Os Maias: entrevista

Carlos Reis defende o respeito editorial pela edição crítica d’Os Maias, de que foi coautor, mas também a necessidade de dar uma sobrevida às personagens do romance, readaptando-o a novos meios. Eça, o grande sátiro, legou-nos uma obra genial que dispensa abordagens morais, mas exige admiração estética e reconhecimento oficial condigno.

Quando é que leu Os Maias pela primeira vez?

Na minha casa praticamente não havia livros, a não ser os escolares. Pelos meus 14 anos, já tinha lido A Cidade e as Serras e A Capital, escolhidos por instinto na biblioteca da Gulbenkian em Angra do Heroísmo. Aos 15 anos decidi escrever um romance em que dois irmãos, separados por qualquer razão acidental da vida se reencontravam, se apaixonavam e tinham uma relação amorosa. Naquela época, evidentemente, eu não conhecia o conceito de incesto. Então, pensei que aquela história de um amor entre irmãos era absurda, da ordem do fantástico, impossível por qualquer razão divina ou fisiológica. Pelos meus 18 anos, nas férias do Natal de 1968, em casa de uns tios que tinham alguns livros, fui ler Os Maias. Ai pela página cem, já sabia o que ia acontecer. Ora, ali estava o romance que eu quisera escrever. Isto foi uma coisa magnífica: não só porque me deu a noção de uma certa intuição literária, mas também porque me retirou completamente as ilusões de vir a ser romancista.

A componente passional foi o que mais o impressionou no romance?

Sim, por ser trágica: a questão do incesto, do amor impossível, da separação dos amantes. Depois, em sucessivas leituras, fui dando mais atenção a toda a componente social, típica, do estilo, da graça e da caricatura, em que Os Maias são absolutamente geniais. Recentemente, fiz uma releitura para a edição critica que preparei com a minha colega, Maria do Rosário Cunha [IN-CM, 2o17]. Tivemos de ler a terceira prova no lapso de quatro dias; ela ficou com a primeira parte do romance, eu mergulhei na segunda. Li concentradissimamente e, pela enésima vez, comovi-me. E pensei: «Como é possível estar a comover-me com uma coisa que já trabalhei tantas vezes?» Comovi-me pela densidade humana e pela forma superior, elegante, contida, com que o Eça trata uma história tão trágica, que, nas mãos de outro romancista, seria de faca e alguidar.

Por que motivo Eça recorre ao esquema clássico da tragédia?

Temos de pôr isso num contexto já de desgaste da crença positivista e naturalista. Note-se o episódio em que, no Largo do Pelourinho, o Sr. Guimarães diz a João da Ega, antes de subir para ir buscar o cofre com papéis importantes que lhe fora dado pela Monforte: «Eu junto-lhe então um bilhete e V.Ex.ª entrega-o da minha parte ao Carlos da Maia, ou à irmã». Perante o espanto do interlocutor, refere-lhe que vira há dias, por acaso, João da  Ega, Carlos da Maia e Maria Eduarda numa caleche, no Cais do Sodré. Pensara que os dois últimos estavam ali como irmãos, não podia adivinhar que estivessem ali como amantes. Depois, enquanto o Sr. Guimarães corre acima a buscar os papéis, o Ega fica solitário a pensar que, num século onde tudo e tão organizado, não podia ser que duas crianças se desencontrassem na vida e depois se reencontrassem… [«Esses horrores só se produziam na confusão social, no tumulto da Meia-Idade! Mas numa sociedade burguesa, bem policiada, bem escriturada, garantida por tantas leis, documentada por tantos papéis, com tanto registo de batismo, com tanta certidão de casamento, não podia ser»] E este «não podia ser» é, de facto, o que há de mais trágico nesta história. É a posição de um Eça cada vez mais convencido de que a ciência não chega e de que há forças superiores e algo em que eu, pessoalmente, cada vez mais acredito: a intervenção do acaso nas nossas vidas. Carlos é sobretudo um herói que tinha tudo para ser uma figura excecional, mas a quem o destino mostra que ninguém está ao abrigo do trágico. Como se sabe desde a Antiguidade, os deuses têm inveja de quem é feliz ou superior, entendem isso como uma espécie de ousadia que é preciso reprimir.

(Entrevista de Filipa Melo. Fotografia Pedro Loureiro. Ler. Livros & Autores, 151, outono 2018, pp. 54-64. Ler entrevista integral)

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Desenhos de Eça

   Irene Fialho (org. e transcrição), Eça de Queiroz em casa. Desenhos e textos inéditos.

Lisboa: Editorial Presença, 2018, pp. 7-8.

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Os Maias como nunca os leu

Muito antes da divulgação tecnológica do efeito immersive world, já havia romances que constituem verdadeiros mundos, em que o leitor mergulha e deseja habitar para sempre. A melhor narrativa portuguesa de todos os tempos, Os Maias, obra máxima de Eça de Queirós, é um desses livros.

