Grupo Eça: A Relíquia e O Mandarim

Teodorico Raposo, por António

O livro aqui apresentado constitui a concretização de pesquisas e discussões, realizadas ao longo de dois anos, acerca de A relíquia e O mandarim, de Eça de Queirós, promovidas pelo Grupo Eça, registrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico — CNPq. Fundado em 2003, o grupo cresceu com a participação de alunos de graduação e pós-graduação da Universidade de São Paulo e, a partir de 2013, tornou-se interinstitucional contando com a participação de professores e pesquisadores de diversas universidades brasileiras e atingiu a internacionalização, em 2016, com a participação de pesquisadores portugueses ligados a diferentes universidades em Portugal, França e Estados Unidos.

A primeira publicação de ensaios resultantes de pesquisas dos integrantes do grupo veio a público em forma digital (http://ge.fflch.usp.br), em 2015, sob o título A obra de Eça de Queirós por leitores brasileiros. Entretanto, a proposta de tratar separadamente os romances de Eça de Queirós — e outras obras –, a cada dois anos, teve início, em 2014 na Universidade de São Paulo, com a realização do “I Encontro do Grupo Eça: a primeira versão de O crime do padre Amaro”. Conforme enuncia o título do evento, as discussões estiveram voltadas ao estudo do primeiro romance publicado em vida pelo autor e suas edições posteriores. Duas foram as diretrizes daquele projeto: publicar uma edição em livro da primeira versão completa desse romance somente impresso na Revista Ocidental, em 1875 — visto que sofreu profundas reformulações em 1876 e 1880 — e elaborar estudos cujo foco recaísse sobre versão original. Produto desse encontro, a coletânea intitulada O crime do padre Amaro — Eça de Queirós — texto da primeira versão e ensaios saiu pela Editora da Universidade Estadual de Maringá (EDUEM), em 2019. No mesmo ano, foi publicado o livro Novas leituras queirosianas: O primo Basílio e outras produções, resultante dos trabalhos de pesquisa apresentados no “II Encontro Internacional do Grupo Eça: O primo Basílio e outros ensaios”, realizado na Casa de Portugal, na cidade de São Paulo, em 2016.

Dando continuidade à produção investigativa do Grupo, A relíquia do mandarim constitui a terceira obra coletiva, congregando o produto das pesquisas apresentadas durante o terceiro evento do grupo. O “III Encontro Internacional do Grupo Eça: O MandarimA Relíquia e suas Fricções” inovou ao sair de São Paulo, origem do Grupo, sendo realizado em duas etapas: a primeira, organizada pelo Programa de Pós-Graduação em Letras e pelo Departamento de Literatura da Universidade Federal do Ceará (UFC), teve lugar nos dias 29, 30 e 31 de outubro de 2018, no Centro de Humanidades da UFC, em Fortaleza; a segunda, numa parceria entre o Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, o Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho (CEHUM), a Fundação Eça de Queiroz, a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal do Ceará (UFC), aconteceu nos dias 26 e 27 de novembro de 2018, nas dependências da Fundação Eça de Queiroz, em Santa Cruz do Douro, Portugal. O apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), por meio do PAEP, possibilitou a participação em Fortaleza dos principais nomes da crítica queirosiana espalhados por universidades do Brasil e da Europa, assim como o apoio do CEHUM e da FEQ possibilitou a participação de pesquisadores brasileiros e portugueses na segunda etapa.

Ana Marcia Alves Siqueira e José Carlos Siqueira de Souza, “Apresentação” a A relíquia
do mandarim. Org. por Ana Marcia Alves Siqueira e José Carlos Siqueira de
Souza. Rio de Janeiro : Oficina Raquel, 2020. (Acesso livre aqui)

A santidade segundo Eça

“São Cristóvão” compõe, junto com “Santo Onofre” e “São Frei Gil”, as Lendas de Santos, escritas por Eça de Queirós (1845-1900) em data incerta, durante a década de 1890, e publicadas postumamente, em 1912, por Luís de Magalhães, em Últimas Páginas.

Cristóvão nasce disforme, escuro e enorme, tendo a aparência de um monstro, “(…) todo ele parecia uma raiz sombria, raiz de árvore estranha, ainda negra da terra negra que fora arrancada. E nem gemia. Era como o rudimento de um vegetal” (Queirós, 1945: 30). Intimamente conectadas com as características físicas, suas marcas de santidade, manifestadas desde a infância, são relacionadas a elementos naturais, simples e alegres, em oposição a um modelo de santidade ascético, contemplativo e institucional, representado ao longo da obra pelo contato de Cristóvão com religiosos de mosteiros e eremitérios, que viviam sob dogmatismos e transpareciam tristeza, orgulho e egoísmo.

