Grupo Eça: A Relíquia e O Mandarim

Teodorico Raposo, por António

O livro aqui apresentado constitui a concretização de pesquisas e discussões, realizadas ao longo de dois anos, acerca de A relíquia e O mandarim, de Eça de Queirós, promovidas pelo Grupo Eça, registrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico — CNPq. Fundado em 2003, o grupo cresceu com a participação de alunos de graduação e pós-graduação da Universidade de São Paulo e, a partir de 2013, tornou-se interinstitucional contando com a participação de professores e pesquisadores de diversas universidades brasileiras e atingiu a internacionalização, em 2016, com a participação de pesquisadores portugueses ligados a diferentes universidades em Portugal, França e Estados Unidos.

A primeira publicação de ensaios resultantes de pesquisas dos integrantes do grupo veio a público em forma digital (http://ge.fflch.usp.br), em 2015, sob o título A obra de Eça de Queirós por leitores brasileiros. Entretanto, a proposta de tratar separadamente os romances de Eça de Queirós — e outras obras –, a cada dois anos, teve início, em 2014 na Universidade de São Paulo, com a realização do “I Encontro do Grupo Eça: a primeira versão de O crime do padre Amaro”. Conforme enuncia o título do evento, as discussões estiveram voltadas ao estudo do primeiro romance publicado em vida pelo autor e suas edições posteriores. Duas foram as diretrizes daquele projeto: publicar uma edição em livro da primeira versão completa desse romance somente impresso na Revista Ocidental, em 1875 — visto que sofreu profundas reformulações em 1876 e 1880 — e elaborar estudos cujo foco recaísse sobre versão original. Produto desse encontro, a coletânea intitulada O crime do padre Amaro — Eça de Queirós — texto da primeira versão e ensaios saiu pela Editora da Universidade Estadual de Maringá (EDUEM), em 2019. No mesmo ano, foi publicado o livro Novas leituras queirosianas: O primo Basílio e outras produções, resultante dos trabalhos de pesquisa apresentados no “II Encontro Internacional do Grupo Eça: O primo Basílio e outros ensaios”, realizado na Casa de Portugal, na cidade de São Paulo, em 2016.

Dando continuidade à produção investigativa do Grupo, A relíquia do mandarim constitui a terceira obra coletiva, congregando o produto das pesquisas apresentadas durante o terceiro evento do grupo. O “III Encontro Internacional do Grupo Eça: O MandarimA Relíquia e suas Fricções” inovou ao sair de São Paulo, origem do Grupo, sendo realizado em duas etapas: a primeira, organizada pelo Programa de Pós-Graduação em Letras e pelo Departamento de Literatura da Universidade Federal do Ceará (UFC), teve lugar nos dias 29, 30 e 31 de outubro de 2018, no Centro de Humanidades da UFC, em Fortaleza; a segunda, numa parceria entre o Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, o Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho (CEHUM), a Fundação Eça de Queiroz, a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal do Ceará (UFC), aconteceu nos dias 26 e 27 de novembro de 2018, nas dependências da Fundação Eça de Queiroz, em Santa Cruz do Douro, Portugal. O apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), por meio do PAEP, possibilitou a participação em Fortaleza dos principais nomes da crítica queirosiana espalhados por universidades do Brasil e da Europa, assim como o apoio do CEHUM e da FEQ possibilitou a participação de pesquisadores brasileiros e portugueses na segunda etapa.

Ana Marcia Alves Siqueira e José Carlos Siqueira de Souza, “Apresentação” a A relíquia
do mandarim. Org. por Ana Marcia Alves Siqueira e José Carlos Siqueira de
Souza. Rio de Janeiro : Oficina Raquel, 2020. (Acesso livre aqui)

A Relíquia segundo Marcatti

Relíquia MarcattiFrancisco Marcatti Júnior (nome artístico: Marcatti) é um cartoonista brasileiro (n. em Sâo Paulo, em 1962), representativo de uma banda desenhada com tendência marginal, subversiva e provocatória,  cultivando um estilo acentuadamente expressionista (ver http://marcattihq.blogspot.pt/ ). Marcatti publicou em várias revistas brasileiras identificadas com aquela orientação, designadamente Chiclete com Banana e Casseta & Planeta; nos últimos anos,  dedicou-se ao romance gráfico (graphic novel), um género da banda desenhada que pode ser considerado homólogo do romance literário. No romance gráfico, uma história com a dimensão e com a complexidade estrutural que usualmente encontramos no romance, desenvolve, em banda desenhada, uma ação relativamente longa, cultivando  uma dinâmica narrativa similar à daquele grande género.

No caso d’A Relíquia de Eça de Queirós, Marcatti leva a cabo  uma remediação daquele relato queirosiano: na sequência de uma primeira representação – aquela que Eça de Queirós levou a cabo, quando compôs A Relíquia como romance crítico e satírico dos costumes clericais e devocionais do Portugal oitocentista –, Marcatti procedeu a uma representação da representação. Para isso, recorreu ao suporte, à linguagem e à lógica narrativa da banda desenhada, alargada à dimensão do romance gráfico.