Romance da Lisboa oitocentista, entre o êxtase amoroso e a sordidez, este livro é perigoso: nunca nos curamos dele. Venenoso e envolvente, é preciso ler Os Maias em toda a sua fidedignidade e doloroso esplendor. A sua recente edição crítica, a cargo de Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha (Eça de Queirós, Os Maias. Episódios da Vida Romântica, edição de Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2017) enfim restituir-lhe a mais fiável inteireza textual, assim como reconstituir a sua história genética, editorial e genológica.

Dessa história apresenta a “Introdução” uma rigorosa síntese. A gestação conturbada d’Os Maias arrastou-se por dez anos, desde o projeto nebuloso, gizado por Eça em 1877-1878, seguido pelo penoso percurso da sua escrita e composição (agravado por tipógrafos “canalhas” e uma mudança desesperada de editora), até à acidentada publicação dos dois volumes do romance, em 1888. No decurso desse processo, têm os editores o cuidado de renovar os argumentos que, em devido tempo, exararam quanto à publicação do melodramático “protorromance” A Tragédia da Rua das Flores,  obra desequilibrada que integra a história da gestação d’Os Maias, e que o autor abandonou. De facto, o tema fulcral do incesto, assunto de extrema gravidade e comum a ambas as narrativas, é sobriamente tratado n’Os Maias, “com tanta reserva e numa meia-tinta tão severa, que não choca”, tal como Eça desde cedo asseverou.

Ana Luísa Vilela, “Os Maias como nunca os leu”, in Suroeste. Revista de Literaturas Ibéricas, nº 8, Badajoz, 2018, pp. 229-230. (continuar a ler)

O crime do Padre Amaro, pela Editora da UERJ

O crime do Padre Amaro, lançamento da Editora da UERJ [Universidade do Estado do Rio de Janeiro], já está disponível para compra no site ou na sede da própria editora. O livro chega ao mercado em boa hora, atendendo ao estudante que precisa dessa leitura para fazer o exame discursivo da segunda fase do vestibular da UERJ, no dia 2 de dezembro.

A edição inclui uma análise textual concebida pelos professores do Instituto de Letras da UERJ, Eduardo da Cruz e Sérgio Nazar David. Com isso, o vestibulando poderá aprofundar a sua leitura, destrinchando o estilo e as ideias do célebre autor português e compreendendo melhor o cenário político e social da época em que o romance foi lançado. (…)

Como garantia de qualidade, a EdUERJ utilizou parâmetros adotados pela edição crítica de O crime do padre Amaro, preparada pelos especialistas Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha, publicada em 2000, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, editora portuguesa. (continuar a ler aqui )

Leiria, 2ª metade do séc. XIX

 

Eça transmediático

Em Eça de Queirós, a modelação do mundo ficcional implica uma fenomenologia da visualização  conjugada com a estética e com a ideologia do realismo. Mas a referida modelação  vai além disso e envolve as personagens, numa dinâmica de transmedialidade que anuncia os media da imagem que hão de marcar intensamente a cultura do século XX.

Mapa da Palestina desenhado por Eça

Desde a viagem ao Egito e à Palestina,  empreendida nos fins de 1869, Eça de Queirós aprendeu a olhar o mundo em função de perceções sensoriais projetadas na escrita:  o olhar sobretudo, mas também a audição. O registo visual que Eça deixou dessa viagem – impressões de observação em que predominam a luz e a cor, bem como desenhos de mapas  – é, neste aspeto, muito significativo. Depois, a figuração das personagens queirosianas incorpora progressivamente o contributo do olhar como instância representacional, com inevitáveis efeitos  cognitivos e  sugerindo hipóteses de representação que carecem dos media da imagem.

Faz parte destas experiências o “diálogo” visual das personagens com retratos que surgem em momentos decisivos da ação romanesca. Um episódio em que esse “diálogo” suscita uma hipótese transmediática: quando, no regresso ao Ramalhete, Carlos da Maia vê o retrato abandonado da avó, Maria Eduarda Runa, é uma impressão de movimento que resulta do seu olhar:  “E no chão, na tela de Constable, encostada à parede, a condessa de Runa, erguendo o seu vestido escarlate de caçadora inglesa, parecia ir dar um passo, sair do caixilho dourado, para partir também, consumar a dispersão da sua raça…”

Aquele passo que na tela é esboçado só poderia ser plenamente captado pelo cinema;  é neste que, do mesmo modo,  virá a ser muito expressivo o recurso à metalepse  que ali se insinua (“sair do caixilho dourado”). É essa dinâmica transmediática, em que a narrativa cinematográfica parece ser convocada para aprofundar a narrativa literária, que faz da ficção  queirosiana um campo de indagação mediática que vai além dos limites do literário.

C. Reis, “Eça de Queirós e a epistemologia do olhar” (síntese). Conferência no III Encontro do Grupo Eça; Fortaleza, 29 a 31 de outubro de 2018.