A aversão a essa realidade e a convivência com um casal de namorados apaixonados, bem como com diversos religiosos mendicantes, que difundiam um Jesus bastante humanizado, adepto incondicional dos mais necessitados, fazem Cristóvão muito cedo decidir-se pelo trabalho desinteressado, dedicado aos miseráveis e excluídos. Entretanto, muitos dos que ele ajudava, depois de utilizarem-se de suas forças, o desprezavam, ultrajavam e humilhavam, sempre impelidos pelos poderosos das localidades que invejavam Cristóvão por conta da popularidade naturalmente adquirida. Nesses reveses, a admiração por Jesus aumentava, pois ele se reconhecia nas perseguições e incompreensões pelas quais o mesmo passara.

O ponto culminante de sua doação plena se dá quando a personagem adere à causa das Jacqueries, uma turba de revoltados violentos que, descontentes com a vida miserável e de exploração, exigiam dos reis uma resolução para a situação abjeta à qual estavam sujeitos. Sob os auspícios do “bom gigante”, o grupo de revoltosos transformou-se: “Uma doçura ia tomando aqueles corações da turba miserável” (Queirós, 1945: 156). Todavia, ao envolverem-se em uma batalha sangrenta contra cavaleiros, muitos morrem, e Cristóvão acaba ferido, à beira da morte.

É nesse ponto da narrativa que o protagonista tem duas visões: uma na qual os Jacques, mortos em batalha, renascem mais numerosos, e saem vitoriosos no embate contra os cavaleiros; outra, em que um indivíduo, cuja descrição indica ser um anjo, cura-lhe as feridas e lhe dá novo ânimo para que volte a percorrer o mundo em busca de novas pessoas a quem servir, pois, segundo o narrador, “a sua ternura abrangia o universo” (Queirós, 1945: 174). Pondo-se em marcha, “o bom gigante” chega a um rio cuja travessia era muito difícil. Tão logo percebe as dificuldades das pessoas em atravessá-lo, prontifica-se em ajudar. Será em tal ofício que permanecerá até à velhice, transportando homens, animais, fardos de qualquer tipo, de uma margem a outra do rio e sofrendo, invariavelmente, insultos, desaforos, injúrias e humilhações.

(Antônio A. Nery, “São Cristóvão”, em Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa)

(Texto integral aqui).

São Cristóvão, por Hieronymus Bosch

Eça de Queirós e o Direito

Eça por Helder Oliveira

1. A relação de Eça de Queirós com o Direito é menos linear do que aquilo que uma leitura biografista da sua obra poderia fazer supor. Tal como era próprio do seu tempo e da sua origem social, a formação superior do jovem Eça, em meados do século XIX, tinha no Direito (ou nas Leis, como correntemente se dizia também) o seu destino natural. Não que se tratasse necessariamente, para ele e para os seus companheiros de geração, de encetar uma carreira consagrada à advocacia ou à magistratura. Estudar Direito era, para um jovem de boas famílias, uma forma de confirmação da condição social que não apontava obrigatoriamente para o exercício de uma profissão ou para a dedicação à ciência jurídica enquanto tal. Quando muito, estaria no horizonte dos jovens estudantes de Direito de então a entrada na vida política do Constitucionalismo liberal, com disputa de lugares no Parlamento ou mesmo com acesso ao Governo. O que, bem vistas as coisas, não difere muito daquilo a que nos nossos dias não raras vezes assistimos.  Acresce a isto que outras formações académicas de então não tinham o prestígio que hoje lhes reconhecemos. O caso da Medicina é talvez o mais flagrante (voltarei a esta questão).

Num texto muitas vezes citado, em que esboça a autobiografia da sua geração, com Antero de Quental (o “génio que era um santo”) como fulcro da sua atenção, Eça dá a entender claramente que aquilo que de mais relevante aprendeu em Coimbra não ficou a dever-se  aos lentes de Direito. Foram outros elementos formativos, envolvidos por uma atmosfera ainda romântica, que marcaram a geração de Eça: “Pelos Caminhos de Ferro,  que tinham aberto a Península, rompiam cada dia, descendo da França e da Alemanha (através da França)  torrentes de coisas novas,  ideias, sistemas, estéticas, formas, sentimentos, interesses humanitários…”. 

