Sobre a historicidade na ficção queirosiana

No início do capítulo XI d’O Crime do Padre Amaro, lemos o seguinte: “Daí a dias, os frequentadores da botica, na Praça, viram com espanto o padre Natário e o dr. Godinho conversando em harmonia, à porta da loja de ferragens do Guedes. O recebedor, – que era escutado com deferência em questões de política estrangeira – observou-os com atenção através da porta vidrada da farmácia, e declarou com um tom profundo «que não se admiraria mais se visse Vítor Manuel e Pio IX passearem de braço dado!»”.

Numa pequena cidade de Portugal e no decurso de uma ação que transcorre na segunda metade do século XIX, duas personagens anteriormente caracterizadas são associadas a duas figuras históricas e a episódios por elas protagonizados. Deste modo, entram na cena da ficção queirosiana o rei da Itália em processo de reunificação e o pontífice que tenazmente se lhe opôs; é a esse conflito que aqui se alude, como que em projeção microscópica, quando os “frequentadores da botica” se dão conta da aparente e inesperada reconciliação de duas personagens até então em relação conflituosa.

Não basta aquela alusão para dizermos, d’O Crime do Padre Amaro, que é um romance histórico. Como se sabe, o que este subgénero implica, a partir da sua formação no contexto do romantismo europeu, é a coexistência reiterada e semanticamente consequente, “num mesmo universo diegético, de eventos e de personagens históricas e de eventos e de personagens inventadas” (Albert W. Halsall, L’art de convaincre : le récit pragmatique, rhétorique, idéologie, propagande. Toronto : Paratexte, 1978, p. 271). Essa coexistência suscita efeitos estruturais, semânticos e pragmáticos importantes, designadamente quando está em causa uma visão idealizada, por vezes até de teor restauracionista, do passado e, em particular, do passado medieval.

Não é disso, obviamente, que aqui se trata, quando são referidas figuras históricas trazidas à conversa provinciana dos fregueses de uma farmácia leiriense. E contudo, deduz-se daquela presença um óbvio efeito irónico e caricatural, atingindo alguém (um modesto funcionário da Fazenda Pública) “que era escutado com deferência em questões de política estrangeira”. Para mais, Vítor Manuel e Pio IX comportam significados históricos, políticos e ideológicos de atualidade, disseminando num romance naturalista uma historicidade que, no caso, o vincula ao tempo presente em que ele está implantado. O que, recorde-se, muito bem sintonizava com a doutrina e com a prática do naturalismo e da sua fixação nos fenómenos de uma atualidade degradada que importava reformar.

Este afloramento da historicidade num romance naturalista não se confunde com um outro tipo de presença da História na ficção, que Eça também cultivou. O caso mais conhecido dessa presença, num tempo literário que dista duas décadas d’O Crime do Padre Amaro, é o d’A Ilustre Casa de Ramires, traduzindo como que uma cedência do chamado último Eça àquilo a que ele mesmo chamou “o latente e culpado apetite do romance histórico” (carta ao conde de Ficalho, in Correspondência. Lisboa: Caminho, 2008, vol. I, p. 370). Cedendo àquele apetite, Eça problematiza, no plano ficcional e no plano metaficcional, as relações entre História e ficção e as implicações ideológicas resultantes da sua aproximação ao romance histórico, em contexto finissecular e no ambiente político que se seguiu ao Ultimato britânico de 1890; esta é uma matéria já amplamente estudada e que, para além disso, sempre pode ser ilustrada com sugestivas reflexões do escritor, em cartas em que ele se debruça sobre a questão da História.

(“‘Entre os parágrafos mortos da História’. Sobra a historicidade na ficção queirosiana”, in Revista de Estudos Literários 9, 2019, 85-113). (Artigo completo)

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