Eça de Queirós

Bonifácio

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Pode um gato ser personagem num grande romance onde não faltam figuras humanas marcantes? Pode, evidentemente.

Logo no início d’Os Maias, quando se procede à figuração de Afonso da Maia, não estão em causa apenas os seus atributos lembrando um “varão esforçado das idades heroicas” (Os Maias, ed. Imprensa Nacional, 2017, p. 67). Completa-se essa imagem com “um pesado e enorme angorá, branco com malhas louras, [que] era agora (…) o fiel companheiro de Afonso.” O gato tem um nome que vai mudando: “Tinha nascido em Santa Olávia, e recebera então o nome de Bonifácio: depois, ao chegar à idade do amor e da caça, fora‑lhe dado o apelido mais cavalheiresco de D. Bonifácio de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara definitivamente no remanso das dignidades eclesiásticas, e era o Reverendo Bonifácio…” (p. 68).

Regularmente, o gato aparece nas páginas d’Os Maias como membro da família e, mais do que isso, como signo-animal da temporalidade que estrutura o romance. É esse o sentido – o da passagem do tempo – das mudanças de nome, acompanhando o processo que vai da juventude à velhice. O mesmo processo, afinal, vivido por Afonso da Maia e por outras figuras do romance, com destaque para Tomás de Alencar. Por fim, é o reverendo Bonifácio que chora a morte do patriarca: à porta do quarto vazio que abrigara o dono, “recomeçou a miar, num lamento agudo, saudoso como o duma dor humana, chorando o dono perdido que o acariciava no colo e que não tornara a aparecer” (p. 663).

(Extrato de C. Reis, “Animalidade e humanidade”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, 1315, 24.2.2021, p. 20)

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