A essas “coisas novas” e aos nomes que  as protagonizavam – Michelet, Hegel,  Vico, Proudhon, Victor Hugo,  Edgar Poe,  Heine e outros mais – contrapunha-se a Universidade, oprimindo os entusiasmos idealistas dos  jovens estudantes de então: “Em torno dela [essa geração], negra e dura como uma muralha, pesando, dando sobre as almas, estava a Universidade”; e assim, “a Universidade, ultraconservadora e ultracatólica, era não só uma escola de revolução política, mas uma escola de impiedade moral”, tudo “estimulado” pelos “seus lentes crassos e crúzios, os seus Britos e os seus Neivas, o praxismo poeirento dos seus Pais Novos, e a rija penedia dos seus Penedos!”  Convém, entretanto, relativizar: esta imagem da Universidade obedece também a um estereótipo que era ditado, por um lado, pelo olhar romântico do jovem Eça dos anos 60 e, por outro lado, pela feição nostálgica, com algum tempero ficcional, que comandava a evocação feita pelo escritor maduro dos anos 90, quando lhe tocou lembrar o amigo Antero.

Conforme tem sido minuciosamente apurado pelos biógrafos de Eça, este que viria a ser o nosso maior romancista rapidamente se apercebeu de que a sua vocação e o seu rumo profissional não estavam no Direito. Com razão e em tom eufemístico, Rui de Figueiredo Marcos notou: “Convicto de que não seria através do método de decorar, à luz do azeite, um papel denominado ‘sebenta’ que conseguiria distinguir, juridicamente, o justo do injusto, Eça de Queirós decidiu relacionar-se com o mundo. Em boa hora o fez para o mundo das letras”. Mal saído de Coimbra e depois de um breve tempo de boémia lisboeta e da concomitante iniciação na literatura e no jornalismo (designadamente, na Gazeta de Portugal e no Distrito de Évora), Eça encetou a sua carreira consular, tendo sido colocado em Havana, em 1872.

2. Deixando de lado o Direito como carreira e como ciência, Eça de Queirós não o abandonou como romancista; é esta condição que me interessa, mais do que os acidentes e os incidentes da biografia. Pode dizer-se, então, que, enquanto ficcionista, Eça não esqueceu o Direito, os seus qualificados atores e o seu lugar na sociedade portuguesa; isso não quer dizer que este seja (porque não é) um âmbito temático com a relevância assumida por outros na obra queirosiana.

Curiosamente, é um episódio judicial que podemos ler, num dos primeiros e ainda imaturos relatos de Eça: o conto “O Réu Tadeu”, publicado de forma incompleta em 1867, no Distrito de Évora, nos números 55 e 56, de 18 e 21 de julho (inserto no volume Contos I,  edição de Marie-Hélène Piwnik; Lisboa: Imprensa Nacional, 2009). Trata-se da história da condenação à morte e da execução, por enforcamento, de Tadeu Esteves, enquadrada por um cenário e por uma coloração estilística que lembram, de forma muito nítida, alguns temas e também uma certa entoação dos folhetins da Gazeta de Portugal. Isso não obsta a que perpasse no relato uma imagem negativa do sistema judicial:  Tadeu Esteves fica preso “durante um ano, enquanto na escuridão dos tribunais, os códigos e as leis, entre toda a sorte de tédios e de indolências, lhe pregavam as tábuas do esquife”. A seguir, vem o julgamento; nele, “os letrados fizeram as suas alegações dolentes e pesadas, e depois do aparato gótico da lei, acesas as velas de cera, mandaram erguer o preso, para ouvir a sentença”. Em “O Réu Tadeu”, resume-se praticamente a isto a referência à administração da justiça e aos seus agentes, uma referência que, repito, não leva a formular um juízo propriamente lisonjeiro. 