Relíquia Marcatti2

De Teodorico aos Santos

Teodorico, Topsius e o jucundo Potte, por Rui Campos Matos

Teodorico, Topsius e o jucundo Potte, por Rui Campos Matos

Em certo momento da sua vida, Teodorico Raposo, potencial herdeiro da vasta fortuna de uma tia devota, faz uma viagem àTerra Santa, com o propósito de trazer a Dona Patrocínio das Neves uma impressionante relíquia. A viagem e o projeto de amolecer a rigidez da devota acabam mal: Teodorico é expulso de  casa da tia e confronta-se com as contradições da sua duplicidade moral.  Antes disso, contudo, num sonho que ocupa todo o terceiro capítulo do romance, o devasso Teodorico testemunha os últimos dias de Cristo, numa Jerusalém reconstituída com cuidado arqueológico. Ora a imagem de Cristo e o mistério da ressurreição, episódio fulcral para a fundação do Cristianismo, surgem tocados pela marca de afetos e de vivências humanas, ao mesmo tempo que a religião que nasce ganha uma feição lendária. Para além disso, os termos em que n’A Relíquia  são representados o cenário e o tempo da vida de Cristo remetem para o antigo fascínio que sobre Eça exercia aquele cenário e aquela época de transcendente relevância para o imaginário ocidental. A leitura de  Renan ecoa seguramente naquele fascínio, a par da memória  de  Eça, também ele  viajante pelo Egito e pela Palestina, nos finais de 1869 e, logo então, autor do relato, supostamente inacabado, “A Morte de Jesus” (inserto, por Marie-Hélène Piwnik, no volume Contos I, da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós).

Por aqui se vê que a relação de Eça com a religião, com o Cristianismo e com o seu legado espiritual, incluindo-se nele  o valor da santidade, vai muito além do anticlericalismo dos anos 70. Se é certo que esse anticlericalismo esteve congenitamente ligado a um programa ideológico reformista, a verdade é que ao longo dos anos ele foi dando lugar  a textos ficcionais e a textos cronísticos  que traduzem  uma atração quase idealista pela palavra cristã e pela santidade de matriz evangélica.

Aquele Eça a que nos habituámos a chamar último Eça tem tudo a ver com os sentidos que mencionei. Refiro-me, a este respeito e sem pretender ser exaustivo, a vários textos queirosianos dos anos 90 do século XIX, em muitos aspetos sintonizados com as Lendas de Santos e, em particular, com o São Cristóvão. A crónica “Um Santo Moderno”, publicada na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, em 1892, quando da morte do Cardeal Manning, aponta numa direção muito clara: é possível encontrar manifestações de uma  santidade essencial no final do século XIX,  fazendo emergir na agitação das grandes cidades o franciscanismo ou o exemplo de Santo Antão. No ano seguinte e também na Gazeta de Notícias,surgem duas crónicas  que reafirmam algumas das preocupações formuladas a respeito do “santo moderno”. Ambas se reportam às dúvidas que, em Eça e noutros mais, iam sendo provocadas pelos excessos da “religião” da ciência, pela doxa do pensamento positivista e pelos desígnios da democracia: em “O Bock ideal” e em “Positivismo e Idealismo” reaparecem, como alternativas àquela doxa, o espírito do Evangelho, a prática de vida que ele inspirava e mesmo a sugestão de um catolicismo social cujo mentor, Melchior de Vogüé (1848-1910), suscitava, contudo, algumas reservas a Eça de Queirós. Parece inquestionável, todavia, que a reação anti-naturalista que em “Positivismo e Idealismo” é descrita acaba por desembocar numa consolação: a de ser possível, livremente e sem censuras, invocar de novo esse “santo incomparável” (palavras de Eça) que foi São Francisco de Assis.

(Excerto de “Notas sobre a santidade em Eça de Queirós”, prefácio a uma tradução em inglês do São Cristóvão, a publicar por Tagus Press, University of Massachusetts Dartmouth)

São Cristóvão, em O Mosquito (1953), ilustrado por E. T. Coelho

São Cristóvão, em O Mosquito (1953), ilustrado por E. T. Coelho

 

Imagens d’A Relíquia

A iconografia baseada na ficção queirosiana é abundante e diversificada. De Raquel Roque Gameiro a  Wladimir Alves de Souza e Bernardo Marques, de Alberto de Sousa a João Abel Manta e António, de Lima de Feitas a Paula Rego, são várias  as histórias e as figuras objeto de  processos de transposição intermediática. Contribui-se assim para evidenciar  a sobrevida da personagem queirosiana e também para confirmar Eça  como uma grande criador de figuras ficcionais.

