Os Maias como nunca os leu

Muito antes da divulgação tecnológica do efeito immersive world, já havia romances que constituem verdadeiros mundos, em que o leitor mergulha e deseja habitar para sempre. A melhor narrativa portuguesa de todos os tempos, Os Maias, obra máxima de Eça de Queirós, é um desses livros.

Romance da Lisboa oitocentista, entre o êxtase amoroso e a sordidez, este livro é perigoso: nunca nos curamos dele. Venenoso e envolvente, é preciso ler Os Maias em toda a sua fidedignidade e doloroso esplendor. A sua recente edição crítica, a cargo de Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha (Eça de Queirós, Os Maias. Episódios da Vida Romântica, edição de Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2017) enfim restituir-lhe a mais fiável inteireza textual, assim como reconstituir a sua história genética, editorial e genológica.

Dessa história apresenta a “Introdução” uma rigorosa síntese. A gestação conturbada d’Os Maias arrastou-se por dez anos, desde o projeto nebuloso, gizado por Eça em 1877-1878, seguido pelo penoso percurso da sua escrita e composição (agravado por tipógrafos “canalhas” e uma mudança desesperada de editora), até à acidentada publicação dos dois volumes do romance, em 1888. No decurso desse processo, têm os editores o cuidado de renovar os argumentos que, em devido tempo, exararam quanto à publicação do melodramático “protorromance” A Tragédia da Rua das Flores,  obra desequilibrada que integra a história da gestação d’Os Maias, e que o autor abandonou. De facto, o tema fulcral do incesto, assunto de extrema gravidade e comum a ambas as narrativas, é sobriamente tratado n’Os Maias, “com tanta reserva e numa meia-tinta tão severa, que não choca”, tal como Eça desde cedo asseverou.

Ana Luísa Vilela, “Os Maias como nunca os leu”, in Suroeste. Revista de Literaturas Ibéricas, nº 8, Badajoz, 2018, pp. 229-230. (continuar a ler)

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