Noutros momentos e episódios da ficção queirosiana, aflora o “aparato gótico da lei”, quase sempre diretamente associado a figuras como o advogado e o magistrado. De nenhuma destas condições profissionais emergem, contudo, tipos sociais com o vigor expressivo do conselheiro Acácio, de Juliana, do cónego Dias, de Tomás de Alencar, do conde de Gouvarinho ou das manas Lousadas. Quando associadas ao Direito, várias personagens de Eça não existem ficcionalmente em função da ciência jurídica e da sua prática, mas sim de outras funções eventualmente derivadas dela. Veja-se o caso de Gonçalo Mendes Ramires: a sua formação jurídica de “bacharel formado com um R no terceiro ano” de pouco lhe serve, na preguiçosa inércia vivida como Fidalgo da Torre, inércia cortada apenas pela esforçada composição de uma novela histórica. Quando muito, Gonçalo alimenta planos orientados para conseguir uma posição de destaque na vida política; é nesses planos rapidamente frustrados que ecoa (e não mais do que isso) a formação jurídica: “Depois, trepando da Invenção para o terreno mais respeitável da Erudição, daria um estudo (que até lhe lembrara no comboio, ao voltar de Lisboa!) sobre as Origens Visigóticas do Direito Público em Portugal… (…) Depois, saltando da Erudição às Ciências Sociais e Pedagógicas – porque não amassaria uma boa Reforma do Ensino Jurídico em Portugal em dois artigos maçudos, de homem de Estado?…” 

Não menos significativa do que o alheamento de Gonçalo Mendes Ramires é a escolha da carreira que o jovem Carlos da Maia há de seguir, uma escolha comentada em Santa Olávia. Tendo revelado, desde cedo, “uma grande queda para a medicina”, Carlos decide, com o apoio do avô, ser médico e não jurista; contudo, fica claro que “esta inesperada carreira de Carlos (pensara‑se sempre que ele tomaria capelo em Direito) era pouco aprovada entre os fiéis amigos de Santa Olávia”. A reação de Afonso da Maia, perante aquela desaprovação (em particular, et pour cause, a do juiz de Direito), é modelar: ” — Ora essa! exclamou Afonso. E porque não há de ser médico a sério? Se escolhe uma profissão é para a exercer com sinceridade e com ambição, como os outros. Eu não o educo para vadio, muito menos para amador; educo‑o para ser útil ao seu país… / — Todavia, arriscou o dr. juiz de Direito com um sorriso fino, não lhe parece a V. Ex.ª que há outras coisas, importantes também, e mais próprias talvez, em que seu neto se poderia tornar útil?… / — Não vejo, replicou Afonso da Maia. Num país em que a ocupação geral é estar doente, o maior serviço patriótico é incontestavelmente saber curar.”    

(C. Reis, “O ‘aparato gótico da lei’. Eça de Queirós e o Direito”, in A. Paula Arnaut, org., As Palavras Justas. Ensaios sobre Literatura e Direito. Coimbra: Minerva, 2020; texto integral aqui)

Carlos da Maia: o fracasso de uma geração

No respeitante aos significados extensionais que sugere, Carlos da Maia pode ser lido como figura em quem enviesadamente se projetam limitações e frustrações que o contexto cultural e mental dos “episódios da vida romântica” ajuda a explicar. A falta de ânimo e de empenho anunciam nele uma atitude de vencidismo (cf. Lima, 1987: 227 ss.) perante a vida e perante uma sociedade dominada pelo estigma do romantismo, como se isso correspondesse a uma fatalidade irreversível; tenha-se em atenção que o próprio nome da personagem aponta no sentido daquela fatalidade: quando Carlos nasce, Maria Monforte “andava lendo uma novela de que era herói o último Stuart, o romanesco príncipe Carlos Eduardo; e, namorada dele, das suas aventuras e desgraças, queria dar esse nome a seu filho… Carlos Eduardo da Maia! Um tal nome parecia‑lhe conter todo um destino de amores e façanhas” (90-91). Cumprido o ciclo do falhanço existencial, é o amigo João da Ega, num regime dialógico não isento de contradições (cf. Reis, 1999: 131-136), que pergunta e logo responde: “Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento e não pela razão…” (695)

Carlos da Maia, por Wladimir Alves de Souza

Até certo ponto, Carlos e alguns dos que o rodeiam trazem consigo a evidência do fracasso de uma geração que prometia uma mudança das mentalidades e das instituições. O falhanço é assumido pela personagem (“falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação”; 694), num epílogo amargurado em que os sentidos da decadência nacional (um tema que liga “a produção literária queirosiana a preocupações históricas e ideológicas assumidas pela Geração de 70”; Reis, 2009: 204), do já mencionado vencidismo e de uma certa sobranceria perante os males da pátria aproximam Carlos de um seu homónimo: Carlos Fradique Mendes (cf. Saraiva, 2000: 131-148; Reis, 1999: 137-151).

