Aforismos

Aforismo: máxima ou sentença que, em poucas palavras, explicita uma regra ou um princípio de alcance moral (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa). Também chamado apotegma, o aforismo incrusta-se nos textos ficcionais literários  (e em geral nos textos literários) como um saber adquirido, que suspende momentaneamente o curso do relato e interpela o leitor, desafiando-o a aderir à máxima enunciada. É essa a força pragmática do aforismo, usualmente formulado num presente abstrato que transcende o universo da ficção.

Nos textos de Eça de Queirós,  o aforismo provém da reflexão do narrador, do discurso das personagens ou do escritor feito cronista, ensaísta ou epistológrafo. É o aforismo que ajuda a configurar um pensamento crítico e esboça juízos de incidência  ideológica e genericamente cultural, com feição social e histórica.

  • Arte: A arte é um resumo da Natureza feito pela imaginação. (A Correspondência de Fradique Mendes, cap. V)
  • Bisbilhotice: Amigo meu, não despreze a bisbilhotice! Ela é um impulso humano, de latitude infinita, que, como todos, vai do j-1998-p_1880-07_230_t0areles ao sublime. Por um lado leva a escutar às portas – e pelo outro a descobrir a América! (A Correspondência de Fradique Mendes, cap. V).
  •  Ciência: Só o grau vale e importa, porque justifica o despacho [para um emprego fácil]. A ciência é a formalidade penosa que lá conduz – verdadeira provação, que, depois de atravessada, não deixa no espírito desejos de regressar à sua disciplina, à sua aridez, à sua canseira. (A Correspondência de Fradique Mendes, carta XIV “A Madame de Jouarre”)
  • Diletante: O diletante, com efeito, corre entre as ideias e os factos como as borboletas (a quem é desde séculos comparado) correm entre as flores, para pousar, retomar logo o voo estouvado, encontrando nessa fugidia mutabilidade o deleite supremo. (A Correspondência de Fradique Mendes, cap. V)
  • Europeu: O homem do século XIX, o Europeu, porque só ele é essencialmente do século XIX (diz Fradique numa carta a Carlos Mayer), vive dentro de uma pálida e morna infeção de banalidade, causada pelos quarenta mil volumes que todos os anos, suando e gemendo, a Inglaterra, a França e a Alemanha depositam às esquinas, e em que interminavelmente e monotonamente reproduzem, com um ou outro arrebique sobreposto, as quatro ideias e as quatro impressões legadas pela Antiguidade e pela Renascença. O Estado por meio das suas escolas canaliza esta infeção. A isto, oh Carolus, se chama educar! (A Correspondência de Fradique Mendes, cap. V)
  • Grau académico: Só o grau vale e importa, porque justifica o despacho [para um emprego fácil]. A ciência é a formalidade penosa que lá conduz – verdadeira provação, que, depois de atravessada, não deixa no espírito desejos de regressar à sua disciplina, à sua aridez, à sua canseira.  (A Correspondência de Fradique Mendes, carta XIV “A Madame de Jouarre”)
  • Ideias: As ideias, para agradar, devem ser como as maneiras, «geralmente adotadas» e não individualmente criadas (…). (A Correspondência de Fradique Mendes, cap. V)
  • Originalidade: A originalidade é agradável às mulheres e só desagradável aos homens – o que duplamente me leva a amá‑la com pertinácia. (A Correspondência de Fradique Mendes, cap. V).
  • C.  Fradique Mendes por António

    C. Fradique Mendes por António

    Realidade: Todo o fenómeno (diz ele numa carta a Antero de Quental, sugestiva através de certa obscuridade que a envolve) tem uma Realidade. A expressão de Realidade não é filosófica; mas eu emprego‑a, lanço‑a ao acaso e tenteando, para apanhar dentro dela o mais possível de um conceito pouco coercível, quase irredutível ao verbo. Todo o fenómeno, pois, tem, relativamente ao nosso entendimento e à sua potência de discriminar, uma realidade – quero dizer certos carateres, ou (para me exprimir por uma imagem, como recomenda Buffon) certos contornos que o limitam, o definem, lhe dão feição própria no esparso e universal conjunto, e constituem o seu exatoreal e único modo de ser. (A Correspondência de Fradique Mendes, cap. V)

  • Santos: E os Santos, na opinião de padre Salgueiro, formam uma Casta, uma Aristocracia espiritual, com obrigações sobrenaturais que lhes são delegadas e pagas pelo Céu.  (A Correspondência de Fradique Mendes, carta XIV, “A Madame de Jouarre”)
  • Turista: Estes touristes da inteligência abundam em França e em Inglaterra. Somente Fradique não se limitava, como esses, a exames exteriores e impessoais, à maneira de quem numa cidade do Oriente, retendo as noções e os gostos de europeu, estuda apenas o aéreo relevo dos monumentos e a roupagem das multidões. (A Correspondência de Fradique Mendes, cap. V)
  • Verdade: Tudo preferiria – menos (como ele diz numa carta a Madame de Jouarre) «ter de vestir a Verdade nos armazéns do Louvre para poder entrar com ela em casa de Ana de Varle, duquesa de Varle e de Orgemont. A entrar hei de levar a minha amiga nua, toda nua, pisando os tapetes com os seus pés nus, enristando para os homens as pontas fecundas dos seus nobres seios nus. Amicus Mundus, sed magis amica Veritas! (A Correspondência de Fradique Mendes, cap. V)
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1 Comentário

  1. Anna Luiza Camargo Bauer

     /  13 de Setembro de 2014

    Pessoalmente, vejo algumas semelhanças entre os aforismos que provêm de falas/atitudes dos personagens queirosianos e personagens de Machado de Assis. As críticas emergem através das personagens.

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