A fortuna brasileira de Eça de Queirós é antiga, diversificada e não isenta de controvérsia. Para ela contribuíram escritores, artistas plásticos, universitários, leitores anónimos e de cultura de intensa devoção: devoção propriamente literária, gastronómica e comportamental. No presente texto passaremos em revista, de forma pouco sistemática, algumas das leituras e intervenções que ajudaram a fazer de Eça de Queirós uma figura absolutamente incontornável na história das relações culturais luso-brasileiras.
O estudo Eça, discípulo de Machado? Constitui hoje um clássico da bibliografia queirosiana, em grande parte porque a extensa análise da crítica de Machado de Assis orientou-se no sentido de mostrar que dela decorreram mutações decisivas na história literária queirosiana, mutações desde logo traduzidas na reescrita d’O Crime do Padre Amaro; que as teses de Machado da Rosa são verdadeiras foi o que pudemos recentemente observar e reforçar, na edição crítica d’O Crime do Padre Amaro e no estudo introdutório que a acompanha. Aí ficou sublinhado também que Machado de Assis não estava interessado em explorar a questão de eventuais plágios levados a cabo por Eça (embora tenha sido assim que os textos de Machado foram muitas vezes interpretados), mas antes na pertinência do Naturalismo, na sua coerência artística e na sua concretização literária; que assim foi mostra-o também o diálogo (afinal não consumado) que Eça esboçou com Machado, ao redigir um texto doutrinário e de resposta polémica que, afinal, não chegou a publicar [conhecido pelo título “Idealismo e Realismo”]. Seja como for: esse episódio em muitos aspetos fundador fica como um momento fugaz, mas muito significativo, da interação literária que chegou a existir entre os dois maiores romancistas da língua portuguesa; e fica também como evidência do interesse que a obra de Eça suscitou no Brasil, desde muito cedo.
Esse interesse, já o sugerimos, reveste formas e adota gestos que não raro transcendem o âmbito da leitura crítica propriamente crítica. Embora não sejam essas formas e gestos por vezes singulares que aqui importam, vale a pena mencionar, de passagem, algumas das suas manifestações. Refira-se, então, que as primeiras adaptações teatrais de textos queirosianos foram feitas no Brasil, com nada menos do que três versões e duas representações d’O Primo Basílio em 1878, ou seja, no próprio ano de publicação do romance. Para além disso, Eça ocupou a atenção de diversos artistas plásticos, no Brasil. Dois casos: o do monumento da autoria do português Rodolfo Pinto do Couto, com um busto do escritor em baixo relevo, num medalhão em bronze, monumento que hoje se acha na zona de Botafogo, no Rio de Janeiro (e por sinal em local pouco acessível, praticamente no meio do frenético trânsito carioca); o outro caso é o de Wladimir Alves de Souza, autor de vinte gravuras em água-forte, contemplando sobretudo personagens d’Os Maias [reproduzidas na obra de Frederico Perry Vidal, Os enigmas de Eça de Queirós. s.l.: Seara Nova Editores, 1995].
As gravuras de Alves de Souza foram, aliás, elaboradas no contexto de uma sociedade eçófila, designada “Clube do Eça”, que, a partir de 1955, no Rio de Janeiro, suscitou jantares e atividades culturais a eles associadas. Trata-se de um tipo de manifestação que, não sendo original, traduz um imaginário de socialização de um escritor e das suas ficções, sem grandes consequências de natureza crítica ou histórico-literária, antes motivando episódios e discursos não isentos de um certo elitismo. Eça de Queirós adequa-se muito bem a iniciativas como a referida, não só por força da sua singular personalidade (personalidade trabalhada também por um certo efeito de ficcionalização), mas sobretudo porque os seus romances e as personagens que o povoam convidam a movimentos de emulação, estimulados pela sedutora atmosfera social e cultural que os caracteriza: de certa forma, apetece imitar os gestos e as tiradas das personagens de Eça e recriar ementas e indumentárias, quando a leitura dos romances não pretende (ou não consegue) passar desse nível de reação.
(extrato de C. Reis, “Leitores brasileiros de Eça de Queirós: algumas reflexões”, in Ecos do Brasil: Eça de Queirós, leituras brasileiras e portuguesas. Org. de Benjamin Abdala Júnior. 2ª ed. rev. e ampliada. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2019, pp. 32-34).