Eça no Chiado

Ler Eça de Queirós no Chiado

Com Carlos Reis, professor da Universidade de Coimbra, e a leitura de excertos das obras por Isabel Abreu, actriz.

Dia 26 de Setembro, às 18.30, na Bertrand do Chiado. Moderação de Anabela Mota Ribeiro..

(Continuar a ler)

III Encontro do Grupo Eça

A grande arte de Eça

Eça renovou a língua portuguesa; ele tem graça, tem agilidade, tem sátira, é cómico, é divertido, sem deixar, ao mesmo tempo, de ser muito sério, sob essa graça que ele tem,   porque é assim que se faz a grande arte.

No Brasil há uma espécie de meio irmão de Eça de Queirós, chamado Machado de Assis, que, sob a capa de uma ironia às vezes uma pouco melancólica, também faz passar, como Eça, mensagens muito importantes sobre a vida, sobre o amor, sobre a morte, sobre a esperança, sobre a decadência, sobre tudo isso de que se fez a arte destes grandes escritores do século XIX.

(entrevista a TV Paranaíba, 3 de agosto de 2018; ver aqui)

 

Artur Corvelo

 

Por António

Protagonista do romance A Capital! (que o autor deixou inacabado), Artur Corvelo é configurado como um jovem burguês de “temperamento linfático e calmo” (Queirós, 1992: 102), que deseja sair da província, pois aspira ser reconhecido na sociedade através do seu talento artístico. Fica claro desde o início do romance que a personagem funciona como um tipo representativo da sociedade do último quartel do século XIX, uma vez que ela se desenvolve e se mostra envolvendo as dimensões política e sociocultural.

Com efeito, por influência do meio ambiente, da hereditariedade e do momento histórico (fatores essenciais às estratégias naturalistas de configuração das personagens), Artur faz o percurso típico do jovem burguês que, à custa da gestão apertada e económica dos pais, vai estudar para Coimbra, não conseguindo, no entanto, alcançar o objetivo pretendido: tornar-se bacharel em Direito. Este insucesso é devido não só ao seu temperamento fraco, indeciso e passivo como também ao sentimentalismo nele incutido desde a infância – características que são exacerbadas pelo contacto com a deletéria boémia coimbrã. Dispersando a sua energia em leituras românticas e em amores sonhados ou de ocasião, Artur termina o seu ano de caloiro reprovado; quando lhe morrem os pais, depressa esbanja, de forma dissoluta, o magro pecúlio da venda dos seus bens, tendo de ir procurar refúgio junto de umas tias e de uma prima em Oliveira de Azeméis.

Os anos de Coimbra configuram-se como anos de aprendizagem realizada através do convívio com os rapazes do Cenáculo responsáveis pela publicação do jornal O Pensamento. É neste contexto que Artur contacta com o ideário revolucionário republicano ou vagamente socialista e com o pensamento de autores como Comte, Proudhon, Stuart Mill e Spencer. No entanto, este ideário não é absorvido em profundidade, triunfando em Artur um idealismo enformado pela sua preferência pelos cantores do amor, da ironia e do sofrimento românticos e por autores como Vítor Hugo, Musset, Heine e Gautier.

Desterrado em Oliveira de Azeméis, considera-se um espírito desajustado e incompreendido, no comezinho e materialista meio provinciano. Passa o tempo que lhe deixa o detestado emprego, como ajudante de botica, a elaborar versos românticos reunidos sob o pouco original título Esmaltes e Joias, coletânea onde alguns poemas adquirem uma coloração mais revolucionário e democrática apenas por influência de amigos ou quando algum revés social lhe acirra temporariamente o ânimo. Transporta o seu desajuste social e a sua insatisfação para a escrita do drama Amores de Poeta, quando o robusto Rabecaz, o seu companheiro de botequim, lhe assegura ser essa a maneira mais fácil de concretizar o sonho de se tornar famoso em Lisboa. Trata-se de um drama que constitui uma mise en abyme da sua própria situação e da sua paixão platónica por uma Baronesa que entrevira na estação de comboio de Ovar, mas que, na sua perspetiva, é uma forma sofrida de expor a pretensão de ascensão social da classe média culta contrariada pela elite aristocrática e pela burguesia endinheirada e materialista. Tanto o percurso de Artur como o do seu protagonista espelham os traços principais da sociedade liberal oitocentista, resultante dos movimentos revolucionários que trouxeram uma maior mobilidade dos indivíduos e um novo humanismo, mas também uma mediania socialmente niveladora (cf. Dufour, 2013: 19). Neste sentido (e na senda do garrettiano Carlos), Artur encarna as contradições de uma burguesia que apenas é revolucionária enquanto aspira às regalias dos privilegiados económica e socialmente, oscilando entre o ódio ao burguês e a ambição de ter o seu conforto, entre a admiração idealizada da aristocracia e a rejeição democrática dos seus privilégios elitistas. (continuar a ler)

Maria João Simões, in Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa

Eça e Oliveira Martins

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