A personagem Carlos da Maia tem dado origem a um número considerável de refigurações, em diferentes linguagens e contextos mediáticos, e também a várias derivações transficcionais. No que a estas diz respeito, destaque-se o conjunto de seis relatos, Os Novos Maias (edição Expresso, em 2013; série Eça agora), por José Luís Peixoto, José Eduardo Agualusa, Mário Zambujal, José Rentes de Carvalho, Gonçalo M. Tavares e Clara Ferreira Alves, incidindo, em exercício ficcional, sobre o destino da personagem, a seguir ao desenlace e epílogo d’Os Maias; num plano semelhante, A. Campos Matos publicou o Diário íntimo de Carlos da Maia (1890-1930) (Edições Colibri, 2014). No teatro, deve ser mencionada, entre outras, a versão de José Bruno Carreiro, encenada em 1945 (com Raul de Carvalho no papel de Carlos) e reencenada em 1962 e 1963 (com Paiva Raposo). No domínio das adaptações televisivas e cinematográficas, Carlos da Maia é protagonista em realizações de Ferrão Katzenstein, de Luiz Fernando Carvalho (com guião de Maria Adelaide Amaral) (cf. Flory e Moreira, 2006; Vicente, 2018) e de João Botelho, com interpretações de, respetivamente, Carlos Carvalho, Fábio Assunção e Graciano Dias. Edições ilustradas e séries de gravuras (por Alberto de Sousa, Bernardo Marques, Wladimir Alves de Souza e Rui Campos Matos, entre outros) deram igualmente corpo a Carlos da Maia, em diversos estilos e técnicas.

(C. Reis, “Carlos da Maia”, Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; continuar a ler aqui).

Eça no Álbum das Glórias

6. O Eça de Queirós que Rafael Bordalo Pinheiro começa a consagrar como uma das “glórias” do seu Álbum, é, naturalmente, o escritor do fim da década de 70.  Ou seja: celebra-se aqui o jovem romancista que publicara, com grande êxito e alguma controvérsia, O Primo Basílio e que, nesse ano de 1880 em que o artista o retrata e Guilherme de Azevedo o descreve, dá à estampa a terceira versão d’O Crime do Padre Amaro, depois dos folhetins provocatórios da Gazeta de Portugal, da “aventura” d’O Mistério da Estrada de Sintra, d’As Farpas, da participação nas Conferências do Casino e do falhanço da primeira versão das atribulações de Amaro. 

Na figura policromática firmada por Bordalo Pinheiro sobressaem elementos que a fortuna cultural de Eça confirmaria:  a atitude do dândi em pose reclinada, exibindo uma indumentária em tom escuro (sobrecasaca, calças castanhas, sapatos de verniz, meias estampadas, chapéu alto sobre o sofá)  e uma brancura de marfim no rosto, mais a madeixa de cabelo sobre a testa e o monóculo que a mão direita ajeita. Em suma: muito daquilo que viria a ser consagrado, sobretudo pelos biógrafos, como a mais expressiva configuração de Eça, nos planos físico e psicológico, deduzida da que é talvez a mais reproduzida das imagens que integram a vastíssima iconografia queirosiana. Como legenda, a expressão “Honni soit qui mal y pense”, uma síntese certeira que diz, pelo menos, duas coisas acerca do Eça de então: encontra-se nele a marca de água da cultura francesa (ou do francesismo, como o próprio escritor dirá mais tarde, em registo autocrítico) e manifesta-se no seu modo de ser literário a ambivalência de uma cosmovisão em que crítica e ironia se conjugam harmoniosa e inigualavelmente.  

No texto que acompanha a composição de Bordalo, Guilherme de Azevedo não tem dúvidas: em Eça de Queirós afirma-se um escritor que no presente se admira e que o futuro há de consagrar. De novo aqui, podemos ler observações que não só evidenciam a argúcia crítica de Azevedo, como antecipam análises que a história e a crítica literária estabilizaram. Por exemplo: passada a iniciação jornalística da Gazeta de Portugal (aquilo a que Guerra Junqueiro, citado no texto, chamou “epilepsia do talento”), a jornada ao Oriente, à luz dos exemplos de viajante e da estética de Chateaubriand, de Leconte de Lisle e de Baudelaire, constitui o momento decisivo em que Eça desperta para a observação crítica da realidade. Diz Guilherme de Azevedo: “Do Jardim das Oliveiras arrancara uma pernada com que principiou a desancar a antiga retórica do país, destronando os velhos tropos e lançando os fundamentos daquele estilo fotográfico que é o seu grande poder e uma das suas grandes glórias” (p. 43).

