A Ilustre Casa de Ramires online

A Imprensa Nacional, no contexto dos novos desafios que se colocam ao país e ao mundo por estes dias, tomou a iniciativa de disponibilizar os seus conteúdos digitais, nomeadamente títulos da coleção Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa (BFLP).

A Ilustre Casa de Ramires incide sobre um tema que muitas vezes seduziu Eça de Queirós: o tema da História. Representado como autor de uma novela histórica, Gonçalo Mendes Ramires protagoniza uma reflexão sobre a escrita literária, sobre o passado da sua antiquíssima família (que é também o passado histórico de Portugal) e sobre os termos em que no presente é vivido esse legado. A par disso, A Ilustre Casa de Ramires traduz ainda uma conceção da literatura como fator de análise crítica dos costumes, na linha de uma propensão realista que se mantém ativa no Eça do fim do século (ver aqui e aqui). 

 

Ramires na Imprensa Nacional-Casa da Moeda

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A Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa, editada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, trata de pôr à disposição de um público que se deseja vasto um conjunto alargado de textos  da literatura portuguesa,  enquadrados por elementos de apoio à leitura, designadamente uma introdução e uma nota biobibliográfica, bem como, quando tal se justifica, notas ao texto. A Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa  procura, deste modo, colmatar lacunas que atingem sobretudo a produção literária de escritores do passado. Para além disso, privilegia-se aqui uma perspetiva  patrimonial,  em função do significado  literário e social das obras escolhidas; reconhece-se, assim, à literatura (e à literatura portuguesa em particular) uma dimensão institucional que se traduz também na presença de autores literários no ensino do idioma, a par da função de legitimação simbólica usualmente atribuída àqueles autores.

O romance A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós, integra esta Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa sem que para tal seja necessária uma justificação circunstanciada. Trata-se, com efeito, não apenas de um dos grandes romances queirosianos, mas também de um dos títulos mais relevantes de toda a nossa história literária, inscrito, além disso, num momento de mudança da literatura portuguesa, em pleno fim de século.

Tendo aparecido em livro logo depois da morte de Eça,  A Ilustre Casa de Ramires levanta desde logo um problema, que é o que trata de saber até que ponto o romancista desenvolveu, até às últimas consequências, o trabalho de revisão e de acompanhamento editorial que sempre fazia questão em levar a cabo. Para mais, a história de Gonçalo Mendes Ramires não era nova nem desconhecida, quando esta obra, adequadamente entendida como semipóstuma, viu a luz do dia. Antes de ser livro (e já depois de uma  fugaz e muito curta publicação prévia), o romance fora parcialmente inserido na Revista Moderna, que contou, aliás, com abundante colaboração queirosiana; encetada em 1897, a serialização continuou até 1899, quando terminou aquela vistosa mas efémera revista. Justamente a edição crítica d’A Ilustre Casa de Ramires, datada de 1999 e preparada por Elena Losada Soler, tratou de fazer o historial das duas versões que o romance conheceu, ao mesmo tempo que fixou o seu texto (que é aquele que aqui se adota), até onde os materiais disponíveis o permitiram. Note-se ainda que não era nova em Eça, nem na literatura do seu tempo, esta prática: publicar obras literárias em revistas ou em jornais era não só uma forma de captar leitores e de gerar proventos antes de o livro ser posto à venda,  como, ao mesmo tempo, o escritor se precavia contra o risco de edições piratas no Brasil. Eça fez isso mesmo com O Mandarim, com A Relíquia, com Os Maias e, como já se disse, com A Ilustre Casa de Ramires.

O presente romance constitui um dos títulos queirosianos que mais e melhor atenção têm colhido, por parte dos estudiosos do nosso maior romancista. Contribui para isso o facto de a história dos Ramires (e em particular a do fidalgo da Torre) trazer consigo temas e problemas de grande relevância literária, social e ideológica, ao que se junta um evidente potencial de representação simbólica e mesmo alegórica. A História de Portugal e o seu devir, a mudança das lógicas de poder no Portugal oitocentista, a questão de África e das colónias (em estreita conexão com o trauma do Ultimato), a crítica da sensibilidade romântica e a moda da novelística histórica, tudo isto faz do encontro (ou do reencontro) com este relato um privilegiado motivo para ler algum do melhor Eça. É isso que a presente edição quer propiciar, com o apoio da introdução e da nota biobibliográfica que neste volume se encontram.

(Carlos Reis, Nota Prévia)

 

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