Eça de Queirós

Vida e sobrevida de uma personagem

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Acácio por Bernardo Marques

Pela sua condição de tipo e pelo seu potencial de representação temática  de personagem que não evolui ao longo da ação, o conselheiro Acácio ilustra o “formalismo oficial”, assim designado numa conhecida carta de Eça a Teófilo Braga, de 12 de março de 1878. Trata-se, afinal, daquela mentalidade “conselheiral” a que o escritor várias vezes se referiu, sobretudo em textos doutrinários e de polémica; a isso junta-se a hipocrisia moral de quem, defendendo as instituições e os bons costumes, vivia “amancebado com a criada” (O Primo Bazílio; ed. Dom Quixote, 1990, p. 41) e escondia na gaveta da mesa de cabeceira um “volume brochado das poesias obscenas de Bocage!” (314). Não por acaso, é Acácio quem redige o necrológico de Luísa, num estilo em que se projetam os atributos que aqui têm sido mencionados: começando por citar o “imortal Garrett”, a prosa do conselheiro continua assim: “‘…Mais um anjo que subiu ao Céu! Mais uma flor pendida na tenra haste que o vendaval da morte, em sua inclemente fúria, arremessou mal desabrochada para as trevas do túmulo…’” (420).

Tudo isso ajudou a gerar a sobrevida de uma figura que pode também ser relacionada com outras personagens queirosianas (por exemplo, Sousa Neto, d’Os Maias) e ainda, mais distanciadamente, com o flaubertiano Homais. A personalidade, os gestos e a mentalidade de Acácio deram lugar ao adjetivo acaciano, uma singular afirmação da sobrevida da personagem no plano idiomático, sobrevida essa que começa, em movimento transficcional, no contexto da própria ficção queirosiana. N’A Correspondência de Fradique Mendes, ao fazer um resumo daquilo que na vida existe de contraditório, Fradique diz: “Em resumo adoro a Vida — de que são igualmente expressões uma rosa e uma chaga, uma constelação e (com horror o confesso) o conselheiro Acácio” (ed. Imprensa Nacional,  2014, p. 152); depois, na carta sobre Pacheco, pode ler-se o seguinte, a respeito da morte daquela espécie de parente próximo do conselheiro: “Jaz no Alto de S. João, sob um mausoléu, onde por sugestão do senhor conselheiro Acácio (em carta ao Diário de Notícias) foi esculpida uma figura de Portugal chorando o Génio” (250-251).

Num outro plano, o conselho Acácio deu origem a uma vastíssima galeria de refigurações, no cinema, na televisão, no teatro, nas artes plásticas, etc. Em filmes e em séries de TV, em realizações de Georges Pallu, de António Lopes Ribeiro ou de Daniel Filho , entre outros,  o casting foi favorecido pela mesma “nitidez de traços que faz de Acácio a personagem mais consensual, em termos iconográficos, de toda a galeria queirosiana: são incontáveis os artistas plásticos, com maior ou menor projeção, que fixaram, em diversas épocas, suportes e enquadramentos, a figura de Acácio. Alguns deles: Saavedra Machado, Alberto de Sousa, Lima Belém, Arnaldo Ressano, Fernandes da Silva, Leonel Cardoso, João Valério, Bernardo Marques, Rocha Vieira, Santana e António” (C. Reis, “Figurações queirosianas: a personagem n’A Correspondência de Fradique Mendes”). 

Confirmação plena da sobrevida da personagem: a sua entrada no espaço público, referida em textos de imprensa, quase sempre com propósito crítico, pela via de comparações desprestigiantes. Noutros termos: ser comparado com o conselheiro Acácio, na vida cultural, social ou política, não é, decididamente, um elogio que se deseje (veja-se https://oglobo.globo.com/opiniao/conselheiro-acacio-18037556 e https://expresso.pt/economia/2019-11-24-Resposta-ao-Conselheiro-Acacio-Louca; acessos a 23.2.2021).

(C. Reis, “Conselheiro Acácio”, Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; artigo integral aqui).

Conselheiro Acácio, por António

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