Pouco depois da viagem ao Egito e à Palestina, nas primícias da Geração de 70, Eça iniciou, com Ramalho, As Farpas e apresentou a sua conferência no Casino (Azevedo fala nas primeiras, mas omite a segunda). Em ambas consolidou-se, nos planos da crítica social e da reflexão programática, a pertinência daquela observação da realidade a que o citado “estilo fotográfico” alude, em contexto e em projeto naturalista. Curiosamente, Guilherme de Azevedo não fala expressamente no naturalismo, mas recorre a expressões que para ele apontam: Eça “transformou-se num anatomista” e os tipos que modelou foram expostos “à luz do dia, em toda a hediondez do seu organismo, e dissecados pelos processos simples e sinceros que assinalam a derradeira fase literária do nosso tempo” (p. 44). EssaA “derradeira fase” é, evidentemente, o naturalismo, sendo suas referências fundacionais “o bisturi de Balzac” e a “paleta de Corot” (p. 44). Note-se: tal como na conferência queirosiana sobre o realismo, literatura e pintura aparecem aliadas, em esboço intermediático, na caracterização daquilo que era uma alternativa estética (e realista, naturalmente) à sensibilidade de “muitos espíritos educados no amor e melancolia” (p. 43).  

(extrato de “Em busca da glória: figuras da Geração de 70”, in Colóquio/Letras, 204. maio/agosto, 2020, pp. 32-45)

 

 

Eça no Álbum das Glórias de R. Bordalo Pinheiro

Eça jornalista

Acaba de ser publicado pela Imprensa Nacional o 18º volume da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós. Com o título Textos de Imprensa II (do Distrito de Évora) e editado por Ana Teresa Peixinho, o referido volume, com uma extensão de 993 páginas, insere-se na secção que acolhe os textos de imprensa publicados pelo romancista ao longo da vida. Tal como acontecia com quase todos os escritores do seu tempo, Eça deixou vasta colaboração espalhada por jornais e por revistas; era essa uma forma não apenas de marcar presença no espaço público – nele, o “homem de letras” tinha uma voz autorizada –, mas também de receber proventos que completavam aqueles que, nem sempre de forma regular, vinham da atividade literária propriamente dita.

A isto junta-se uma outra razão mais significativa, para explicar a prolixidade jornalística de Eça. Para o romancista, os textos de imprensa (e em especial as crónicas) funcionavam muitas vezes como um laboratório de escrita: observar a realidade e os seus tipos humanos, construir relatos, mesmo que de curta dimensão, ou esboçar personagens e enredos eram procedimentos de experimentação literária que faziam todo o sentido, numa época em que jornalismo e literatura se conjugavam harmoniosamente.

A experiência jornalística de Eça de Queirós no Distrito de Évora é um exemplo expressivo do que fica dito, mas não se limita a isso. Conforme pode ler-se na circunstanciada introdução desta edição, está em causa, naquela experiência, uma verdadeira aventura pessoal, com importantes consequências formativas, que importa sublinhar: um jovem com menos de 22 anos, recém-formado e inexperiente, assume não apenas a escrita, mas também a direção e a edição de um bissemanário, ao longo de sete meses. Fá-lo numa pequena cidade de província, afastada, por isso, dos centros de decisão política e de produção cultural, com todas as dificuldades que isso implicava para o jornalista de circunstância que assumira um tal encargo.

Por isso mesmo, estes textos não podem ser ignorados, sendo testemunhos ilustrativos do amadurecimento literário de quem viria a ser o maior romancista português de sempre. A presente edição crítica retoma e procura completar o trabalho de recuperação de um acervo jornalístico aqui  enquadrado pelos componentes que usualmente estruturam estas edições. Assim, além da extensa introdução preparada por Ana Teresa Peixinho, encontram-se neste volume três apêndices e notas biobibliográficas.

 

 

Gonçalo Mendes Ramires

Gonçalo M. Ramires por Tomás de Mello

Personagem central do romance semipóstumo de Eça de Queirós, A ilustre casa de Ramires (1900). Para além de ser conhecido pelo nome próprio, Gonçalo é designado também, “naquela sua velha aldeia de Santa Ireneia, e na vila vizinha, a asseada e vistosa Vila Clara, e mesmo na cidade, em Oliveira, (…) [como] «Fidalgo da Torre»” (Queirós, 1999: 73). Remete-se, deste modo, logo no incipit, para um determinado espaço e para uma condição social confirmada na caracterização inicial.

