Carlos da Maia: o fracasso de uma geração

No respeitante aos significados extensionais que sugere, Carlos da Maia pode ser lido como figura em quem enviesadamente se projetam limitações e frustrações que o contexto cultural e mental dos “episódios da vida romântica” ajuda a explicar. A falta de ânimo e de empenho anunciam nele uma atitude de vencidismo (cf. Lima, 1987: 227 ss.) perante a vida e perante uma sociedade dominada pelo estigma do romantismo, como se isso correspondesse a uma fatalidade irreversível; tenha-se em atenção que o próprio nome da personagem aponta no sentido daquela fatalidade: quando Carlos nasce, Maria Monforte “andava lendo uma novela de que era herói o último Stuart, o romanesco príncipe Carlos Eduardo; e, namorada dele, das suas aventuras e desgraças, queria dar esse nome a seu filho… Carlos Eduardo da Maia! Um tal nome parecia‑lhe conter todo um destino de amores e façanhas” (90-91). Cumprido o ciclo do falhanço existencial, é o amigo João da Ega, num regime dialógico não isento de contradições (cf. Reis, 1999: 131-136), que pergunta e logo responde: “Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento e não pela razão…” (695)

Carlos da Maia, por Wladimir Alves de Souza

Até certo ponto, Carlos e alguns dos que o rodeiam trazem consigo a evidência do fracasso de uma geração que prometia uma mudança das mentalidades e das instituições. O falhanço é assumido pela personagem (“falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação”; 694), num epílogo amargurado em que os sentidos da decadência nacional (um tema que liga “a produção literária queirosiana a preocupações históricas e ideológicas assumidas pela Geração de 70”; Reis, 2009: 204), do já mencionado vencidismo e de uma certa sobranceria perante os males da pátria aproximam Carlos de um seu homónimo: Carlos Fradique Mendes (cf. Saraiva, 2000: 131-148; Reis, 1999: 137-151).

A personagem Carlos da Maia tem dado origem a um número considerável de refigurações, em diferentes linguagens e contextos mediáticos, e também a várias derivações transficcionais. No que a estas diz respeito, destaque-se o conjunto de seis relatos, Os Novos Maias (edição Expresso, em 2013; série Eça agora), por José Luís Peixoto, José Eduardo Agualusa, Mário Zambujal, José Rentes de Carvalho, Gonçalo M. Tavares e Clara Ferreira Alves, incidindo, em exercício ficcional, sobre o destino da personagem, a seguir ao desenlace e epílogo d’Os Maias; num plano semelhante, A. Campos Matos publicou o Diário íntimo de Carlos da Maia (1890-1930) (Edições Colibri, 2014). No teatro, deve ser mencionada, entre outras, a versão de José Bruno Carreiro, encenada em 1945 (com Raul de Carvalho no papel de Carlos) e reencenada em 1962 e 1963 (com Paiva Raposo). No domínio das adaptações televisivas e cinematográficas, Carlos da Maia é protagonista em realizações de Ferrão Katzenstein, de Luiz Fernando Carvalho (com guião de Maria Adelaide Amaral) (cf. Flory e Moreira, 2006; Vicente, 2018) e de João Botelho, com interpretações de, respetivamente, Carlos Carvalho, Fábio Assunção e Graciano Dias. Edições ilustradas e séries de gravuras (por Alberto de Sousa, Bernardo Marques, Wladimir Alves de Souza e Rui Campos Matos, entre outros) deram igualmente corpo a Carlos da Maia, em diversos estilos e técnicas.

(C. Reis, “Carlos da Maia”, Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler aqui).

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