Teodorico, Topsius e o jucundo Potte

Teodorico, Topsius e o jucundo Potte por Rui Campos Matos

Aos nomes citados junta-se agora o de Rui Campos Matos, autor de uma antologia ilustrada d’A Relíquia que merece atenção. Trata-se, como fica dito, de uma recolha de textos daquele relato, abundante não apenas em situações burlescas, mas também em personagens com a marca forte da sátira queirosiana. E assim, as aventuras e desventuras de Teodorico Raposo pelo Egito e pela Terra Santa são refiguradas em dezenas de imagens que acompanham o desenrolar da história. “A Relíquia”, escreve Rui Campos Matos na nota preambular, “é uma obra de vastos e intensos motivos, pela variedade das situações e pela riqueza da geografia oriental que constitui pano de fundo de grande parte do seu texto, onde o humor, a sátira e o herético atingem a máxima acidez e contundência”.

Assim é. E a propósito d’A Relíquia  evoco  uma personagem talvez pouco conhecida, que se manifesta em dois episódios relativamente marginais do romance. Esclareço: Teodorico Raposo, o protagonista e narrador, parte para o Egito e para a Palestina, num trajeto que Eça conhecia bem, porque ele mesmo fez a viagem que  atribui ao protagonista.  Durante o trajeto para a Terra Santa,  Teodorico  convive com outro viajante, o alemão Topsius, académico erudito e senhor de uma sobranceria germânica que incomoda o companheiro português. “Ambos com o mesmo roteiro, podíamos acamaradar” , propõe Teodorico, o que dá lugar a um  frequente diálogo de culturas e de mentalidades que  constitui um fator de afirmação identitária muito significativo: é longe da Pátria e em confronto com um outro que a identidade do sujeito em viagem se afirma com  vigor.

Eis senão quando, uma surpresa: na chegada a Alexandria e ao entrar no hotel, Teodorico é interpelado por um patrício, a tal personagem a que me refiro, dono de uma “sombria história” de emigração infeliz: “Era de Trancoso e desgraçado”, revela o singular Alpedrinha, português perdido pelo mundo, depois de desgostos de amor que o levaram  a Madrid, a Marselha e a Roma, mais longe ainda, a Atenas, à Moreia, a Esmirna e a Alexandria. “E ali estava no Hotel das Pirâmides, moço de bagagens e triste”; e também com saudades da Pátria, claro. Mais tarde, tendo reencontrado “o mofino Alpedrinha”  já em Jafa e quase de regresso a Portugal, Teodorico despede-se do compatriota emigrado com uma reflexão que vale a pena citar:  “Desventuroso Alpedrinha! Só eu, em verdade, compreendi a tua grandeza! Tu eras o derradeiro lusíada, da raça dos Albuquerques, dos Castros, dos varões fortes que iam nas armadas à Índia! A mesma sede divina do desconhecido te levara, como eles, para essa terra de Oriente, donde sobem ao céu os astros que espalham a luz e os deuses que ensinam a Lei. Somente não tendo já, como os velhos Lusíadas, crenças heroicas concebendo empresas heroicas, tu não vais como eles, com um grande rosário e com uma grande espada, impor às gentes estranhas o teu rei e o teu Deus. Já não tens Deus por quem se combata, Alpedrinha! Nem rei por quem se navegue, Alpedrinha!… Por isso, entre os povos do Oriente, te gastas nas ocupações únicas que comportam a fé, o ideal, o valor dos modernos Lusíadas – descansar encostado às esquinas, ou tristemente carregar fardos alheios…”

Teodorico e Alpedrinha por Rui Campos Matos

Teodorico e Alpedrinha por Rui Campos Matos

Em registo de caricatura bem queirosiana, Alpedrinha é o epítome do emigrante português que deambula pelo mundo, atraído, como se diz no texto, pela “saudade dos mares, das cidades cheias de história, das multidões desconhecidas…” Mas esta é uma época de emigração e de aventura já outra, quando comparada com o tempo mítico dos “varões fortes”, celebrados por um  relato do século XVI, com propósito de legitimação  expansionista, Os Lusíadas, evidentemente. E assim, divergindo dos velhos Lusíadas, o Alpedrinha do século XIX, no tempo em que os portugueses emigravam  para o Brasil (mas dessa dispersão emigrante não pode tratar A Relíquia), ilustra, nas terras do Oriente, uma decadência portuguesa que a geração de Eça  denunciou: a espada guerreira da Cristandade perdeu vigor e  legitimidade; e os fardos que o aventureiro carrega são  “fardos alheios” que humilham a memória dos aventureiros do passado. Conclusão, por agora: não se mudam só os tempos e as vontades, como dizia o poeta da epopeia, mudam-se também os modos de tematização da diáspora, os procedimentos retóricos e narrativos que a representam e os efeitos ideológicos que dessas mudanças se deduzem. Algumas dessas mudanças: a viagem  aventurosa já não é modelada pela epopeia, mas pelo romance  satírico e autobiográfico; e a celebração heroica do relato épico dá lugar ao drama pessoal da distância, do abandono e da saudade, nada disso suficiente, contudo, para pôr em causa a solidariedade identitária do “mofino Alpedrinha” com o aventureiro acidental que é Teodorico Raposo.

A Relíquia ilustrada por Rui Campos Matos

A Relíquia ilustrada por Rui Campos Matos

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