Leopoldina

Eça e as suas personagens, por João Abel Manta

Personagem secundária do romance de Eça de Queirós, O Primo Basílio, publicado em 1878. Amiga de infância da protagonista, Luísa, a sua imagem pública sofre as consequências de um percurso de vida que a situa à margem das convenções moral e socialmente reconhecidas. Entregando-se a sucessivas aventuras extraconjugais que não esconde, Leopoldina não soube ou não quis atender às exigências de uma aparente respeitabilidade, ao contrário das outras que “manobravam com habilidade, onde ela, a tola, tivera só a sinceridade!” Se o reconhecimento desta situação, que ocorre na última cena em que a personagem participa, se faz acompanhar de um tom magoado e ressentido, o alvo desse ressentimento é a hipocrisia social sob que se acobertam os amores clandestinos de Lisboa. A mágoa, de resto, não faz parte da estrutura psicológica da personagem: encarando a vida com desenvoltura, Leopoldina adapta-se às circunstâncias e delas procura retirar o melhor possível. Assim reage às reservas que o marido de Luísa opõe à convivência entre as duas, aproveitando as ocasiões em que pode usufruir livremente da velha amizade que a ambas dá prazer.

Mais do que bonita, Leopoldina é uma mulher desejável, como fica claro no retrato físico que dela faz o narrador e no qual ganha relevo a beleza do corpo que a personagem não dissimula, mas antes revela pela audácia dos “vestidos muito colados, com uma justeza que acusava, modelava o corpo como uma pelica” (24). Algumas imperfeições maculam, porém, a beleza da face. Com exceção dos olhos: belos, “de uma negrura intensa” (24), neles habita o “fluido” de sedução e desejo que o retrato desenhado naturalmente requer.

(Maria do Rosário Cunha, “Leopoldina”, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler)

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