas sei (e isso me basta) que estamos protegidos. No discurso presidencial não faltaram, como é de uso nestas paragens, repetidos chamamentos ao bom Deus. “We will be protected by God”, disse o presidente. Muito precisamos dessa proteção – e precisamos dela até mesmo para nos protegermos dos protetores!

Que ela nos não falte, com a bondade que sempre acompanha a Providência divina, eis o voto que formulo, meu distinto Amigo, quando me despeço, com a cordialidade que lhe vota este seu

Carlos Fradique Mendes

 

 

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2 comentários

  1. Fernando Sá

     /  29 de Janeiro de 2017

    Excelente texto não só pelo estilo – soberbo -, mas ainda pela lucidez da análise destes tempos tão pouco promissores. Dá gosto ler, faz refletir, empurra-nos para a ação. Que outros estejam na calha.

    Responder
  2. Valéria

     /  30 de Janeiro de 2017

    Com isso, supro a curiosidade sobre o que estaria o Fradique pensando sobre o momento político em que está inserido. Ótimo texto!

    Responder

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