Nela, o discurso do narrador começa por atentar na personagem, mas desloca-se de imediato para dois campos que lhe estão associados: a família e a História em que ela se inscreve. Assim, “Gonçalo Mendes Ramires (como confessava esse severo genealogista, o morgado de Cidadelhe) era certamente o mais genuíno e antigo fidalgo de Portugal” (74). Logo depois, recorre-se a um dispositivo de figuração usual na ficção queirosiana, a analepse: “Raras famílias, mesmo coevas, poderiam traçar a sua ascendência, por linha varonil e sempre pura, até aos vagos senhores que entre Douro e Minho mantinham castelo e terra murada, quando os barões francos desceram, com pendão e caldeira, na hoste do Borguinhão” (74).

Depois disto, o narrador centra-se na família e descreve os feitos dos Ramires, “em cada lance forte da História de Portugal” (74), particularizando quatro etapas históricas: a da independência e consolidação do Reino, a da expansão, a dos Filipes e a da Restauração, com os Braganças, quando se anuncia a decadência: “Já, porém, como a nação, degenera a nobre raça…” (76). Por fim, chega-se ao protagonista: “Gonçalo, esse, era bacharel formado com um R no terceiro ano” (77).

A partir daqui, a personagem é configurada em função de comportamentos. Nessa “figuração poliédrica”, “é através do que Gonçalo vê, faz, diz, pensa e até sonha que vai ganhando um vulto ficcional onde o riso, mas também a complacência e até a ternura, estão muito presentes” (Monteiro, 2014: 24). Outros traços de caracterização: a ociosidade e a inércia, uma certa debilidade anímica, em contraste com os Ramires do passado, o apelo da temática histórica, traduzido na composição de um conto com “final choroso” (78), a abulia cortada por assomos de generosidade e de chamamento para a escrita.

(extrato de “Gonçalo Mendes Ramires” em Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesacontinuar a ler)

Gonçalo Mendes Ramires por Bernardo Marques

Carlos Fradique Mendes

Figura composta por Eça de Queirós a partir de 1885, Carlos Fradique Mendes não constitui uma convencional personagem de romance, mas uma entidade de conformação pré-heteronímica (cf. Reis, 1999). Designado n’A correspondência de Fradique Mendes (1900) como Fradique Mendes ou, mais familiarmente, Fradique, a sua personalidade ajusta-se, com alguns traços de caricatura, à imagem do dândi finissecular e viajante compulsivo, de cultura eclética e dispersa; além disso, Fradique Mendes é um escritor em projeto, destinado ao silêncio literário, com exceção de alguns poemas de juventude. Tal não impede que se vá desenvolvendo, à luz daquela dispersão, um pensamento a que se tem chamado fradiquismo. (…)

C. Fradique Mendes por António

Algumas linhas de força do pensamento fradiquista: a apologia da autenticidade, contra a descaracterização da sociedade portuguesa produto do liberalismo de importação francesa; a crítica da civilização e dos seus excessos, em particular quando ela invade cenários naturais, míticos e bíblicos; a notação das rotinas da vida portuguesa e dos seus tipos (o político do constitucionalismo, o brasileiro de torna-viagem, o sacerdote-amanuense); a menorização dos estadistas contemporâneos e das suas contingentes fragilidades; a visão anti-idealista das práticas religiosas, reduzidas a um “conjunto de Ritos através dos quais cada povo procura estabelecer uma comunicação íntima com o seu Deus e obter dele favores” (217).

Como epistológrafo singular e pensador com laivos de provocação, Fradique autonomiza-se, nos planos ideológico, cultural e estético. Essa autonomização processa-se em movimentos de aproximação e de afastamento em relação a Eça, como fica evidenciado pelo facto de o escritor ter transformado algumas crónicas que assinou em cartas de Fradique Mendes. Por isso e ainda porque a estilística fradiquista é muito semelhante à de Eça (mas com acentuação do regime da ironia e do paradoxo), Fradique Mendes já não é uma personagem, como algumas que dele estão próximas (Carlos da Maia ou Jacinto); mas ainda não é, em plena afirmação heteronímica, um autor literário com identidade e com estilo totalmente outros em relação a quem o concebeu.

