Eça: expressão da alteridade

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Os Maias: edição crítica (3)

Para além das considerações genéticas e da análise do projeto literário que,  com avanços e recuos,  certezas e vacilações, conduziu ao  texto d’Os Maias, importa notar que ele só se concretizou como romance na sequência de um processo de publicação consideravelmente demorado e atribulado. Incluindo incidentes que chegaram a fazer perigar a sobrevivência  da obra, esse processo de publicação envolve vários componentes e decisões: o dimensionamento e mesmo o redimensionamento de um relato amplo e complexo a que Eça chamou uma “vasta machine” (voltaremos a esta expressão), as reelaborações que, já em plena composição tipográfica, o escritor levou a cabo, os atrasos, as omissões e os desleixos que aquela composição conheceu, as inserções na imprensa, incluindo duas publicações integrais em folhetim, por fim a edição em livro propriamente dita. Como já sabemos, tudo isto arrastou-se por quase uma década, sendo notório que a ausência de Eça no estrangeiro (com exceção de  visitas a Portugal, algumas delas  durante a escrita do romance) era uma dificuldade suplementar, no tocante aos contactos inevitáveis com as gráficas por onde o romance passou, até ver a luz do dia, em 1888.

                Se incluímos o dimensionamento e o eventual  redimensionamento do romance na fase da publicação é porque acreditamos que, em parte, ele terá decorrido quando o trabalho tipográfico já estava em curso, uma vez que, em princípios dos anos 80, o romance se encontrava na tipografia. Com efeito, nessa altura  Eça debatia-se com provas e com tipógrafos;  ao mesmo tempo,  ia completando e talvez reformulando, em regime expansivo, o seu romance.

A hipótese que neste momento aventamos é a seguinte:  Eça pode ter procedido a intervenções substanciais tanto no texto do romance, como na economia interna da ação e do tempo, quando uma parte importante do original já estava na tipografia e possivelmente em provas; e isso  poderá ter obrigado a reajustamentos e a correções em capítulos e  em episódios  dados por concluídos.  Um indício que aponta no sentido de um desses reajustamentos (e é por isso que ele nos interessa) colhe-se num anacronismo detetado num passo do jantar do Hotel Central;  um lapso que é tanto mais estranho quanto é certo que Eça (e os romancistas coevos, em geral) cuidava ao extremo de todos os pormenores que pudessem pôr em causa a coerência e a verosimilhança interna da narrativa.

(Da “Introdução” a Eça de Queirós, Os Maias. Episódios da Vida Romântica. Edição de Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha. Lisboa: Imprensa Nacional, 2017).

(Mais informações aqui)

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