Eça no Canal de Suez

Dizia‑se que o «Latife», pequeno vapor que na véspera tinha partido como explorador, encalhara; que os navios reais e imperiais, os vapores egípcios com os convidados não podiam passar na estreiteza do canal, e que apesar de alijados da sua artilharia, e sem lastro, pediam mais água do que o canal tinha de profundidade; que o vice‑rei e Mr. De Lesseps tinham partido para ver o «Latife»; que se resolvera, em último caso, fazê‑lo saltar; que as festas cessavam, e tudo regressava a Alexandria, como no tempo das derrotas de Actium.

              Em Port Said e a bordo dos navios havia inquietações: os comissários, as oficialidades, os engenheiros, interrogados, calavam‑se discretamente, esperavam ordens de Ismailia – e receavam. Com efeito o «Latife» estava encalhado. Isto, em primeiro lugar, demonstrava a impraticabilidade do canal – o «Latife» é um pequeno vapor, estreito, calando pouco, quase um rebocador. Além disso, era um obstáculo material, brutal, a que os outros navios fizessem uma tentativa corajosa.

Primeira travessia do Canal de Suez

              Dizia‑se que o vice‑rei estava desolado, que Mr. De Lesseps perdera a sua habitual e impassível firmeza de espírito, e que se telegrafara para Paris anunciando o resultado desastroso. Realmente, depois de dez anos de tantos esforços e tantas lutas, tantos combates com o deserto, e tantos combates com a intriga, depois de tantos milhões sorvidos pelas areias, de tantas vidas aniquiladas, de tantos créditos fundados, de tantas festas anunciadas, depois das bênçãos de Mr. Bauer e das ovações a Mr. De Lesseps, era doloroso ver tudo aquilo findar repentina e vergonhosamente, ver‑se que num canal feito para a navegação não cabiam navios, que aquilo era uma obra ridìculamente grandiosa, e que em lugar de tudo terminar em triunfos, tudo terminava em gargalhadas! Estivemos nestas incertezas parte do dia. Esperava‑se o vice‑rei, que fora num pequeno escaler ao canal ver o desastre do «Latife». Enfim, pelo começo da tarde, os navios começaram a mover‑se, as inquietações findaram, o vice‑rei voltava, o «Latife» estava desencalhado, a «Águia» seguia, e a obra de Mr. De Lesseps começava a justificar‑se.

              O «Fayoum», então, penetrou corajosamente no canal. O «Fayoum» era o maior navio do cortejo. Caminhava‑se com grande cuidado; no meio do canal bandeiras brancas marcavam precisamente a linha que deviam seguir os navios, para acharem a necessária profundidade de água. Conservavam‑se minuciosamente em distância; ia‑se devagar, sondando; havia mais cuidados e escrupulosos receios, do que na navegação de um labirinto de rochas. Na realidade, o canal aparecia‑nos estreito, baixo, e a cada momento receávamos ver a proa do navio ir atufar‑se nas areias das margens elevadas. O canal, ao sair de Port Said, atravessa o Mensaleh, antigo lago lamacento. Nós víamos de ambos os lados do canal reluzir ao sol aquela água morta, pesada, esverdeada.

(Crónica de viagem publicada por Eça de Queirós no Diário de Notícias, a 19 de janeiro de 1870, por ocasião da inauguração do Canal de Suez, a que o escritor assistiu, durante a sua viagem ao Egito e à Palestina)

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