A autonomia de Fradique Mendes tem favorecido derivas transficcionais que transmutam em personagem ficcional a figura construída por Eça. Incluem-se nessas derivas novas incursões epistolográficas, bem como descendentes e herdeiros de Fradique Mendes. Mencionem-se, como cultores deste legado, Frederico Perry Vidal (O único filho de Fradique Mendes, 1950), José António Marcos (O enigma das cartas inéditas de Eça de Queirós, 1996), José Eduardo Agualusa (Nação crioula, 1997), Fernando Venâncio (Os esquemas de Fradique, 1999) e José Pedro Fernandes (Autobiografia de Carlos Fradique Mendes, 2002) (cf. Oliveira, 2004; Neto, 2007-9). Noutro registo, o médico e jornalista carioca José Madeira de Freitas adotou o pseudónimo Mendes Fradique, com o qual assinou várias obras, dentre elas uma História do Brasil pelo método confuso (1922) (cf. Lustosa, 2004). Recentemente, surgiram várias cartas apócrifas de Fradique Mendes.

(C. Reis, “Carlos Fradique Mendes”, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa; ler na totalidade aqui)

A Ilustre Casa de Ramires online

A Imprensa Nacional, no contexto dos novos desafios que se colocam ao país e ao mundo por estes dias, tomou a iniciativa de disponibilizar os seus conteúdos digitais, nomeadamente títulos da coleção Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa (BFLP).

A Ilustre Casa de Ramires incide sobre um tema que muitas vezes seduziu Eça de Queirós: o tema da História. Representado como autor de uma novela histórica, Gonçalo Mendes Ramires protagoniza uma reflexão sobre a escrita literária, sobre o passado da sua antiquíssima família (que é também o passado histórico de Portugal) e sobre os termos em que no presente é vivido esse legado. A par disso, A Ilustre Casa de Ramires traduz ainda uma conceção da literatura como fator de análise crítica dos costumes, na linha de uma propensão realista que se mantém ativa no Eça do fim do século (ver aqui e aqui). 

 

Eça naturalista

Surgindo normalmente associados, tanto em abordagens teóricas, como em debates doutrinários e em análises críticas, o Realismo e o Naturalismo são, de facto, correntes estéticas que podem ser caracterizadas em separado. Isto, claro está, sem pormos em causa as estreitas relações que entre ambos existem e que hoje, com o distanciamento e com os instrumentos metodológicos de que dispomos, se tornam mais claras do que na época. Certamente por isso, não poucos escritores e críticos oitocentistas designaram muitas vezes como Realismo o que, de facto, era naturalista, sendo a inversa menos frequente. Por outro lado, sabendo-se que, nos alicerces epistemológicos e estéticos do Naturalismo, está uma componente realista, torna-se compreensível que tenham ocorrido (e eventualmente ocorram ainda) deslizamentos conceptuais como os que ficaram referidos.

O responsável por este volume assenta uma parte importante da investigação que levou a cabo no trânsito que, há já alguns anos, empreendeu pelas paragens que nestas páginas revisita, para nosso benefício. Com efeito, António Apolinário Lourenço é autor de um valioso estudo (que foi a sua tese de doutoramento) intitulado Eça de Queirós e o Naturalismo na Península Ibérica, publicado em 2006. Essa circunstanciada e muito aprofundada aproximação à receção e à difusão da literatura naturalista queirosiana e ibérica tem, evidentemente, um alcance mais amplo do que este livro; todavia, o que aqui se encontra completa e documenta, em vários aspetos, o estudo referido, muitas vezes através de textos de difícil acesso.

Para aquilo que neste momento importa realçar, é necessário dizer que a edição dos textos que adiante podemos ler provém de um extenso e competente trabalho de levantamento e contextualização do Naturalismo, da sua implantação em Portugal e ainda dos avanços e dos recuos que essa implantação conheceu. Por isso, a designação da introdução como Naturalismo português: síntese histórica peca por modesta; com efeito, António Apolinário Lourenço alarga-se pela ponderação da já mencionada relação de autonomia entre Realismo e Naturalismo, pelas origens e pelas primeiras manifestações do Naturalismo português, pelo importante contributo francês para a expansão e maturação do romance naturalista e ainda pelo lugar correlativo que em Portugal foi ocupado pelos dois Queirós – Eça e Teixeira de Queirós –, ou seja, por aqueles que de forma mais expressiva interpretaram aquilo que chegou a ser uma literatura com foros de escândalo moral.

(extrato da “Apresentação” a António Apolinário Lourenço, Eça Naturalista. O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio na Imprensa Coeva. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2019).

 

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